Luanda - O ministro da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, advertiu (com o dedo em riste, suponho), recentemente, na cidade do Luena (Moxico), que o Governo não vai permitir que se invirta a ordem (constitucional), aludindo aos tumultos registados no dia 8 de Outubro, na cidade de Saurimo (Lunda-Sul). Acho muito bem. Liberdade, sim; anarquia ou libertinagem, não!

Fonte: Clkub-k.net

Os tumultos de Saurimo resultaram na morte de um número indeterminado de cidadãos e na detenção de mais de duas centenas, durante uma alegada tentativa de rebelião e de ocupação de instituições do Estado. O País já se esqueceu desse episódio, porque os veículos de comunicação não se deram ao trabalho de fazer uma “agenda setting” do sobredito facto.

Prosseguindo. A advertência foi feita em nome do Presidente da República que, certamente panicado, mandou João Ernesto “Liberdade” às províncias do Moxico, Lundas e Cuando-Cubango em força, acompanhado pelos titulares do Interior e da Administração do Território, nomeadamente Eugénio Laborinho e Dionísio Fonseca.

João Ernesto “Liberdade" e a delegação que o acompanhou terão cumprido com o “êxito desejado” a missão que foi incumbida pelo Presidente da República. A missão terá sido tão exitosa que já começaram a “cafricar”, na calada da noite, nos becos, vielas, ruas e avenidas da antiga Henrique de Carvalho, os cidadãos filiados no autodenominado “Manifesto Jurídico Sociológico do Povo Lunda-Tchokwe (MJSPLT)” e do “Movimento do Protectorado da Lunda-Tchokwe” (MPLT).

Sou contra a anarquia. Sou, sim, paladino da unidade territorial. Quero que o Estado imponha e faça sentir a sua autoridade contra quem defenda a secessão de uma parcela do território nacional ou a alteração da ordem constitucional. Mas, sou contra o facto de o Estado estar a agir como “bandido” para impor a sua autoridade.

Não consinto que agentes do Estado andem pelas ruas de Saurimo, Dundo, Moxico ou Menongue a “cafricar” cidadãos à madrugada com o fito de infundir medo às pessoas desta região. Intimidar inermes cidadãos “fora d’horas”? Só a STASI fazia isso, na Alemanha. Prender cidadãos suspeitos de terem praticado um crime contra Segurança do Estado à madrugada? Só a DGI faz isso, lá em Cuba. Romper a porta de casa de cidadãos no escuro da noite, tirá-los da cama e levá-los para lugares incertos? Só a FSB, lá na Rússia. Espancar, cobardemente, cidadãos indefeso sob o manto breu nocturno? Só o RGB, lá na Coreia do Norte.

O Estado tem de agir com transparência e legalidade, se quiser fazer cumprir e ser respeitado como uma Pessoa Colectiva de bem.

O Comando da Polícia Nacional de Cafunfo (Lunda-Norte) está a acossar todos os cidadãos afectos ao MJSPLT e MPLT. O grito de alerta de Filipe Jota Malaquito ecoa. Mas também se Jota Malaquito e José Mateus Zecamutchima quiserem ser levados a sério pelas autoridades, que ganhem coragem e transformem as suas plataformas em partidos políticos, candidatem-se às legislativas e lutem no Parlamento.

Se a Polícia Nacional, a nível local, está a cumprir a orientação dada por João Lourenço, através de João Ernesto “Liberdade” e a delegação que o acompanhou na sua peregrinação pelas províncias do Leste do País, então está a lavrar em erro. Está a cometer um crime e a atropelar Direitos ínsitos na Constituição. Que a Polícia Nacional pare de perseguir os activistas nas lundas, Moxico e Cuando Cubango.

Doutro modo, que se altere a Constituição vigente e se defina nela Angola como sendo um Estado policial e autocrático. Aí as autoridades terão legitimidade para desencadear o terrorismo de Estado que vêm praticando, de forma cada vez mais acentuada, de 2017 para cá.