Luanda - Dezasseis mortos e trinta feridos. Este é o “saldo” de um acidente de viação que ocorreu na madrugada desta terça-feira, 16, no município do Lucala, província do Cuanza-Norte (Angola). O número de mortos pode subir a qualquer momento devido ao estado grave da maior parte dos feridos.

Fonte: Club-k.net

O acidente aconteceu - de acordo com a Angop - quando um camião proveniente de Luanda embateu contra uma carrinha que transportava trabalhadores da empresa de reciclagem de plástico e papelão "Full Bliss-Angola", localizada naquele município, provocando o capotamento da viatura, segundo uma fonte da polícia local.

 

Antes de mais e alguma coisa, toda minha força e solidariedade às famílias cujos ente queridos foram vítimas deste trágico acidente. Assalta-me a tristeza quando ouço falar em perda de vidas angolanas, decorrentes da negligência, irresponsabilidade e mau estado das estradas, depois de mais de duas décadas ter-se enterrado o “machado da guerra” em Angola. O poder político deveria ter vergonha quando se perdessem vidas angolanas nestas circunstâncias ou conexas.

 

Dar-me-ia por feliz se, neste domínio, o Executivo estivesse na mesma sintonia que eu e todos os angolanos de bem. Infelizmente, não me posso dar a este luxo. Há, até ao momento, um  silêncio tumular e indiferente do Presidente da República, que roça a desprezo à vida humana. O chefe de Estado (ainda) não articulou nenhuma palavra de pesar e conforto para as famílias enlutadas e desconsoladas neste momento de nojo e de dor.

 

Será por insensibilidade? Será por indiferença às vidas angolanas? Será por as vítimas serem provincianas? Ou é apenas a confirmação de que a vida dos angolanos não importa ao Executivo?

 

Foram dezasseis angolanos que morreram e dezenas de feridos em estado grave. Tenho para mim que, por essa razão, o PR tem a obrigação constitucional e moral de se pronunciar e, se necessário for, decretar alguns dias de Luto Nacional nos termos da Lei.

 

Se a tragédia tivesse acontecido num país europeu, americano ou asiático, decerto que as autoridades angolanas já se teriam assanhado, mandando, a tempo e horas, uma mensagem de condolências.

 

No ano passado, morreu - sabe-se lá em que circunstâcias – um (atenção: apenas um!) agente da PSP em Portugal. O ministro do Interior foi lesto em enviar uma nota de condolências a Lisboa pelo sucedido. Mas quando suicidam-se agentes da Polícia Nacional, em Angola, Eugénio Laborinho nada diz.

 

Também nos pretéritos doze meses, o PR foi mais rápido que Yul Brynner, a premir o gatilho do seu revólver no faroeste norte-americano, ao exprimir a sua consternação ao povo e Governo cubanos pela morte de dezenas de pessoas na explosão ocorrida no Hotel Saratoga, em Havana, que causou igualmente vários feridos. João Lourenço teve a mesma atitude aquando da morte de 120 pessoas e o ferimento de um considerável número de outras, após uma partida de futebol no estádio de Kanjuruhan, a Leste de Java, na Indonésia.


No Lucala (província do Cuanza-Norte) morreram - sem falar da dezena de feridos graves que neste momento estarão a ser assistidos no hospital municipal local - dezasseis angolanos e não dezasseis passarinhos e o PR dá uma de “João Sem Braço”.

 

Ora, um Executivo que se manifesta indiferente e insensível ante à morte massiva de cidadãos do seu País é, indubitavelmente, adepto da necropolitica. O que quer dizer que para si, a vida dos cidadãos tem preço e não valor. No caso das vítimas de Lucala, as suas vidas não tem nem preço, nem valor. Ou seja, em Angola, nem todas as vidas importam. No linguajar shakesperiano dir-se-ia: “In Angola, not all lives matter!

 

*Tradução: Em Angola, nem todas vidas importam”!