Lisboa - Henrique Santos, o “Onambwe”, alcunha ou nome de guerra, cujo sinónimo ignoro, mas pela conduta que mostrou nos leva a crer ter sido conseguida por uma qualquer canalhice datada da juventude, quem sabe em Porto Amboim, onde consta ter este figurão nascido. É, a par de Lúcio Lara, outra das eminências pardas do MPLA – mais propensa ao regabofe dos copos e da malandragem, diga-se a verdade – que aportou à Luanda já em rebuliço, regressando do exterior graças ao 25 de Abril de 1974.

Fonte: 27maio.org

Desde então sempre foi visto como um dos homens da segurança, antes desta ser do Estado, concorrendo com João Rodrigues Lopes, o “Ludy Kissassunda”, outro ignoto cognome, com quem se dizia sustentar um desaguisado promotor de polícias paralelas.

Nas imagens que observamos da “descoberta” da famigerada ambulância calcinada, no interior da qual se encontram os restos mortais dos comandantes, que deram literalmente o corpo, ao plano “B” de Onambwe, Iko Carreira e outros mais, acaso faltasse o quinhão e a firmeza a Agostinho Neto, no correctivo destinado aos “golpistas” do 27 de Maio, nesse pequeno filme exibido na altura pela TPA, pode-se observar um general nervoso, o general Zé Maria e um civil afoito o Melo Xavier, em contraste com um comandante impávido e sereno ante uma crueldade que não o apanhava de surpresa, muito pelo contrário.

Do juízo deste comandante, o “Onambwe”, saíram as muitas sentenças de morte nos pós 27 de Maio de 1977. “Onambwe”, “interrogou” Sita Valles, e quem por fatalismo, espreitou pela incauta fresta de uma porta, que se abriu e fechou para dar passagem a mais um torturador, presenciou o macabro e a humilhação, que o pudor me inibe repetir, descrição que me foi feita por uma vítima que esperava o seu momento a sós com o verdugo “Onambwe”, uma madrugada dos idos anos de 1977, em Luanda, nos corredores do ministério da defesa.

Chegou por fim o derradeiro dia, “Onambwe” morreu. Quantos de nós, sobreviventes, ainda nos lembramos, passados quase cinquenta anos, do pavor que o seu nome impunha quando se ouvia dizer, nas várias celas da cadeia de São Paulo; o “Onambwe” está aí! As suas visitas eram sinónimo de desastre, à noite as ambulâncias saíam cheias e regressavam vazias.

Porém, há lugar para tudo, é preciso retocar-lhe a imagem, e branquear-lhe a conduta. Repare-se no esplendor da participação da sua morte. Vai ter honras na chegada ao aeroporto, o seu corpo vai estar presente na missa que vão dizer, o hino nacional vai ser entoado em sua graça, receberá flores, elogios fúnebres, pregados certamente, pelas mais altas individualidades do MPLA e vai ainda passar por um espaço de meditação cristã, seja lá o que isso for, quiçá o derradeiro lugar para lhe apagarem as nódoas na folha de serviço, e tudo isto emoldurado por militares trajados com o fato de uso diário e com o boné na cabeça, suponho.

Estamos a assistir à debandada dos escroques da repressão. Foi-se o Ludy, o Veloso, agora este e em breve o Carlos Jorge, o Cansado, o Inácio, etc,etc. e todos eles vão levar preso ao peito uma distinção; a medalha da impunidade.

Contra a impunidade, viva a verdade!

José Reis

18 de Outubro de 2023