Luanda - Quando o país vive uma situação social e económica tão grave, o dia de hoje deveria ser de esperança e de união. Mais do que os interesses partidários, os nossos políticos deveriam, hoje, ter capacidade para colocar Angola e os angolanos em primeiro lugar.

Fonte: JA

Em condições normais, todo o país deveria estar concentrado, hoje, na busca de soluções para os principais problemas que os angolanos, actualmente, enfrentam.

 

E os angolanos, sobretudo as famílias e as empresas, estão a passar por enormes dificuldades. Aumentou consideravelmente o número de famílias que perdeu o poder de compra, por conta das altas taxas de desemprego, baixos salários, alta de preços dos produtos básicos. Por sua vez, as empresas, que poderiam assegurar mais emprego e mais renda para as famílias, seguem na sua grande maioria para a asfixia: demasiados e pesados impostos, pouco crédito e muitos casos de falência. Tanto as famílias como as empresas necessitam de planos emergenciais de salvação. As famílias em situação de extrema pobreza necessitam de um plano emergencial, que assegure o fornecimento de alimentos, uma cesta básica mínima para essas famílias. Do mesmo modo, há necessidade de um plano de salvação de empresas, sobretudo as pequenas e médias empresas, que enfrentam tantas dificuldades, que ao invés de aumentar, diminuem as vagas de emprego e outras não resistem e declaram falência.

 

Em condições normais, hoje, todos nós estaríamos à espera que o Presidente da República fizesse um discurso do estado da Nação concentrado no combate à extrema pobreza e nas soluções para os problemas económicos e sociais do país. O quadro actual recomendaria, não só ao Governo e ao partido no poder, que tivessem essa responsabilidade e dever, como também a própria oposição deveria pressionar o Presidente da República a apresentar uma solução, um caminho, uma saída que produzisse rapidamente efeitos na melhoria das condições de vida dos angolanos.

 

Dizemos, repetidas vezes, em condições normais. Não somos um país normal. Não temos políticos normais e, por isso, no momento em que os cidadãos mais precisavam que se unissem em busca de soluções para a grave situação social e económica, os nossos políticos discutem vaidades e processos sem qualquer impacto na vida dos angolanos.

 

De acordo com o nosso povo, não se aconselha ninguém a fazer filhos com a mulher do outro ou a construir uma casa em terreno que não seja sua propriedade, sob pena de ficar dependente da decisão do marido ou do dono do terreno. Para o sucesso de um processo de destituição, a UNITA dependia inteiramente do MPLA. A UNITA desencadeou um processo acreditando que deputados de outro partido iriam ajudar e perdeu. O resultado deste fim-de-semana mostra que nem sequer conseguiu que os outros membros da oposição votassem a favor da continuidade do processo. Foi uma perda de tempo e, pior ainda, um desviar da atenção e do debate público para um processo absolutamente infértil, quando o que precisamos são soluções para a actual situação social e económica. O processo de destituição foi uma perda de tempo e a sua insistência, como já foi anunciado pela UNITA, é apenas a continuidade de um disparate. Sabia-se isso desde o início. Escrevemo-lo aqui há três meses.

 

Precisamos é de discutir a situação social. A expectativa é que hoje, em vez de um desfile de realizações e obras feitas, o discurso do Presidente da República seja focado em soluções e envolva mais produção nacional, mais crédito para a economia, planos de sobrevivência para as empresas e para as famílias e planos para o aumento do emprego.

 

Todo este espectáculo da destituição permite-nos confirmar uma completa falta de sintonia entre os interesses dos políticos e as preocupações dos cidadãos. Enquanto os angolanos estão interessados em melhorar a saúde, educação, emprego, habitação e bem-estar da maioria, onde ainda milhares de pessoas enfrentam problemas básicos como a alimentação diária, o abastecimento de água potável e energia eléctrica, os políticos, que deveriam actuar como seus representantes, discutem temas completamente irrelevantes para o quotidiano dos angolanos.

 

Queremos saber das autarquias e queremos todos que o Presidente e os políticos falem sobre elas. Que se estabeleça, enfim, um cronograma para a sua realização. Queremos debater o aprofundamento da reconciliação nacional não só no alargamento da acção da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), mas também passarmos a ter nacionalistas e heróis não apenas afectos ao partido no poder com nomes em instituições, ruas e largos. Queremos mais transparência e mais lisura na actuação dos tribunais e, acima de tudo, queremos que a luta contra a corrupção traga mais benefícios do que prejuízos.

 

Não há dúvidas de que é legítima a luta dos partidos políticos pela manutenção e tomada de poder, mas se essa luta não for acompanhada da satisfação dos interesses dos cidadãos, corremos o risco de o país embarcar em convulsões sociais descontroladas.

 

Cabe aos políticos, todos eles, com o Presidente da República a liderar, apresentar uma saída e um caminho de esperança. Precisamos, mais do que nunca, de um caminho de esperança, que tem necessariamente de ser feito por todos.