Luanda - No fatal cumprimento do calendário gregoriano, chegamos a mais um dia 11 de Novembro. O tempo não espera nada nem ninguém. Está a fechar-se o primeiro terço do segundo milênio. Sem remédio que valha, nos aproximamos, mais incrédulos e temerosos do que nunca, ao final do ano de 2023.

Fonte: Club-k.net

Em memória de Teresa Azulay “Candinda”

Parece mentira, mas já se foram 48 anos desde aqueles periclitantes dias , das esperanças esfumadas, minha mãe querida! Ninguém escapará das consequências divinas do dobrar dos dias. Felizmente, haverá um momento para acertar contas mal saldadas. Deus vê tudo lá do céu.

O 11 de Novembro não é uma data qualquer em nossas vidas. Eis que, o dia 11 voltou, para nos fazer recordar os nossos sofrimentos antigos, substituídos por prometidas esperanças, sucessivamente adiadas.


Mamãe Candinda, hoje chegamos a mais um dia a ti dedicado. Foi muito tempo passado, desde aqueles amargos entardeceres, em que olhávamos o horizonte desesperançados, enquanto as águas barrentas do eterno Cambongo levavam as nossas lágrimas sofridas e as nossas ancestrais súplicas, para os redemoinhos da barra e depois desapareciam simplesmente, como sonhos desfeitos no mar infinito.,


São 48 anos que passaram. Neste dia, reencontro-me com a História em mais um despertar inquieto, de infinitas insônias, tal como acontece em outros dias. Ergo-me e ofereço um beijo de extrema ternura no teu inseparável retrato, minha inesquecível mãe, Teresa Azulay “Candinda”.


Como te amo, querida mãezinha! Desejaria tanto ter-te agora, aqui a meu lado, e ao nosso lado, o mano Nelito, a Virita e a Yaya. Gostaria imenso beijar as tuas mãos sofridas, de tanta roupa que lavaste no rio Cambongo, para que eu e meus irmãos pudéssemos ir à escola, naquele tempo antigo, de tanto sofrimento passado na extrema pobreza que nos rodeava, implacável como o sol inclemente da Mbumba, em Novo Redondo!


Era eu , ainda, um imberbe rapaz, mas recordo o quão estúpido fui, em ir procurar revolucionários feitos heróis de pedestal, quando, afinal, te tinha a ti, minha heroína negra de corpo e de alma, sofrendo com frio, para cobrir-me no teu regaço com inigualável doce ternura.


Mamãe, em profunda penitência, mais uma vez te peço infinitas desculpas, por todo o sofrimento que te causei, quando fugi de casa em 1975, para me juntar aos meus amigos, combatentes, no MPLA.


Tu, afinal, sabias tudo de tudo, enquanto passavas com esmero, a roupa com um ferro a carvão. Armado em carapau de corrida, eu nem sequer te dei ouvidos, mãezinha. Eu pensava que já era muito forte e para mal dos pecados, tinha uma arma de guerra nas mãos.


Mãe, tal como previste nos teus sábios conselhos que, desgraçadamente, não escutei, vieram mais tarde os homens maus e muito estranhos, que se alimentaram do sangue e das lágrimas dos inocentes.


Para não te fazer padecer mais do que foi a tua vida sofrida, por ti, preferiria que nunca tivessem existido os dias amargos que te proporcionei, quando, em vão me procuraste por todo o lado.


Em lágrimas imploravas aos nossos ancestrais, choravas no mais profundo do teu ser, devolvam o meu filho. Que pecado cometi eu, para merecer tamanho sofrimento de perder o meu filho caçula?


Mas eu não entendia assim, minha querida maezinha! Queria lutar pela independência, para que tu não sofresses nunca mais a humilhação do atestado de pobreza na Administração do Concelho colonial, para que nós pudessemos estudar também, como os outros meninos. Simplesmente pudéssemos comer bem como eles. Para termos , também remédios para as constantes pneumonias e gripes que contraiamos , devido a humidade dos pingos da chuva escorrendo sob o tecto de capim da casa que construímos com as nossas próprias mãos, lá longe, na inóspita montanha da Mbumba.


Num dado dia, ainda menino, fui como soldado e não voltei mais. Começava o teu infindável calvário. Por um tempo passado , de lágrimas e de dolorosa ausência, deixaste de saber de mim. Os dias passavam pesados como chumbo e, depois, só esperavas a factídica notícia consumar-se. Isso felizmente, nunca chegaria a acontecer, até te despedires de nós, num dia insuportavelmente amargo, em 1991.

Mamãe, afinal, és tu a Novembrina brisa tão esperada, sem mágoas nem prantos. Minha Candinda, com firmeza te digo: tu simbolizas o dia da Nossa Independência!

Um beijo de ternura para ti mãe, nesta data memorável.

Mamãe, para mim tu foste, és, e serás sempre a minha Pátria!
J.A.