Luanda - Nasci numa época e numa década em que os ventos do nacionalismo em muitos dos territórios, então sob jugo das potências colonizadoras, no continente africano, se faziam sentir, e, consequentemente, os mesmos iam alcançando as suas independências e tornavam-se soberanos.

Fonte: Club-k.net

Sou contemporânea de um Partido Político com o qual os meus pais se identificaram e apoiaram, mesmo antes da sua existência formal; e com o qual também me identifico, desde que me conheço: a União Nacional para a Independência Total de Angola – UNITA.


Quando aprendi a ler e a me expressar, mesmo sem perceber o alcance das notícias radiofónicas que o meu saudoso pai, Nunes Kacipui Sapalalo (de feliz memória) escutava, sintonizando cuidadosamente, emissoras estrangeiras, e cujo som era difundido através de um aparelho de marca Philips, comecei a me consciencializar que havia algo muito mais intenso, que ultrapassava o meu entendimento, pelo menos, naquela altura.


A forma engenhosa com que o senhor “Saparalo” (adaptação do nosso apelido à língua portuguesa) encostava o ouvido ao referido aparelho, completamente absorvido pelas notícias que só ele conseguia ouvir, dava para presumir o grau de importância das mesmas.

Paradoxalmente, não percebia porquê que o meu pai preferia manter o som baixíssimo, quase amparando o rádio, quando podia simplesmente aumentar o volume do mesmo!


Afinal de contas, tudo se resumia nos rumores que se faziam sentir sobre o fim do sistema em que se vivia e o prenúncio da independência. Quando esta, finalmente, chegou, a sensação com que fiquei foi de que Portugal, ou melhor, nós (os portugueses à espera de sermos angolanos), estávamos todos em festa; pois, seríamos, daí em diante, livres...


Porém, não foi preciso muito tempo para descobrirmos que a independência política vai para além do fim de um regime opressor, pois ela exige a assunção de responsabilidade por parte dos detentores do poder político.


Era cedo demais? Talvez não. Era muito tarde? Também é discutível. Mas então, o que falhou? Não vou trazer aqui o desenrolar dos Acordos de Alvor, como tal, porque têm sido sobejamente discutidos e analisados, pelo menos, ao longo dos últimos quarenta e oito anos.


Por esta razão, trago à baila um exercício político – científico diferente, baseado na matriz da UNITA, ligado, por sua vez, aos termos da sua designação. Senão, vejamos: União Nacional para a Independência Total de Angola – UNITA; segundo o dicionário de Língua portuguesa, unir, significa acto ou efeito de unir; acordo; aliança; conformidade de esforços ou de pensamentos; harmonia, entre outros. Assim sendo, a UNITA já nasceu com o condão de unir o povo angolano; de criar uma aliança com os angolanos, baseada na igualdade de todos; o Dr Savimbi, cumprindo o princípio de “Manter a Direcção do Movimento no interior do país”, foi o grande precursor da defesa da liberdade e da Independência Total de Angola, premissa que não se encontra explícita em mais nenhuma designação dos outros então movimentos de libertação.


Ao contrário, o Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA (que já foi PT), nunca teve e não tem, na sua origem, esta ideia de unificar o país; razão pela qual não pode dar aquilo que não tem.


E é aqui onde entram o Preço e o Peso da Independência. A falta de compromisso e de comprometimento para com o povo, não são senão a consequência lógica e imediata da ausência de uma perspectiva de origem congregadora que corresponda às aspirações do povo.


Estamos a pagar um preço muito alto por uma tal independência desviada e/ou confiscada por um grupo há quarenta e oito anos e completamente desajustada dos propósitos de um Estado. A existência de um Estado, resultante de um processo de independência, apenas se pode justificar pelos fins que o mesmo prossegue. E estes, por sua vez, só fazem sentido se proporcionarem uma qualidade de vida condigna às suas populações, isto é, se estiverem ao seu serviço.


É imperioso o concurso de todas as forças vivas do país para aligeirarmos o peso desta independência, de modo a descortinarmos e a praticarmos, dentro da “independência política”, as outras independências e liberdades, tais como: de expressão; de reunião; de manifestação; de imprensa, entre outras.

Este exercício passa, também, pela concretização do modelo ou sistema governativo democrático, teoricamente propalado, como forma de evitar, sistematicamente, a inversão de prioridades. Embora saibamos que a política interna e a política externa se influenciam mutuamente, não me parece de bom tom que o Presidente da República se preocupe mais em figurar na arena regional e continental como grande referência, quando a nível doméstico, a maior parte das famílias se depara com situações gritantes de fome, de degradação da vida social e outras carências.


Tal como o Preço da Independência está muito pesado, também o Peso da Independência está a nos sair muito caro.


Por conseguinte, eis a pergunta que não se quer calar: que preço os angolanos terão de pagar e que peso terão ainda de carregar, para que, volvidos quarenta e oito anos, esta  independência seja plena?


Convém lembrar que o poder nunca pode ser um fim em si mesmo, mas sim um meio para alcançar um fim.


Luanda, aos 11 de Novembro de 2023

Por: Alice Sapalalo Chivemba