Luanda - O historiador português, João Pedro Marques, foi mais uma vez apanhado a andar na contramão da história com o seu artigo, repassado pelo Club-K, intitulado: A versão africana da história é ingénua ou astuta?

Fonte: Club-k.net

No seu texto, o veterano “historiador da escravatura” procura travar com todas as suas forças os novos ventos vindos da Conferência – Construindo uma Frente Unida para Promover a Causa da Justiça e o Pagamento de Reparações aos africanos – realizada em Accra, capital do Ghana.

 

Para não variar, João Pedro Marques posiciona-se contra todos aqueles que têm uma opinião diferente da dele. E se a tal opinião for a da reparação compensatória, aí ele descontrola-se, chegando ao ponto de desqualificar, inclusive, autoridades públicas de outros países que se atrevem a tocar nesse assunto. Ele prefere não assumir o papel vergonhoso que Portugal desempenhou no tráfico de escravos. Por isso mesmo, reprovou publicamente o pedido de desculpas que o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, endereçou recentemente ao povo brasileiro. Passados sensivelmente sete meses da reprovação ao pedido de desculpas, o historiador astuto atira-se contra o ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República de Angola – Adão de Almeida – por ter feito uma brilhante intervenção durante a referida Conferência. Adão de Almeida foi feliz e soube representar dignamente os descendentes de Ngola Likuanji, Viye, Nzinga Mbandi, Mwene Mbandu, Mandume ya Ndemufayo, Mutu-ya-kevela, Mwatchiyava, Ekwikwi, Kapalandanda, entre outros. A postura corajosa que o nosso ministro teve em assacar “sem papas na língua” as responsabilidades da colonização aos colonizadores enervou notoriamente o notável historiador. (Quando os argumentos começam a escassear, Pedro Marques usa a sua arma predilecta – distorcer os factos históricos sobre a escravatura para culpabilizar as vítimas).

 

Não tenho o domínio dos meandros da Conferência, mas acho que foi oportuna e deve avançar com os seus propósitos. Apenas, como opinião, diria que África não deveria andar sozinha nesse processo. Seria interessante interagir com certos países da América Sul, como a Guiana Britânica, e se convidasse alguns estudiosos afro-americanos para colher mais contribuições. Bem feito o trabalho de casa, partir-se-ia para uma negociação com propostas muito bem fundamentadas para a criação de um quadro jurídico-legal que impusesse a reparação compensatória aos países/comunidades brutalmente afectados pela repressão colonial.

 

A verdade é uma, o debate sobre as compensações constitui um recado muito sério àquelas potências que, ainda hoje, se acham no direito de invadir países independentes e anexar territórios alheios. Quem continuar a agir como o todo-poderoso, aquele que faz e desfaz, saberá que, a seu tempo, os seus descendentes “pagarão” pelos desmandos cometidos hoje. Toda herança construída com o saque a outros povos deve ser questionada e renegociada. Daí fazer todo o sentido que se exija dos actuais governos europeus uma espécie de Compensação. Para tal, uma boa conversa entre os estados facilitaria sobremaneira este processo irreversível. Mas, por aquilo que se vê e se vai lendo dos textos do historiador João Pedro Marques, percebe-se logo que a batalha será renhida, principalmente quando se abordar o país de Diogo Cão e de Oliveira Salazar. Aliás, João Pedro Marques tem advertido ao seu governo para se preparar devidamente no sentido de evitar que o “ouro” saqueado das províncias ultramarinas e depositado no Banco de Portugal voltasse à procedência. Adivinha-se que Portugal não irá facilitar as coisas. Infelizmente foi sempre assim. Portugal dificilmente toma iniciativa de boa-fé: só vai à força! só vai à pancadaria! Foi assim com as independências dos territórios sob seu controlo. O Governo Português nunca quis largar Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné. Naquela altura, arranjou artifícios para se esquivar das independências, dizendo que esses territórios eram províncias do ultramar. Foi preciso pegar em armas e derramar sangue para demonstrar que, por exemplo, Angola não era uma província de Portugal, mas sim, um território africano que tinha um povo que merecia ser livre e independente.

 

Quanto à colonização em si, é consabido que, se por um lado facilitou o intercâmbio entre povos, por outro, desestruturou largamente as comunidades indígenas. É claro, ninguém saberia nunca como seria África sem a escravatura. Mas sabemos como é que alguns países africanos eram antes da invasão europeia; sabemos que muitos europeus foram estudar para o Egipto; sabemos que as pirâmides foram construídas mil anos antes de Pitágoras nascer; sabemos que África é o único continente no mundo com múmias de seus soberanos que viveram antes de Cristo; sabemos que utensílios em ouro, prata, bronze, ferro, madeira, barro, entre outros, eram usados pelos nossos antepassados antes do contacto com os europeus. Ora bem, se não houvesse escravatura; se não houvesse a vergonha do tráfico transatlântico de escravos; se os europeus viessem para África a fim de trocar experiências e fazer negócios justos – do tipo: dá-me o que tens, em troca, eu dou-te o que possuo, como quem diz: dá-me riqueza mineral, e eu ensino-te a ler e a escrever – se bem que, segundo historiadores, milénios antes de Cristo, os africanos do Egito já escreviam algumas coisas e sabiam fazer contas, construíam templos que sobrevivem aos tempos, conheciam muita coisa sobre anatomia, preservavam os seus cadáveres, trabalhavam os minérios, praticavam agricultura e se relacionavam com outros povos. Quem nos garante que a colonização não foi um mal que deveria ser evitado? É má-fé pensar que o africano é inferior ao europeu. Platão, Pitágoras, Thales de Mileto entre outros sábios europeus estudaram por vários anos no Egipto (África). Por isso, fica fora de hipótese deduzir-se que África seria primitiva sem a presença europeia. Aliás, os reinos africanos pré-coloniais desmentem esta teoria de alguma direita radical.

 

Tenho a absoluta certeza de que se o Europeu quisesse, poderia seguir um outro caminho, e não o da escravatura. Havia outras hipóteses de relações entre povos. E se assim fosse, hoje teríamos uma África melhor.

 

Infelizmente, o experiente historiador João Pedro Marques – por quem nutro admiração pelo seu profundo conhecimento sobre a história da escravatura – procura com astúcia escamotear os factos históricos e vai tentando aconselhar aos decisores políticos portugueses a prepararem-se devidamente para uma iminente batalha dos bilhões de dólares, resultante da infeliz decisão de seus antepassados de escravizar outros povos.

 

Senhor João Pedro Marques, o nosso Ministro de Estado, Adão de Almeida, disse, em Accra, a verdade que o senhor não gosta de ouvir: ” … as Reparações Compensatórias são uma questão de justiça para com a história do continente africano e de respeito pelos seus antepassados.” – Nada mais certo do que isso!

Voltarei…

Huambo, 27 de Novembro de 2023.