Luanda - A resposta da Federação é irrefutável, ainda mais porque o seu conceito de verdade desportiva, muda consoante a direcção do vento! A permissividade fez com que a Federação abrisse precedentes que lhe fizeram perder a autoridade moral, tanto é assim que os clubes já perceberam que quem deveria proteger o templo, é o primeiro a incentivar o saque, desde que o ladrão seja esperto e não se deixe apanhar.

Fonte: Jornal dos Desportos

A mensagem clara que a Federação passa, através do cada vez mais descredibilizado Conselho de Disciplina, é que quem não for apanhado com boca na botija, não pode ser punido, mesmo que existam provas irrefutáveis, como boletins de jogos.


Ainda bem, que é a Federação e não eu, quem se esforça em provocar a mais vigorosa repulsiva nos que defendem o jogo limpo. O nosso futebol não pode tornar-se naquilo que Gary Edwards chamou de “cultura que às vezes exalta a desonestidade.”


Como o 1º de Agosto mais uma vez preferiu defender-se com o silêncio, cada um de nós é livre de tirar as conclusões que quiser. O quem cala consente, bem aplicado de novo pelos militares, é a ponta de um iceberg, que não pode continuar a ser ignorado, se não quisermos assistir ao naufrágio do Titanic do nosso desporto, o Girabola.


O Conselho de Disciplina mais uma vez foi ao encontro da comparação daquele famoso relógio que ou está atrasado demais ou está adiantado demais. A justíssima punição do 1º de Agosto vem no mesmo comunicado oficial Nº. 39/SG/23, de 23 de Novembro de 2023, que também contém o alívio do FC Bravos do Maquis, que fez o mesmo que o 1º de Agosto, utilização irregular de um jogador, mas como o Recreativo do Libolo protestou depois das 72 horas úteis, os maquisardes escaparam impunes!


Se a própria Federação assume publicamente que tem no pulso um relógio que não é de confiança, porque ou está atrasado demais ou está adiantado demais, fica claro por que um técnico do Isaac de Benguela, aparece num áudio, amplamente partilhado nas redes sociais, a revelar como ele em concluio com a sua direcção violaram deliberadamente o artigo 51º. do Regulamento de Disciplina, sem que nada lhes acontecesse!


Eu até aceito que o áudio foi feito de forma ilegal e fraudulenta, me parece que um dirigente do FC Bravos do Maquis, uma das equipas que apresentou um protesto, fez o telefonema e gravou tudo. Mesmo que a Federação tenha descartado a prova do áudio, ainda restariam os irrefutáveis boletins de jogos do Girabola e da Taça de Angola.


Eu sei qual é a diferença entre uma lei e um princípio, é por isso que questionei: E se o Petro não protestasse? Que o leitor use de discernimento, pois no artigo 51º., Inclusão irregular de interveniente no jogo, reza o seguinte: “O clube que em jogo oficial mencione na ficha técnica ou faça intervir no evento desportivo jogador, técnico ou outro agente desportivo que não esteja em condições legais ou regularmente de o representar ou por si intervir nesse jogo, é punido com derrota...”


Quem achar questionável esta Linha Lateral, seguramente está a abrir caminho em linha torta, ainda mais porque foi há pouco tempo que a CAF invalidou a licença que tinha passado em nome do técnico Agostinho Tramagal. Ele por não possuir o curso exigido pela CAF, não podia orientar nem sentar no banco nos jogos das afrotaças, mas a Académica inventou uma secreta solução interna para inscrevê-lo como técnico principal, funcionou em pleno, até que um “chibo” alertou a CAF, que agiu na hora!


Se os clubes do nosso futebol são useiros e vezeiros em não competir segundo as regras, a Federação pode fazer tudo, menos continuar na sua zona de conforto. Com ou sem protesto, a Federação tem de ser como o nosso saudoso Zé Botão, que antes de tornar-se num destemido soldado, já nos tranquilizava como o imprescendível quarto defesa, que zelosamente não deixava passar nada, porque era carrula.


O quarto defesa desapareceu do futebol angolano, mas a Federação pode aceitar o desafio de desempenhar bem este papel, porque não é nada normal a sucessão de casos que realmente tiram a seriedade do nosso futebol. A apresentação de um protesto nunca deveria ser condição indispensável para a Federação agir. Bebé que não chora não mama, mas também é verdade que o leite não ferve quando olhamos para ele.


Os regulamentos são como balizas. A Federação não pode deixar ler nas entrelinhas que além de distraída, também é negligente! Certamente, se os clubes aceitam ir a jogo com a inclusão irregular de interveniente, seja ele treinador ou atleta, é porque há uma brecha que não depende apenas de um protesto para ser fechada.


Mesmo se acontecesse uma única vez, já seria demais para exigir uma mudança de postura da Federação. Deixar impune o Isaac de Benguela na época passada e agora o Maquis, é fingir que da mesma fonte pode brotar água doce e água amarga!