Luanda - Temos a certeza de que é ainda prematuro afirmar que estamos a registar uma alteração no modo de fazer oposição da UNITA. Na verdade, ainda não existem sinais de uma indiscutível alteração, mas já se percebem alguns sinais de mudança na opção, legítima, que a UNITA fez de ser uma oposição de obstrução.

Fonte: JA

Pertencemos ao grupo de analistas políticos que sempre criticaram o principal partido da oposição por protagonizar um discurso de bota abaixo, que se colocava em todos os assuntos numa posição de obstrução e crítica às medidas do Governo. Nalguns casos até se verificava o absurdo de vermos a UNITA a vir criticar publicamente leis e medidas que no debate parlamentar tinha apoiado. Nos discursos dos dirigentes da UNITA não conseguíamos descortinar o bom senso e o equilíbrio que também se pede aos opositores políticos, que devem ter a ética de reconhecer as coisas, ideias ou medidas que, vindas dos seus oponentes, sejam correctas e benéficas para o povo e por isso merecedoras da aprovação da oposição. Pela lógica da oposição, nada vindo do Governo era merecedor de aprovação.

 

Convém reconhecer também que essa atitude da oposição sempre teve também muitos defensores. Fruto da excessiva polarização política, desenvolveram-se correntes de opinião extremistas que defendem a ideia de que a oposição é isso mesmo e é para opor-se a tudo que venha do Governo; enquanto não for Governo não deve apresentar qualquer proposta alternativa e muito menos aprovar políticas governamentais ou o Orçamento Geral do Estado. O argumento é que apoiar as coisas boas que eventualmente estejam a ser feitas pelo Governo retira o protagonismo político da oposição e, por outro lado, também está relacionada com o facto de não existir um diálogo entre as forças políticas da nação sobre as prioridades estratégicas do país. Não se pode esperar que a oposição apoie medidas para as quais não é previamente ouvida e, até, em muitos casos se opõe.

 

De outro lado, estavam ainda assim muitos críticos que consideravam excessiva critica que era feita a tudo o que se faz, dizendo-se mal de todos e de tudo, criticando-se e ofendendo raivosamente os opositores, usando o exagero e o insulto directo como argumentos.

 

Naturalmente, a crítica política baseada no bota abaixo, má-língua e mesquinhez em nada contribuía para o fim do ambiente de crispação e para a promoção do diálogo entre as forças políticas. Embora não justifique completamente, mas torna compreensível que os líderes das principais forças políticas do país não se sentem mais vezes para discutir as matérias realmente importantes para o presente e sobretudo para o futuro do nosso país. Pelo contrário, a persistência no menosprezo, diminuição do mérito e da não aceitação/reconhecimento do adversário estimula a criação de espaços de bloqueio institucional como se uns não pudessem contar com outros para nada.

 

Como referimos, pode ser prematuro, mas alguns sinais deixam entender uma viragem no posicionamento da UNITA. Longe de qualquer insinuação sobre o maior partido da oposição ter deixado de ser critico do Governo. Não se trata disso. A viragem parece ter a haver com a mudança de estilo de um exercício da crítica absolutamente pessimista e sem esperança para um tom mais racional, mais disponível a reconhecer que apesar dos erros, há também alguns acertos e avanços. Nas últimas declarações públicas, o maior partido da oposição não parece tão "preso” ao negativismo, com transmissão de mensagens como se fossem desejar ou mesmo congratular-se com o facto de as coisas não correrem bem ao país.

 

O discurso de oposição, que é normal em quem aspira chegar ao poder, parece estar a perder o tom de intransigência e sectarismo que já lhes eram comuns, para agora mostrar-se mais próximo do país e reconhecedor dos fenómenos e das acções que podem ser benéficas para o povo angolano, apesar de serem da iniciativa do Governo.

 

Uma deputada da UNITA desvalorizou completamente essa observação, afirmando que a oposição nunca foi defensora do bota abaixo, responsabilizando a comunicação social de projectar essa imagem negativista da oposição.

 

Seja como for, esperemos que de facto esteja a acontecer uma mudança de postura da oposição. A bem do processo democrático do país e da criação de um ambiente político mais favorável, esperamos todos ver uma UNITA que não se mostre tão preocupada com o que o MPLA faz ou deixa de fazer, com excesso de referências ao seu principal opositor na sua narrativa política. Queremos uma UNITA mais positiva em prol da melhoria de vida dos angolanos, fazendo críticas que levem a medidas com impacto directo na vida dos cidadãos, como aconteceu recentemente no debate orçamental.

 

Mais do que os ataques pessoais, o tom pessimista sobre a economia nacional ou considerações menos elogiosas sobre o Presidente da República, é possível fazer-se uma oposição com sentido de estado, que ponha os interesses da nação acima das querelas políticas; que saia em defesa dos cidadãos, que faça críticas justas e certeiras contra a lentidão do Governo, ou contra a falta de medidas imediatas para combater urgências.

 

Oxalá a UNITA tenha conseguido já maturidade bastante para fazer uma oposição mais competente, que seja capaz de resistir à tentação imediatista de cair no insulto e no bota abaixismo, optando por uma oposição séria e responsável assente mais na defesa dos interesses dos cidadãos e não na politiquice.

 

Em termos de futuro, uma oposição de postura estadista tem mais probabilidades de roubar votos ao partido no poder do que o radicalismo do bota abaixo e da linguagem insultuosa ou desvalorizadora dos adversários. É essa a viragem que temos vindo a observar nas últimas declarações públicas dos dirigentes da UNITA. Esperemos que não seja sol de pouca dura.