Lisboa - Faço parte de uma geração que sobrevive atormentada por um permanente conflito entre o promissor paraíso que as enormes potencialidades deste nosso grande e belo País nos proporcionariam e o real inferno gerado pelo nosso desastroso desempenho na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais.


Fonte: Semanário Folha8

Angola nunca foi rica para os angolanos

ImageÉ bonito, sim senhor, contemplar as favoráveis projecções estatísticas sobre a nova era angolana, amplamente, divulgadas pela comunidade internacional. É animador ouvir os especialistas estrangeiros garantirem que somos a economia do mundo que mais cresce e que seremos, de longe, o mais próspero país de África.

 

Mas o doloroso regresso a Angola real obriga-nos a reavaliar as projecções das organizações internacionais e a repensar as garantias dos especialistas estrangeiros. Por isso, e por mais que doa e custe a muitos, a minha geração precisa de questionar, repensar e debater tudo aquilo que se tem dito sobre as míticas riquezas de Angola.


O General Iko Carreira (1933-2000), um dos mais influentes nacionalistas que lutaram pela independência de Angola e que foi braço direito de Agostinho Neto, escreveu no seu livro «O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto» estas ideias que devem merecer a nossa contínua reflexão: «Essa história de considerar Angola como um país potencialmente rico só a tem prejudicado, fazendo muita gente deitar-se à sombra da bananeira, à espera que a riqueza caia do céu, por milagre. Todos os países são potencialmente ricos. O que precisam para serem ricos de facto é de uma percentagem de gente que os desenvolva. E Angola não é excepção. Ou encontra essa gente e desenvolve-se, ou não a encontra e continua na pobreza e numa crescente mendicidade».

 

Assim, não podemos continuar a repetir cegamente que o nosso país é rico. Temos, agora, a obrigação de pensar como cidadãos e indagar se as nossas condições de vida estão ao nível dos nossos vastos recursos. Temos de perguntar se os nossos governantes têm gerido de forma competente essas tão gabadas riquezas. Temos de procurar, valorizar e promover a percentagem de gente capaz de organizar e desenvolver o país.


Então, os angolanos são assim tão ricos e têm condições de se afirmarem como potência africana?Não. Porque a maior riqueza de um país é o conhecimento do seu povo. Conhecimento é poder. Conhecimento é riqueza. Conhecimento é desenvolvimento. Por isso, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que investem no seu povo e apostam no conhecimento cultural, científico e tecnológico dos seus cidadãos.

 

Os Filósofos e estudiosos do conhecimento dividem o saber humano em 3 formas:

 

Em primeiro lugar, temos o saber-puro. O conhecimento geral e abstracto do mundo que nos rodeia. O conhecimento que procura saber como as coisas são e como se relacionam. Os gregos designavam esse saber por sofia (σoφíα)e os romanos por sapientia. Assim, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que apostam maciçamente na educação de todo o seu povo e proporciona-lhes todas as condições para se valorizarem continuamente e irem até aos limites das suas capacidades.

 

Depois temos o saber-agir. Trata-se de um conhecimento prático que se baseia na ética e nos valores universalmente aceites. É aquele saber que se apoia no conhecimento do justo e do injusto. Do bem e do mal. Enfim, é um saber que nos leva a discernir e escolher os meios mais adequados para realizar o bem, concretizar um projecto e atingir um objectivo. Os gregos designavam esse saber por frónesis (Φρόνησις) e os romanos por prudentia. Assim, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países cujos cidadãos no seu relacionamento com o Estado, com a sociedade e com os outros se baseia em em sólidos valores éticos e morais moldados ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Eis os principais valores: grande respeito pelas leis do País e pelos direitos dos outros; a integridade e a responsabilidade em todas as áreas da sociedade; disciplina a dedicação ao trabalho; cultura financeira e esforço pela poupança e investimento.

 

Finalmente, temos o saber-fazer. Os gregos denominavam esse saber por tekné (τέχνη) e os romanos por ars, artis. É um saber realizável. Um conhecimento que se baseia na aptidão criativa das pessoas, no domínio das tecnologias e a na capacidade de transformar as matérias-primas. Segundo um artigo da wikipédia «A tekné grega, bem como a ars latina referiam-se não só a uma habilidade, a um saber fazer, a uma espécie de conhecimento técnico, mas também ao trabalho, à profissão, ao desempenho de uma tarefa. O técnico era aquele que executava um trabalho, fazendo-o com uma espécie de perfeição ou estilo, em virtude de possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho». Disto resulta que só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que investem no conhecimento tecnológico e possuem as técnicas e os meios necessários à execução de uma tarefa.

 

Perante isto, é fácil concluirmos que Angola nunca foi rica para os angolanos. Primeiro, por culpa dos colonialistas que durante 500 anos afastaram os nativos de Angola do pleno e livre acesso aos lugares de aquisição do conhecimento cultural, científico e tecnológico. Depois, por culpa exclusiva dos dirigentes angolanos que não querem investir no seu povo nem apostam no conhecimento cultural, científico e tecnológico dos seus cidadãos.

 

E o pior de tudo isso é que, mediante complicados sistemas de justificação, teimamos em sustentar um poderoso sistema político-militar absolutamente empenhado em preservar o estado de ignorância e facilitar o enriquecimento pessoal daqueles que, há mais de 30 anos, ajudam os estrangeiros no saque organizado e inteligente dos nossos recursos.

 

Portanto, Angola está muito longe de ser rica para os angolanos porque existe entre nós uma espécie de «obscurantismo económico», ou seja, não temos consciência do real valor das nossas riquezas. Desconhecemos o enorme potencial do nosso país na economia mundial. Ignoramos as regras do mercado mundial. Não sabemos tirar partido das nossas riquezas nas negociações e nos acordos de cooperação. Desconhecemos por completo as técnicas de transformação e rentabilização das nossas matérias-primas. Enfim, reina entre nós uma cíclica e crónica crise de conhecimento.

 

É por isso que Angola é um país rico e maravilhoso para o poderoso grupo de países que conhecem o real valor dos nossos recursos naturais (saber-puro), sabem como agir para ter acesso fácil e contínuo às nossas riquezas (saber-agir) e têm a capacidade, a técnica e os instrumentos susceptíveis de transformar e valorizar preciosas as matérias-primas que tiram de Angola (saber-fazer).

 

Assim, os estrangeiros que estão a correr em massa para Angola sabem que a sobrevivência da economia dos seus países e a contínua prosperidade dos seus povos dependem em grande parte das preciosas matérias-primas existentes em Angola. E tirando partido do nosso «obscurantismo económico», há décadas que sabem que para não perderem a preciosa galinha de ouro não podem falar mal de Angola nem questionar a notória incompetência dos seus políticos; sabem que é obrigatório bajular os dirigentes do país e proporcionar à elite político-militar de Angola uma pequena fasquia dos fabulosos lucros do saque organizado e inteligente dos recursos de Angola.

 

Um exemplo prático do nosso «obscurantismo económico»: Quem vive no Lubango (Ex- Sá da Bandeira), todos os dias vê colunas de camiões a levarem grandes blocos de pedras para o porto do Namibe (Ex- Moçamedes) para serem enviados para a Europa. Somos um país pobre porque desconhecemos o real valor daquelas pedras que os europeus tanto procuram. Por isso, vivemos contentes com as ilusórias comissões e os baixos salários que as empresas extractivas pagam aos angolanos.


 Pedreira no Lubango-Huila-Angola


Ricos são os europeus que nos pagam um dinheirinho pelas nossas valiosíssimas pedras de granito negro, levam-nas para a Europa e vendem-nas aos seus irmãos da industria de granitos e mármore que sabem transformá-las em placas polidas.

 
Ricos são os europeus que vendem essas valiosas placas em granito negro aos seus irmãos da indústria de construção civil que usam as placas polidas nos acabamentos de vivendas e edifícios de luxo. Muito ricos ficam os construtores e os agentes imobiliários que vendem os imóveis de luxo da próspera Europa, pomposamente ornamentados com o valiosíssimo granito negro de Angola.



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