Luanda - O Parque Nacional do Iona esteve no centro da actualidade do fim-de-semana, com a inauguração da sua sede e com o lançamento de uma nova era para o Turismo no Namibe.

Fonte: JA

A nossa grande expectativa é que o alento trazido pelo Parque do Iona envolva também uma alteração conceptual que implique a prioridade do turismo interno, em vez do turismo externo como parece ser a visão do sector do Turismo. As palavras do Presidente João Lourenço, no apelo que fez para que os angolanos façam turismo interno, parece indiciar essa mudança, embora os indícios sejam fracos.

Seria fundamental que o Governo e sobretudo os líderes do sector do Turismo compreendessem que as prioridades devem ser exactamente a mobilização do turismo interno, feito por famílias que residam em Angola. O nosso estágio de desenvolvimento não permite dar um salto qualitativo que nos permita atender os turistas estrangeiros com o nível de satisfação e atendimento a que estão habituados na região. Precisamos do turismo interno para alavancar a qualidade do serviço e das estruturas turísticas angolanas.

O olhar do turista interno é diferente. Como conhecedor das particularidades da região, é exigente nos detalhes como por exemplo os cenários, paisagens, a gastronomia, cultura, músicas de cada região. É esse nível de exigência que vai destrinçar o bom do mau, o recomendável do local para esquecer.

O turismo interno é o garante da sustentabilidade do sector, mas para isso o trabalho de casa deve passar por encontrar argumentos que levem os angolanos a trocar Lisboa, Windhoek ou Cape Town por Namibe, Benguela ou Lubango.

Para que um dia os visitantes estrangeiros encontrem bens e serviços em Angola que os façam gostar e recomendar a outros, é importante que existam rotinas e serviços habituais a atender visitantes nacionais. É a presença do turista nacional que vai dar aos serviços turísticos nacionais as rotinas e o traquejo necessários que, depois de aprovados por eles, vão ser apresentados aos estrangeiros como os destinos atractivos, melhores serviços e acessos preferíveis. O turismo interno serve de cobaia para a melhoria do atendimento, da acomodação e de outras actividades turísticas. De resto, a prática do Parque Nacional do Iona demonstra isso. Nos últimos dois anos, o Parque recebeu cerca de 6.600 turistas, dos quais apenas 3,35 por cento foram visitantes estrangeiros, da Namíbia, África do Sul e expatriados que trabalham em Angola.

Como noutras áreas da diversificação da nossa economia, precisamos de deixar de acreditar que a solução não reside num investidor ou num turista estrangeiro e passar a acreditar que a acção dos angolanos, o envolvimento dos cidadãos nacionais é determinante para o sucesso desta indústria. Um turismo pensado em primeiro lugar para os angolanos tem mais sustentabilidade do que um feito para "inglês ver”.

Isso obriga a um levantamento rigoroso sobre todos os constrangimentos a que um cidadão nacional se submete para viajar pelo país, desde o excesso de controlo policial, a falta de motéis e restaurantes nas estradas do país, a má qualidade das estradas, entre outros.

O primeiro obstáculo que se coloca ao turismo nacional é assegurar ao visitante nacional a sensação de mudança de rotina que ele busca e encontra lá fora, quando decide gozar férias. Um cidadão angolano busca no exterior um lugar sem estradas esburacadas e sem os constrangimentos habituais, como impedimentos para a captação de imagens, falta de informação sobre os locais de interesse ou até sinalização rodoviária e funcionamento do GPS. Na ida ao estrangeiro, o angolano procura uns dias sem preocupações com a falta de água e luz, sem barulho de gerador, sem voos cancelados sem aviso pela TAAG. Também procura por pacotes turísticos que incluam visitas a locais de interesse e, sobretudo, um serviço de atendimento que respeite o cliente.

Em segundo lugar, a capacidade financeira. Famílias de diferentes capacidades financeiras conseguem encontrar unidades hoteleiras e serviços para os diferentes bolsos, enquanto no nosso país toda a oferta é feita para a gama média/alta como se todos auferissem em moeda estrangeira. Mesmo as pessoas de baixa renda em Angola conseguem encontrar tascas, pensões ou quartos para a sua acomodação, o que não acontece em Angola onde são empurrados para resorts e hotéis onde a diária custa o salário mensal dessas famílias. É verdade que nos últimos tempos foram construídos numerosos empreendimentos turísticos, mas a quase totalidade foi concebida para atrair visitantes estrangeiros, apesar de não se terem munido de recursos humanos, serviço de atendimento e acomodação equivalentes aos que já se oferecem aos estrangeiros em países da região. A esta altura, o país já deveria ter um regulamento para casas de aluguer de férias e legislação para um "Airbnb” em Angola. Airbnb é uma plataforma para pessoas interessadas em alugar o seu quarto ou imóvel por um período curto. Permite oferecer um segmento mais económico que hoje não temos. Estamos em desvantagem na relação aos outros países da região.

Em terceiro lugar, a motivação. O turista angolano não tem nenhuma motivação para fazer turismo interno. Os líderes nacionais, governantes, deputados, quadros superiores da Administração Pública e as figuras públicas mais conhecidas passam as suas férias no exterior e não se coíbem de promover isso publicamente. O exemplo prático que dão é contrário ao apelo ao turismo interno. Internamente, não há sequer uma campanha de promoção do turismo interno para que o cidadão possa ser motivado a visitar. Muito menos há uma promoção de facilidades e vantagens para quem opte por fazer turismo cá dentro. O sistema de informação turística é inexistente e um cidadão comum, mesmo que seja razoavelmente informado, tem imensas dificuldades para encontrar a identificação dos principais itinerários turísticos, a elaboração de guias e actividades turísticas disponíveis como locais com música e gastronomia em cada região, museus e outros espaços de interesse geral.

Enquanto não se mudar a mentalidade, a grande indústria do turismo em Angola dificilmente vai crescer.