Luanda - Os pais costumam ser os heróis dos seus filhos. Bom, nem todos. Mas, em regra, costuma ser assim. De calções, camisola e chinelas, de fato-macaco, de bata, farda ou terno e gravata. Aos olhos dos pequenos, está sempre uma imaginária capa vermelha pendurada, com um “ésse” artístico cravado na forma de um triângulo.

Fonte: JA

Alto e magricela ou gordinhoatarracado. Não importa quem entra e o que acontece no interior da cabine telefónica, mas quem sai de lá, de certeza absoluta, é o papá transformado no Super Homem. Não há limites à imaginação de uma criança que recebe carinho e protecção dos pais. Um mundo que só quem teve infância consegue perceber minimamente algum sentido lógico.

 

No Ideias Soltas de hoje decidi homenagear os pais, que são heróis dos seus filhos. Aqueles que, apesar das adversidades, das malambas e dikulus do dia-a-dia, fazem de tudo para dar aos filhos um mínimo de conforto e segurança. Passar-lhes valores, desenhar-lhes o futuro.

 

Mas, entre estes, há uma subespécie de heróis que vai se tornando cada vez mais relevante. Refiro-me aos pais de crianças portadoras de Transtorno de Espectro Autista, o TEA. Um exército que cresce todos os dias, mas que ninguém, nem mesmo os próprios, é capaz de aquilatar o peso representativo, seja económico como social.

 

Hoje, 18 de Junho, é celebrado em todo o mundo o Dia do Orgulho Autista, uma iniciativa da organização não-governamental britânica, a Aspies for Freedom, que iniciou o movimento pela elevação da consciência sobre autismo, não como uma doença, mas como uma variação neurológica natural da diversidade humana.

Em Angola, os números oficiais apontam para mais de 500 mil autistas. Embora haja quem questione a fiabilidade desta cifra pelas razões que as próprias autoridades sanitárias assumem como desafios a superar. Um desses desafios tem a ver com o número de partos que ainda ocorrem fora das maternidades, o que impede que haja efectivamente o controlo dos números da natalidade e outros de natureza mais específica.

A falta de dados oficiais actualizados sobre o autismo em Angola representa a ponta de um gigantesco iceberg onde esbarram sonhos e planos de um número cada vez maior de famílias. Muitas não resistem às mudanças de rotina, às exigênciasafectivas especiais e, principalmente, aos encargos financeiros.

O dia de hoje, é de conscientização sobre a problemática do autismo no mundo e em Angola em particular. A Organização Mundial da Saúde estima que o autismo afecta uma em cada 60 crianças, e que ao menos 70 milhões de pessoas convivem com essa alteração genética, que além de não ter cura, exige de cada paciente um acompanhamento especializado e individualizado, pois, apesar dos avanços da medicina, não foi possível determinar padrões que permitam às autoridades sanitárias uma abordagem diferente.

Esse acompanhamento exige a participação de pais, irmãos e todas as pessoas do seu convívio diário, mas também de profissionais de diferentes áreas, tais como médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos e pedagogos, com um único propósito de acelerar funções essenciais cotidianas, tais como se comunicar socialmente e se locomover de maneira autónoma. Essas funções, aparentemente simples, são, entretanto, problemáticas para um portador de TEA, o que afecta a sua estabilidade emocional.

O autismo apresenta-se de três formas possíveis, ou, diria, mais conhecidas. A forma clássica, em que os indivíduos são voltados para si mesmos, não estabelecem contacto visual com as pessoas nem com o ambiente; conseguem falar, mas não usam a fala como ferramenta de comunicação. Embora possam entender enunciados simples, têm dificuldade de compreensão e apreendem apenas o sentido exacto das palavras, não compreendendo o duplo sentido ou as comparações.

Nas formas mais graves, não demonstram qualquer contacto interpessoal. São crianças isoladas, que não aprendem a falar, não olham para as outras pessoas nos olhos, não retribuem sorrisos, repetem movimentos sem muito significado ou ficam girando ao redor de si mesmas e apresentam deficiência mental relevante.

No segundo grupo encontramos o chamado autismo de alto desempenho, também chamado de síndrome de Asperger. Os portadores apresentam as mesmas dificuldades que os outros autistas, mas numa medida bem reduzida. São falantes e inteligentes, chegando a ser confundidos com gênios, porque são invencíveis nas áreas do conhecimento em que se especializam. Quanto menor a dificuldade de interacção social, mais conseguem levar uma vida próxima à normal.

O terceiro grupo encontramos os indivíduos com o chamado Distúrbio global do desenvolvimento sem outra especificação (DGD-SOE), que são aqueles que apresentam dificuldade de comunicação e de interação social, mas os sintomas não são suficientes para incluí-los em nenhuma das categorias específicas do transtorno, o que torna o diagnóstico muito mais difícil.

A série televisiva TheGoodDoctor é talvez a forma mais criativa e apelativa de expor a beleza e a complexidade do autismo. Inspirada em factos reais, a história de Shaun Murphy, um médico cirurgião, autista, que é capaz de fazer igual ou mais do que qualquer outro médico, mostra que uma criança autista é como qualquer outra.

Todas as crianças têm necessidades. Umas mais especiais que outras, mas o futuro é sempre uma caixinha de surpresas: tanto pode sair um cientista brilhante, um líder revolucionário, um medalhista olímpico, ou um serial killer, um narcisista e aldrabão.

AlbertAinstein, Bill Gates, ElonMusk e Mihael Phelps. Todos portadores de autismo e asperger. A história da humanidade está cheia de exemplos de notáveis que foram capazes de vencer as maiores adversidades, graças ao amor dos pais ou de alguém que cruzou o seu destino naquele período particular da sua existência. Um herói de capa vermelha com um "ésse” cravado às costas, que amou, cuidou e deu para a vida, tal como o Dr. Aaron Glassman foi para o simplesmente brilhante Shaun Murphy, na série TheGoodDoctor.

O autismo não é doença. É um teste à capacidade humana de enxergar a diferença.


* Jornalista