Luanda - Paulo Teixeira Jorge, deputado da Assembleia Nacional e secretário para as Relações Internacionais do MPLA, que faleceu recentemente, na Clínica Sagrada Esperança, nasceu em Benguela no ano de 1934 e foi para Portugal fazer estudos superiores no início dos anos 50.


Fonte: JA


Na Casa dos Estudantes do Império destacou-se como um dos mais carismáticos militantes da luta anti-colonial. Foi nessa fase que lutou, entre outros, ao lado de Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos pela independência das então colónias portuguesas.

 

Quem com ele conviveu nessa época recorda a sua elevada taxa de militância anti-colonialista mas também o mais afamado bailarino nas festas da Casa dos Estudantes do Império, onde benguelenses ilustres como Ernesto Lara Filho e Urbano Frestas faziam a diferença.

 

Paulo Jorge foi dos primeiros jovens estudantes universitários a abandonar Portugal para fugir à repressão da Pide, a polícia política do regime colonial fascista. Desde então dedicou a sua vida a fazer amigos e aliados para a luta armada de libertação nacional. Quando Agostinho Neto assumiu a liderança do MPLA, figuras como Paulo Jorge ou o mais-velho Câmara Pires assumiram com galhardia a diplomacia do movimento.

 

Após o 25 de Abril de 1974, Paulo Jorge iniciou um trabalho discreto mas eficaz junto do Movimento das Forças Armadas (MFA) que derrubou em Portugal o regime colonial fascista. Apoiado por Arménio Ferreira, ele conseguiu estabelecer canais directos com as figuras mais influentes do movimento dos “Capitães de Abril” e depois com o próprio Conselho da Revolução. Foi o diplomata de que o MPLA precisou quando tudo parecia perdido e o movimento estava dilacerado pelas chamadas Revolta Activa e Revolta do Leste.

 

Paulo Jorge desenvolveu nos bastidores um trabalho profícuo que levou ao acordo de cessar-fogo entre o MPLA e o Governo Português, na chana do Luinhamege, no Leste de Angola. Na linha da frente do interior estava Manuel Pedro Pacavira, que estabeleceu laços muito fortes com os dirigentes do MFA em Angola (Majores José Emílio da Silva e Pezarath Correia) e com o próprio Alto-Comissário, almirante Rosa Coutinho. Este trabalho, de importância excepcional, levou à conferência de Mombaça, entre os três movimentos de libertação reconhecidos pela OUA e pela potência colonial: MPLA, FNA e UNITA.

 

No Quénia, Lúcio Lara e Paulo Jorge desempenharam um papel fundamental e paralelamente ao acordo entre os três movimentos, foi possível reconciliar o MPLA com a FNLA. Esse sucesso político culminou com um abraço público entre Agostinho Neto e Holden Roberto na State House de Mombaça, quando perante a imprensa internacional o MPLA, a UNITA e a FNLA revelaram ao mundo que tinham uma posição comum para defender no Alvor (Algarve) em Janeiro de 1975, com a potência colonial, com vista à imediata independência de Angola.

 

O Acordo do Alvor esteve várias vezes em perigo e só a sensibilidade diplomática dos dirigentes do MPLA permitiu que ele fosse assinado por todas as partes. Paulo Jorge foi um dos obreiros desse importante documento que conduziu Angola à independência.

 

Até ao 11 de Novembro de 1975 Paulo Jorge desdobrou-se em acções diplomáticas, sobretudo quando em Abril de 1975 a fronteira Norte de Angola foi invadida por mercenários e forças de Mobutu Sese Seko e em Maio Jonas Savimbi entrou em Angola pela fronteira Sul, protegido pelo Exército de Libertação de Portugal (ELP) de cariz nazi-fascista e pelas forças armadas e de segurança do regime de Pretória. Aos microfones do Rádio Clube da Huíla, os oficiais do ELP e Savimbi anunciaram que haviam iniciado a marcha sobre Luanda.

 

Agostinho Neto enviou o seu homem de confiança a Havana. Era ele Paulo Jorge. E do seu trabalho diplomático resultou a “Operação Carlota”. Em breve os invasores tinham uma resistência armada firme e organizada. No primeiro Governo da Angola independente Paulo Jorge foi ministro das Relações Exteriores, cargo que desempenhou para além da morte do primeiro Presidente da República.

 

Na sequência das primeiras eleições multipartidárias, Paulo Jorge, então governador da sua Benguela, à qual chamava a “república socialista”, ainda teve oportunidade de organizar a resistência contra o exército ilegal de Savimbi, conseguindo manter sob controlo do governo o importante porto do Lobito e a testa do Caminho-de-Ferro de Benguela.

 

Depois foi o repouso do guerreiro, mas sempre na linha da frente da acção política como deputado na Assembleia Nacional e como secretário do Bureau Político do MPLA para as Relações Internacionais.



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