Luanda -  “. . . A falta de coerência tem sido o elemento particularmente notável na Política da Alemanha para com a África . . . Esta deveria ter seu fim brevemente, pois ao não acontecer seremos [Alemanha] simplesmente uma bola a disposição de outros Estados Europeus". Político e Académico alemão (CDU).
 
 
Fonte: Jornal Angolense


Depois de Frankfurt e Berlim, duas grandes metrópoles alemãs, terem albergado respectivamente os 1o e 2o Fóruns Económico entre o “gigante” europeu e a aspirante á liderança da económica na região austral do continente africano, chegou a vez de Luanda. A iniciativa da Afrika Verein (Associação África) com sede em Hamburgo, norte da Alemanha, conta com fortes patrocinadores oriundos do sector empresarial privado divididos em “classes”, nomeadamente: SAP, Commerzbank AG, EnBW, GAUFF Engineering bem como do Banco Espírito Santo Angola, vai realizar em Luanda a 3a edição deste grémio empresarial

 

O evento que terá lugar entre os dias 1 e 2 de Julho no Hotel Convenções de Talatona (HCTA) na localidade com o mesmo nome, reunirá perto de 300 representantes do sector económico, financeiro e empresaria de ambos os países, é uma plataforma bilateral de intercâmbio sobre as relações económicas entre os nossos dois países, e deverá realizar-se anual e alternadamente na Alemanha e em Angola. 

 

Enquanto que o governo federal alemão espera representar-se ao evento por Bernd Pfaffenbach, Secretário de Estado no Ministério alemão da Economia, tudo indica que Angola se faça representar á nível governamental por Manuel Nunes Júnior, Ministro de Estado para Economia e chefe da Equipa económica do Executivo.

 

Na sua última edição, realizada na última semana de Fevereiro de 2009 em Berlim, o evento contou com a honrosa presença do Presidente da República de Angola, na altura em visita oficial de estado em terras germânicas. O Presidente angolano, fez-se acompanhar na altura, de uma importante delegação governamental multi-sectorial, composta entre outros de 8 Ministros, regressando a casa com uma promessa de 1.7 bilião de Euros, até ao momento intacta em bancos alemães.

 

A Iniciativa Económica Alemanha-Angola (DAWI), foi fundada aos 12 de Fevereiro de 2007 em Berlim, em acto testemunhado por altas individualidades de ambos os países, entre eles os Embaixadores Ingo Winkelmann na altura acreditado em Luanda e Alberto Bento Ribeiro, ainda em Berlim e tem como Presidente, Erich Riedl, ex- Secretário de Estado no Ministério alemão da Economia.

 

As Relações Bilaterais

 

Revendo o historial das relações bilaterais, pôde-se constatar facilmente, que o sector mais produtivo com mais ou menos alguma debilidade continua sendo o empresarial (infra-estruturas e fomento bancário). Já no campo do intercâmbio político – diplomático, elas não passam da troca de embaixadores entre Luanda e Berlim, onde cada estado se faz representar o mais modestamente possível: edifícios simples, pessoal diplomático limitado e da troca esporádica de algumas delegações ministeriais, etc. ´

 

Passados 8 anos desde que o cenário político-militar então reinante evoluiu para a Paz (2002) e 12 anos desde que começaram a ser aplicadas na prática as Sanções das Nações Unidas sobre a UNITA (1998) na Alemanha, estou em crer que tais "estigmas", que num passado longínquo influenciaram e marcaram as Relações bilaterais entre a República de Angola e a República Federal de Alemanha, consubstanciadas principalmente na dualidade de representação político-diplomática das partes então envolvidas no conflito interno, espera-se, eu diria mesmo e exige-se que as relações bilaterais entre ambos países, hoje mais do que nunca, deveriam estar á altura de evoluir para patamares mais compactos e abrangentes.

 

Com a abertura em Luanda de um Escritório de Representação do Sector Económico alemão a ser inaugurado na próxima sexta-feira (30) nos arredores no Miramar pelo enviado do executivo de Berlim a este evento, espera-se que se fomente com celeridade as relações bilaterais entre ambos os países, á luz também do número privilegiado de quadros angolanos formados na Alemanha (RDA), muitos deles hoje em importantes posições no executivo angolano e mesmo no sector empresarial público-privado, destacando-se Ministros, Secretários de Estados, actual Governador do Banco Nacional, Assessores ministeriais e presidenciais, etc. Com a abertura deste Escritório em Luanda, está lançado o desafio ao empresariado nacional: reciprocidade e acção em consonância.


O exemplo da RDA no fomento da Formação de Quadros

 
Hoje, embora a República Democrática Alemã – RDA não mais existir, não deixa de ser mencionado nesta reflexão, como tendo sido exemplo positivo, pelo menos no concernente a formação Técnico- Profissional de milhares de jovens angolanos, muitos deles hoje lamentavelmente lançados ao desemprego e de tanto não praticar, vão esquecendo o ofício aprendido.


Razão tinha o Dr. Friedbert Pflueger da União Democrata Cristã (CDU), quando em 2003 na sua qualidade de Encarregado do Parlamento alemão (Bundestag) para os Assuntos Europeus, fez a aberrante constatação para os alemães, citada no início desta abordagem. Embora a África – Subsaariana, com a excepção talvez da África do Sul, nunca ter sido algo atraente, estratégico ou mesmo importante no conceito da Política externa alemã, penso ter chegado a hora para se inverter este triste quadro.

 
As relações bilaterais deveriam ir mais do além do que termos algumas Construtoras e Gestoras de Projectos financiados pelo Governo alemão através da sua Linha de Crédito. A formação de quadros superiores, o fomento ao intercâmbio estudantil, a formação técnico-profissonal, a luz da enorme quantidade de empreitadas em curso em todo país, á exemplo do que foi algum dia no outro lado do Muro de Berlim, deverá merecer uma espécie de Renascença. Ambos Ministérios das Relações Exteriores deverão trabalhar no sentido de evoluírem para um maior fomento com objectivo da criação de uma Comissão Bilateral de Cooperação entre ambos os estados, através da qual se possam apresentar subsídios para melhor gerir questões de natureza diversa, mormente as relacionadas com a formação e superação técnico-profissional nas diferentes áreas da vida nacional.

 

Numa altura em que se fala insistentemente do anunciado programa da construção de um milhão de casas, independentemente desta visão ser ou não exequível, importante é no entanto, que dela se faça algo útil, como por exemplo a exploração do potencial que desponta no ínterim deste processo, nomeadamente a oportunidade de começarmos a esgrimir um plano estratégico para a implementação de uma indústria de materiais de construção séria e eficiente. Seria uma oportunidade não só para desenvolver o sector, dominado na sua maioria por empresas e pequenas empresas chinesas, libanesas, malianas, etc, que detêm em maioria absoluta o monopólio do mercado. Com esta iniciativa estaríamos a reduzir consideravelmente não só a alta taxa de desemprego acentuadamente predominante no seio da camada mais jovem da nossa sociedade mas consequentemente a contribuir sobremaneira, para a redução dos índices de criminalidade nesta mesma faixa etária.

 

* Politólogo



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