Luanda - No prolongamento da crise de baixa intensidade que se arrastava há já algum tempo, o jornalista Caetano Júnior, sub-director de Informação do Jornal de Angola, acabou por ser exonerado esta quinta-feira pela ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, a pedido do directorgeral, José Ribeiro.

 

* Eugénio Mateus
Fonte: O Pais

 Ribeiro se dirigi  em termos pouco polidos

De acordo com uma fonte de O PAÍS, a nota da ministra das Comunicação Social sustenta a exoneração com “o fim da comissão de serviço para a qual tinha sido nomeado Caetano Júnior”, curiosamente na mesma altura que todos os demais directores do Jornal de Angola.

 

Caetano recebeu pessoalmente das mãos de José Ribeiro a ordem de exoneração, numa altura em que se vive na redacção do jornal um clima de crispação entre os editores e a direcção-geral, encabeçada por José Ribeiro.

 

Segundo fontes contactadas por O PAÍS, que reportaram palavras do director do JA, Caetano Júnior é acusado de organizar reuniões clandestinas na empresa com propósitos inconfessos, mas as mesmas fontes disseram que, na verdade, trata-se da existência de um clima de intimidação na redacção em que se pretende cristalizar a ideia da infalibilidade no trabalho sob pena de se vir a sofrer sanções.

 

A medida visa, por outro lado, inibir qualquer espírito instalado de rompimento com o status quo que tem deixado exasperados muitos funcionários da redacção do Jornal de Angola, em que são atropeladas flagrantemente os procedimentos administrativos da empresa.

 

Esta exoneração está a ser vista, aliás, como uma tentativa de dissuadir um provável prolongamento do “braço de ferro” instalado na redacção, situação acerca da qual os editores estão dispostos, segundo apurou O PAÍS, a dizer um veemente “basta” às faltas de respeito e ofensas morais de José Ribeiro não só dirigidas a jornalistas como a outros funcionários da casa.

 

Uma fonte do Jornal de Angola revelou que o mote do clima de crispação entre os editores e a direcção começou com o facto da editora de Cultura, Luísa Rogério, ter enviado para a área de copy desk  um texto retirado da agência de notícias Angop, colocando as iniciais do autor do mesmo, do paginador e do editor.

 

Ao tomar contacto com o trabalho, José Ribeiro ter-se-á insurgido contra Luísa Rogério em termos fortes, chamando-lhe mesmo de “sabotadora”, facto que levou a editora a manifestar a sua indignação ao sub-director de Informação, Caetano Júnior, que confrontou o director, lembrando -lhe que terá sido ele próprio a determinar que as notícias deveriam conter as iniciais do autor, editor e paginador.

 

Ao que consta, José Ribeiro também se terá dirigido ao sub-director para a Informação em termos pouco polidos, o que terá desencadeado um movimento de solidariedade dos demais editores e até mesmo dos jornalistas do único diário generalista do país.

 

A gestão do Jornal de Angola tem sido perpassada por actos que os jornalistas e editores reputam de alguma falta de respeito e consideração pelo trabalho que fazem e, por causa disso, vários episódios, ainda que silenciosos, têm chegado ao conhecimento dos jornalistas.

 

O PAÍS apurou que, desde a sua tomada de posse no cargo de director-geral do Jornal de Angola, José Ribeiro tem mantido uma relação de conflito latente com Caetano Júnior, ao ponto de não publicar os seus textos por razões nunca esclarecidas.

 

O derradeiro episódio ocorreu com uma homenagem que Caetano Júnior teria dedicado ao falecido editor de Sociedade, José Cristóvão, que também não foi publicada, numa atitude que as fontes disseram ser recorrente no director.

 

Editores contactados por este jornal também denunciaram uma alegada interferência na gestão dos conteúdos informativos, nalguns casos por intermédio de um assessor da direcção, em claro desrespeito pelotrabalho dos responsáveis das várias áreas da redacção.

 

Demissão em bloco dos editores


Neste momento, segundo fontes deste jornal, está a ser aventada a hipótese de os editores do Jornal de Angola se demitirem em bloco em sinal de solidariedade para com Caetano Júnior e, acima de tudo, para fazer respeitar o bom nome dos profissionais que se dizem fartos dos problemas relacionais e laborais que se vivem no único diário generalista  do país.

 

O PAÍS apurou que a editora de Cultura, Luísa Rogério, já endereçou uma convocatória aos editores para uma reunião marcada para esta quintafeira, cujas cópias foram entregues à direcção do Jornal de Angola e ao seu gabinete jurídico, além do director nacional de Informação do Ministério da Comunicação Social.

 

Uma fonte da direcção do Jornal de Angola, que prefere não se identificar, confirmou a exoneração de Caetano Júnior, mas recusou-se a avançar mais pormenores. O porta-voz do Ministério da Comunicação Social, Pedro Cabral, também confirmou a exoneração do sub-director para a Informação, mas remeteu-nos para a direcção do Jornal de Angola com vista a obter mais pormenores sobre o assunto.

 

Mas, contactadas outras fontes, foinos possível apurar que também está subjacente à exoneração de Caetano Júnior o facto de, alegadamente, apresentar “deficiências” no apuramento dos dados e de tratar de forma pejorativa algumas figuras do Estado, numa clara alusão ao facto de ter grafado errada e involuntariamente o nome do Presidente português Cavaco Silva. O texto não foi publicado, tendo, no entanto, chegado ao conhecimento da ministra, por intermédio do director, um print do referido texto para sustentar a necessidade da exoneração de Caetano Júnior.



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