Joanesburgo - Em Março do presente ano, o líder histórico da FLEC, Nzita Henriques Tiago, foi internado numa unidade hospitalar, em Paris, devido a problemas provocados pela sua avançada idade. Não obstante o seu débil estado de saúde e de um nítido desligamento entre a direcção política na Europa e as chefias militares nas matas de Cabinda, os guerrilheiros promoveram uma reunião de 20 a 22 de Junho nas proximidades de Ponta Negra, na qual se decidiu reformar o seu líder histórico, transferindo a liderança da «resistência» para Alexandre Tati, o vice-Presidente da organização. Alexandre Tati é um guerrilheiro que, ao tempo do regime de Mobutu, foi o gestor das comunicações da FLEC em Kinshasa. Foi também, por muitos anos, secretário-geral. Fazem ainda parte da nova liderança o chefe do Estado-Maior, Estanislau Boma, e os comandantes Isaías e Carlos Rotula, este último o chefe dos Serviços de Segurança.

 

Fonte: Semanario Angolense

Análise/prospectiva

No seguimento do afastamento de Nzita Tiago, os guerrilheiros enviaram a Luanda um emissário, José Luemba Veras, para manter contactos informais com as autoridades angolanas que ponham termo ao conflito no enclave.


José Veras foi um comandante da «primeira hora» que entrou na guerrilha com 17 anos (hoje 54) e que na década de 80 recebeu instrução militar na Jamba, pela UNITA. Largou as matas há pouco tempo e em finais do ano passado instalou-se em Portugal. O seu interlocutor-alvo, pela parte angolana, é o general Manuel Hélder Vieira Dias «Kopelipa», da Presidência da República. Uma das propostas que a FLEC tem em mente é a libertação dos activistas cívicos detidos na sequência do ataque de Massabi, para fazerem parte das «negociações».


Na realidade, a guerrilha da FLEC deixou de constituir um empecilho para as autoridades angolanas. O comando militar das FAA no enclave passou a entrar em zonas do Mayombe, de difícil acesso no passado. Passaram a dispor de informações mais precisas quanto a localização dos guerrilheiros. Tem-se conhecimento que o chefe do braço armado da guerrilha, Estanislau Miguel Boma, passa mais tempo em Kinshasa.


Na sequência da recusa dos acordos entre Luanda e a FLEC Renovada de Bento Bembe, a FLEC-FAC deixou de ser uma organização unificada, passando a ter um estado-maior móvel subdividido em quatro áreas regionais e estas por suas vez interligadas a unidades móveis. São um total de cerca de 300 elementos dispersos pelas matas. Os comandos regionais são autónomos na sua forma de acção. Alimentam-se de animais como porco espinho. Há um grupo encarregue de colher informações das emissoras internacionais. A comunicação com o exterior é feita por telefones satélites. Até há bem pouco tempo, estas regiões eram controladas pelos comandantes Vencer, Mwana Nzambi e Maurício Lubota «Sabata», o comandante operacional da guerrilha numa das circunscrições militares da região do Miconje.


Apos o afastamento de Nzita Tiago, o comandante «Sabata» (que também foi surpreendido) ter-se-á oposto e acabou por ser afastado por Estanislau Boma. Sabata mantém-se fiel a Nzita Tiago e  tem fama de ser um dos mais destemidos guerrilheiros que se conhecem na FLEC.


A projecção feita indica que a exclusão de Nzita Tiago deixará, por outro lado, os comandos regionais divididos, à semelhança do que sucedeu aquando dos acordos rubricados com Bento Bembe. Na altura, o líder histórico foi afastado das negociações e o seu chefe de estado-maior, Estanislau Boma, reorganizou a guerrilha criando comandos operacionais autónomos. Supõese que com a nova realidade cada comando militar poderá dividirse de acordo com a liderança em que se revêem (entenda-se Nzita ou Alexandre Tati).


Nzita Tiago enfrenta alguma pressão no sentido de explicar o rótulo de traição que atribuiu a Boma e a Taty. Recusa comunicar-se com estes dois guerrilheiros. Convocou o Conselho Nacional do Povo de Cabinda (ou Nokoto Likanda, em língua ibinda), que é o órgão supremo da resistência. A convocatória é entendida como uma estratégia encontrada para reaver a sua legitimidade, uma vez que as chefias militares que o afastaram agiram em violação aos estatutos da organização.


As autoridades angolanas terão percebido que a disposição dos guerrilheiros para a «negociação » terá sido consequência de algum desespero. Não assumem publicamente tais contactos. O secretário de Estado dos Direitos Humanos, Bento Bembe, em entrevista à imprensa estrangeira deixou claro que se tratam de grupos que eram fieis a Nzita Tiago e que estão dispostos a abraçar a paz (entenda-se Memorando de Paz para Cabinda).

 

Desde que nos últimos 20 anos Nzita Tiago se mudou para Paris, a FLEC teve contactos ao mais alto nível com Luanda. Numa deslocação do Presidente José Eduardo dos Santos a Paris na década de 90, Nzita Tiago chegou a ser recebido pelo Presidente angolano (a audiência não foi objecto de divulgação). A figura que mais contactos plausíveis teve com a FLEC é o antigo director dos Serviços de Inteligência Externa, Fernando Miala. A sua demissão das estruturas do Estado angolano alterou o cenário de ligação com a FLEC dando lugar a entrada de uma outra personalidade, o general Santana André Pitra «Petroff», que apostou no então Presidente do Fórum Cabindês para o Diálogo, Bento Bembe. Outro com aceitação no seio dos «nacionalistas» cabindeses é o antigo dirigente da UNITA, Miguel Nzau Puna



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