Luanda - A UNITA como maior partido da oposição tem responsabilidades acrescidas e por isso está sob o escrutínio permanente dos cidadãos, porque em democracia todos os agentes políticos têm de dar satisfações dos seus actos ao eleitorado. Liderar a oposição é tarefa importante e o seu papel é imprescindível.


Fonte: JA

Savimbi pode ser tudo menos um patriota

ImageInfelizmente, na cena política angolana verificamos a existência de partidos que se limitam a fazer a prova de vida nas eleições ou em momentos da vida pública que podem dar alguma visibilidade aos seus dirigentes. E quando alguém lhes critica o imobilismo ou o desaparecimento de cena têm sempre a possibilidade de usar as costas largas dos órgãos públicos da Comunicação Social, acusando-os de silenciarem as suas actividades.

 

A UNITA informou o nosso jornal que ia comemorar ontem o “Dia do Patriota” com uma jornada de reflexão no Museu de História Natural. Afinal era um encontro de militantes, amigos e familiares de Jonas Savimbi por ocasião do seu dia natalício. Encher a boca com a reconciliação nacional e depois considerar o 3 de Agosto como o “Dia do Patriota” é uma afronta grave a todas as vítimas de um caudilho que nem sequer hesitou em servir de biombo à bárbara agressão das forças do regime do “apartheid” contra Angola.

 

Para os milhares de mortos, refugiados ou desalojados provocados pelas agressões do “apartheid”, Savimbi pode ser tudo menos um patriota. O mesmo para os familiares das pobres mulheres da Jamba atiradas para as fogueiras às ordens do sanguinário chefe do Galo Negro, numa demonstração inquietante de bestialidade e crueldade. Os milhões de vítimas directas e indirectas da sua louca aventura a mando do “apartheid” exigem mais respeito dos que hoje dirigem a UNITA.

 

Os votos que o partido conseguiu do eleitorado dão-lhe legitimidade democrática e Isaías Samakuva é, por isso, um dirigente político que merece o respeito de todos, estejam ou não de acordo com as suas ideias. Mas se é verdade que a sociedade tem essa obrigação para com ele e a UNITA, também é correcto dizer que a direcção do partido UNITA tem a obrigação de respeitar o seu eleitorado, em primeiro lugar, mas também todos os eleitores que não lhe confiaram o voto.

 

Por isso ficámos surpreendidos quando no encontro de reflexão no Museu de História Natural. Isaías Samakuva convidou reiteradamente os jovens a seguirem o exemplo de Jonas Savimbi. No limite, o presidente da UNITA convidou a juventude que o apoia a seguir uma via suicidária e a trilhar um caminho sem saída. Ainda mais: seguir essa rota e de ouvidos tapados a todos os apelos ao bom-senso e à razão. Porque ao protagonizar uma aventura que deixou pelo caminho milhões de vítimas, Savimbi nem sequer ouviu o aviso que lhe foi feito: ou aceita as regras do jogo democrático ou morre. E quando foi convidado à rendição, para acabar com o sofrimento dos seus seguidores e dos angolanos, preferiu o suicídio. É este exemplo que Isaías Samakuva quer que seja seguido pelos jovens apoiantes da UNITA.

 

Um líder político que aponta como exemplo para os jovens alguém que hipotecou o combate político a um belicismo sem quartel e alugou armas e homens ao mais desumano regime do planeta, o “apartheid”, está seguramente equivocado. E esse equívoco significa, na prática, um rude golpe nos esforços colectivos de reconciliação nacional.

 

Uma coisa é os angolanos perdoarem todos os crimes e todas as provações por que passaram durante a louca aventura bélica de Savimbi. Outra bem diferente é aceitar como exemplar quem destruiu o país, provocou milhares de mortos e de estropiados, destroçou equipamentos sociais e o tecido económico e nem sequer poupou os seus, eliminando promissores dirigentes da UNITA ou atirando com mães inocentes para a fogueira.

 

Perdoar engrandece os angolanos de bem. Mas para perdoar, temos de esquecer. Infelizmente, o presidente da UNITA não nos deixa olvidar esse passado tenebroso que tem a marca da morte e da destruição. Savimbi é um exemplo para os criminosos do “apartheid” e um herói de Vorster e Botha. Para os excrementos da África do Sul racista, o dia 3 de Agosto pode ser o “Dia do Patriota”. Para nós, que temos passado e memória, definitivamente não. Nem os jovens da UNITA merecem a afronta de alguém os convidar a seguir semelhante exemplo.

 

Face às declarações de Isaías Samakuva parece estar agora claro que os apelos à insurreição inscritos nas teses ao congresso da Juventude da UNITA têm a cobertura da direcção do partido e ao mais alto nível da formação da oposição. Pelo menos o “dia do patriota” teve esse condão: dissipou todas as dúvidas e deu razão aos que dizem que a UNITA tem dificuldades em fazer o jogo democrático.