Luanda - Na época em que nasci, o nosso país enfrentava um conflito armado entre duas forças políticas que começaram como movimentos de libertação e, posteriormente, transformaram-se em partidos políticos. Um deles assumiu o governo e outro lidera a oposição.

Fonte: Club-k.net

Enquanto os angolanos travavam uma guerra sangrenta entre irmãos, outros países africanos que alcançaram a independência nas décadas de 60 e 70 empenhavam-se para libertar-se da mentalidade de escravos e construir nações prósperas para os seus povos.

De acordo com a Constituição de Angola, no Artigo 110.º (Elegibilidades, Inelegibilidades e Impedimentos), qualquer cidadão que tenha nascido aqui nas terras do Ngola Kiluange, que tenha a idade mínima de 35 anos ou seja residente habitualmente no país há pelo menos 10 anos, que esteja em pleno gozo dos seus direitos civis e políticos e tenha plena capacidade física e mental, pode candidatar-se à presidência da República. Porém, ser presidente não é uma mera aventura de cidadãos nascidos para liderar e nem mesmo a pessoas cuja intenção é a mera elevação dos egos. É um chamado que fez com que professores, advogados, agrónomos, poetas, médicos, historiadores e outros profissionais fossem “obrigados” a envolver-se na «Realpolitik» como resposta ao sofrimento dos seus povos.

Além da luta armada para a libertação dos seus povos, esses líderes de países africanos, incluindo Angola, eram “forçados” a mergulhar na corrida eleitoral. Contudo, as eleições não são e nem devem ser tratadas como um espectáculo de curto prazo, onde os candidatos apresentam slogans vazios, promessas irreais, e campanhas que se esgotam no último dia da eleição.

As eleições internas dos movimentos de libertação que foram transformados em partidos políticos tomaram de assalto os noticiários e as manchetes dos jornais. Alguns mantiveram as ideologias anteriores, enquanto outros surgiram com propostas completamente inovadoras, demonstrando certa adaptação para a sobrevivência. A verdade é que não podemos improvisar nem aventurar-nos como candidato, seja nas eleições internas dos partidos ou na corrida para a governação do país. Um candidato constrói-se. E, mais do que conquistar votos, o grande desafio dos partidos políticos, da sociedade civil e das academias africanas é transformar cidadãos em líderes capazes de governar uma nação com visão, ética e responsabilidade.

A história recente de África mostra-nos exemplos marcantes de líderes como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Kwame Nkrumah, Thomas Sankara, Nelson Mandela, e outros que souberam representar um diferencial na liderança política africana e no mais alto palco do poder de uma nação. Mas não devemos esquecer que nacionalistas como Holden Roberto e Jonas Savimbi, nos casos de Angola, mesmo não atingindo o caldeirão máximo da Cidade Alta, souberam ser candidatos inspiradores que nunca mais sairão da história. São os dois outros considerados “pais da nação”, ao lado do estadista Agostinho Neto.


No cômputo geral das lideranças africanas, alguns falharam por excesso de ambição, enquanto outros se tornaram símbolos eternos pela sua integridade e visão. Mas há uma lição clara que todos aprendemos com eles: sem preparação estratégica, narrativa coerente e valores sólidos, não há liderança que sobreviva ao tempo.


Actualmente, as sociedades africanas já não aceitam apenas “candidatos eleitorais”. Torna-se necessário termos candidatos com visão de estadistas –líderes capazes de pensar além do curto prazo, dominar a comunicação, mobilizar pessoas, apoiar a competitividade democrática, gerir recursos com transparência e, acima de tudo, respeitar a cidadania. Nem todos os cidadãos ingressam na política, mas todos somos afectados pelas decisões políticas.


A boa notícia é que tudo isso se aprende com especialistas devidamente preparados, através de treinamentos personalizados que vão além das doutrinas partidárias e da obediência aos estatutos.


É necessário repensarmos, de forma mais profunda e eficaz, a formação integral de candidatos com capacidade de assumir a liderança comunitária, municipal, provincial, em ONGs, empresas, instituições públicas e até mesmo como Chefe de Estado, permitindo-nos abandonar as lutas que alimentam ciclos de instabilidade e desilusão que afectam o nosso desenvolvimento continental.


Escrevo estas reflexões não apenas como pesquisador e formador, mas também a partir da experiência prática que acumulei ao longo destas 40 décadas de vida. Além de estudar as eleições angolanas de 1992, tive a oportunidade de acompanhar de perto quatro momentos decisivos da política angolana: as eleições gerais de 2008, 2012, 2017 e 2022.

Cada cobertura jornalística que fiz nas três últimas eleições em Angola deixou-me várias lições: desde a importância da comunicação no terreno, à fragilidade de campanhas mal estruturadas, passando pela força simbólica da narrativa e a crescente exigência dos cidadãos. Essas experiências permitiram-me observar, com objectividade, os erros repetidos e as oportunidades desperdiçadas que marcam a nossa considerada jovem democracia, que já se encontra na considerada idade de Jesus Cristo (33 anos).

Neste caso, precisamos repensar a formação de cidadãos africanos que almejam se tornar líderes para guiar nações ricas e tradicionalmente complexas. E além de todo um patriotismo africano necessário, estes líderes precisam incorporar o crescimento com a construção da imagem e reputação pública, diplomacia interna e externa, domínio de estratégias e línguas (locais e internacionais), os anseios do povo, conhecimento de trabalho em equipa, valorização do conhecimento especializado e domínio de formas de captação de financiamentos internos e externos para sustentar com transparência a sua visão.

É necessário ensiná-los a deixar um legado de transformação social que proporciona contribuições valiosas para o desenvolvimento dos seus países, abandonando a falsa ideia de que poder é para se exibir, vingar ou até mesmo enriquecer a sua família. O poder é para servir e construir nações fortes que atendam as próximas gerações.

Queremos ter a oportunidade de viver numa África com líderes conscientes, capazes de enfrentar a complexidade da democracia com coragem e competência, pois o futuro de África não depende apenas de eleições livres e de políticos perfeitos, mas sobretudo da qualidade dos candidatos que se apresentam perante o povo.

E deixo aqui uma pergunta provocadora que será respondida em 2026: que tipo de candidatos e líderes queremos para os próximos 50 anos de África?

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Fernando Guelengue é jornalista com quase duas décadas de profissão, palestrante, autor de livros e pesquisador científico pela Associação Científica de Angola. Criador do Método OAP e treinador de líderes.