Luanda - Senhora Maria Luísa Abrantes, receba os meus profícos cumprimentos.
Li atentamente o seu texto e não posso deixar de constatar as inúmeras contradições e incoerências nas suas afirmações. Por um lado, a senhora diz que “se deu demasiada importância ao processo dos 15+2,” por outro, acusa-nos de que pretendiamos derrubar o governo através da insubordinação e insurreição. Afinal, em que ficamos? Se éramos irrelevantes, por que razão o regime se mobilizou com tanto contingente bélico e meios do Estado para nos perseguir e encarcerar até a condenação?
Fonte: Club-k.net
A verdade, e a História registará isso, é que o processo dos 15+2 teve um peso político e simbólico inegável. A exposição mediática internacional revelou as fragilidades do consulado de José Eduardo dos Santos e acelerou o desgaste da sua imagem.
Já não havia mais condições políticas nem morais para a sua manutenção no poder. O livro de Gene Sharp, adaptado por Domingos da Cruz, foi um guia claro: formar, mobilizar e organizar a sociedade para a luta não violenta, forçando a abertura de um regime que sufoca(va) Angola há mais de 38 anos.
Não se pode, pois, minimizar o contributo dos 15+2 para a saída de José Eduardo dos Santos. JES foi forçado a abandonar o poder não por um capricho pessoal, mas porque o seu regime se tornou insustentável.
Quanto à sua indignação com as alegadas “palavras obscenas” dos revus, permita-me dizer-lhe o seguinte:
- obscenidade foi roubar um povo durante quase quatro décadas.
- Obscenidade é ter milhões de crianças sem escolas dignas, hospitais sem medicamentos, famílias a viver sem água potável, jovens sem emprego e sem oportunidades, milhares de angolanos a emigrarem por falta de esperança no país que os gerou, enquanto uma elite restrita e gananciosa acumula(va) fortunas obscenas à custa do erário público.
- Obscenidade é perpectuar a corrupção, o clientelismo e a captura das instituições do Estado para servir interesses privados de uma oligarquia de origem duvidosa.
E pior, o “legado” de José Eduardo dos Santos foi entregar o país a João Lourenço, que se revelou igualmente incompetente, corrupto e vingativo. Destruiu a já frágil classe média, arruinou a economia e subordinou o destino de Angola às suas disputas pessoais com o seu antecessor. Isto, sim, é obsceno.
Se tivesse um mínimo de respeito pelo povo angolano, compreenderia que a maior obscenidade não foram os insultos ocasionais dos jovens revoltados contra esse regime maligno deixado por JES, mas os 50 anos de humilhação colectiva a que Angola foi submetida.
Senhora Abrantes, a História não se escreve com ressentimentos pessoais nem com defesas apaixonadas de amantes do passado. Escreve-se com factos. E os factos são claros, os 15+2 abriram uma fissura no regime que nem a máquina repressiva conseguiu tapar. Foi essa fissura que precipitou a queda de José Eduardo dos Santos.
Por fim, os 15+2 foram igualmente responsáveis pela libertação dos jovens angolanos do medo a que estiveram sujeitos durante 38 anos de repressão social, económica e política, de assassinatos de adversários e de violência estrutural. Foram também os 15+2 que vos ajudaram a sair do silêncio e da cobardia que vos impedia de falar contra o regime de José Eduardo dos Santos. Pois, depois desse processo, finalmente saíram da prisão mental e passaram a escrever textos e a emitir opiniões públicas. Tudo isso é resultado da bravura e da coragem dos Revús.
O resto são meras narrativas de conveniência. Admita que dói menos.
No entanto, 20 de junho, é uma data significativa para a Juventude angolana.
Por Dito Dalí.
Ex-preso político e integrante do memorável processo “dos 15+2.”













