Luanda - Em setembro de 2022, no dia da tomada de posse de João Lourenço para um segundo mandato, a então Juíza Presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Cardoso, vestida da solenidade do cargo, deixou escapar palavras que soaram como esperança, mas que hoje ecoam como ironia: “Angola não pode ser adiada. Angola não deve continuar a ser um mero sonho! É urgente que ela se torne uma prazerosa realidade, até para o mais humilde dos angolanos.”
Fonte: Club-k.net
Era o calor da ocasião, a retórica própria de momentos históricos, mas também a contradição explícita de quem, ao validar um processo eleitoral manchado de fraude, colocava em segundo plano o clamor popular. O povo angolano foi às urnas sob a dicotomia clara: continuidade (MPLA) ou mudança (UNITA). E embora a maioria desejasse a mudança, a continuidade foi imposta. Laurinda Cardoso sabia disso. Ainda assim, legitimou.
Três anos depois, as palavras dela parecem zombar dos factos. Angola não apenas continua adiada; transformou-se num prolongado adiamento, uma espera angustiante. O número de angolanos que partiram rumo ao exílio ou em busca de condições mínimas de dignidade na Europa e no Brasil explodiu: em Portugal, a comunidade quadruplicou; no Brasil, triplicou. Não são apenas activistas perseguidos pelo regime. São também antigos militantes do MPLA que, cansados da ausência de horizonte, juntaram-se ao fluxo de fuga.
Dentro das fronteiras nacionais, a realidade é brutal: fome ceifando milhares de vidas, cólera e malária abatendo inocentes, desemprego empurrando adolescentes para a prostituição e para a delinquência. O que poderia ser uma nação em construção tornou-se um campo de sobrevivência. O governo, em vez de reformar, fortaleceu-se na sombra de um terrorismo de Estado que não encontra paralelo desde o fim da guerra em 2002.
Laurinda Cardoso, hoje tão silenciosa quanto cúmplice, continua a ocupar o cargo que deveria garantir a independência da justiça e a salvaguarda da Constituição. Mas todos sabem: suas decisões são ditadas nos gabinetes do SINSE, longe da soberania que o tribunal deveria representar. Não é coincidência que tenha substituído Manuel Aragão, que, ao renunciar sob pressão, deixou um aviso fúnebre: “Estamos perante o suicídio do Estado Democrático e de Direito.”
O peso da história é implacável. A juíza, que se apresenta como cristã, repetiu em outras ocasiões discursos que revelam inquietação, como no lançamento do livro de Dom Zacarias Kamuenho — o bispo católico angolano laureado com o Prêmio Sakharov de Direitos Humanos. Mas inquietação sem coragem é apenas retórica.
Enquanto isso, Angola segue suspensa no tempo. As autarquias adiadas. A despartidarização do Estado adiada. A reforma estrutural adiada. O sonho do povo, adiado. Laurinda Cardoso já se esqueceu das suas palavras em 2022. Eu não. E nem o povo esquecerá.
Porque, ao contrário do que ela proclamou, Angola não deixou de ser sonho — apenas se converteu em pesadelo para o mais humilde dos angolanos.
Por Hitler Samussuku











