Luanda - Como é possível que, em Cabinda — a província que sustenta Angola com as suas exportações de petróleo e contribui decisivamente para o Orçamento Geral do Estado — se inaugure uma cadeia sem água e sem luz? Como se pode aceitar que, em pleno século XXI, num país que esbanja centenas milhões de dólares em viagens presidenciais e mordomias do poder, os cidadãos sejam condenados a prisões desumanas, construídas em cima de escândalos financeiros?

Fonte: Club-k.net

No dia 16, o ministro do Interior, Manuel Homem, inaugurou a Cadeia de Cacongo com grande aparato mediático. Capacidade anunciada: 800 reclusos. Realidade: um edifício sem água, sem energia elétrica e sem condições mínimas de dignidade humana. A farsa ficou completa quando os dois geradores, adquiridos a peso de ouro por dois mil milhões de kwanzas, colapsaram 40 minutos após a inauguração. Um espetáculo de propaganda, sustentado pela corrupção.

 

O custo da obra fala por si: de quatro mil milhões de kwanzas, saltou para mais de 20 mil milhões. Uma multiplicação por cinco que não pode ser explicada senão por sobrefaturação descarada e desvios orçamentais, que mais se assemelham a um esquema de saque dos cofres públicos. A empresa responsável pela obra foi a Belo – Terra Vermelha (BTV).

 

Como se não bastasse, o Ministério recorre a uma manobra aparentemente ilegal:  Uma clara pedalada financeira que só poderia acontecer com a bênção da ministra das Finanças, Vera Daves, ou do próprio Presidente da República, João Lourenço. Se assim é, trata-se de corrupção institucionalizada ao mais alto nível do Estado.

A Cadeia de Cacongo não é apenas um edifício-prisão. É um monumento à corrupção, erguido sobre o sofrimento dos angolanos. É a prova viva de que os recursos do país não são usados para servir o povo, mas para enriquecer uns poucos e perpetuar um sistema de impunidade. O resultado é duplo: por um lado, o desvio descarado de fundos públicos; por outro, a violação grosseira dos direitos humanos, ao encarcerar cidadãos em condições desumanas e degradantes, sem acesso a água nem a luz.

Este escândalo não pode ser tratado como mais um caso entre tantos. É a síntese de tudo o que está errado na governação de Angola: corrupção endémica, propaganda vazia, abuso de poder e desprezo total pela dignidade humana. Cabinda, que sustenta o país com o seu petróleo, vê os seus filhos condenados a prisões imundas, enquanto uns poucos se banqueteiam com fortunas roubadas.

A Cadeia de Cacongo ficará também para a história como mais um cemitério da moralidade pública em Angola.