Luanda - Se merenda não dá, vamos logo para a refeição completa. Parece ser esta a genial lógica governamental: se não há capacidade para distribuir um pão com chá, então inventa-se um orçamento bilionário para peixe grelhado com legumes salteados em seis mil escolas. Resultado? Zero chá, zero pão e, claro, nenhuma refeição. O sonho da abundância substitui a realidade da escassez.

Fonte: XAA

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) nasceu com estatuto de salvação da pátria, orçado em 450 mil milhões de kwanzas, para supostamente saciar a fome de 5,4 milhões de crianças. O detalhe técnico mais delicioso? Cada refeição a 376,82 kwanzas. Sim, o Estado calculou até os 82 cêntimos, como se estivéssemos a falar de engenheiros de foguetes e não de cozinhas escolares sem fogão. Mas, na prática, nem os 376 kwanzas, nem os 82 cêntimos aparecem no prato das crianças.

 

A educação em Angola já vive o seu próprio menu de carências: carteiras partidas que obrigam três alunos a disputar a mesma tábua, livros didáticos que ensinam geografia de um país imaginário e matemática com erros dignos de anedota, professores mal pagos que acumulam turmas como quem acumula pacotes de arroz no armazém. Agora, junta-se o “prato do dia”: um programa alimentar que é mais promessa do que nutrição.

 

O mais irónico é que o objectivo declarado é combater a fome, melhorar a aprendizagem e reduzir desigualdades. Mas quem já está com fome aprende que a desigualdade não se resolve com discursos, e que um estômago vazio não se enche com powerpoints de orçamento.

 

No fundo, é a velha alquimia política: transformar a falta de verbas em discursos cheios de boas intenções, onde a única coisa alimentada é a burocracia. E assim seguimos: sem merenda, sem refeição, sem carteiras, sem livros decentes. Mas com relatórios bem escritos e conferências bem servidas de catering.