Luanda - No seu livro O MPLA perante si mesmo, Jean-Michel Mabeko Tali revisita as fissuras internas do partido que há décadas monopoliza o poder em Angola. Ele descreve, com precisão cirúrgica, a dissidência dos anos 1960, 1970 e 1980, quando divergências ideológicas se traduziam em expurgos sangrentos e maquinações políticas. Passadas tantas décadas, parece que a história insiste em repetir-se, apenas com outros rostos e novas estratégias, mas a mesma lógica de destruição interna.

Fonte: Club-k.net

O caso de Higino Carneiro, o chamado “General 4x4”, expõe de forma brutal como o MPLA continua a triturar seus próprios filhos. Desde que manifestou o desejo de concorrer ao “cadeirão máximo” do partido, tornou-se alvo de uma campanha implacável de calúnias e difamações, orquestrada não só por colegas de partido, mas também pelos tentáculos do SINSE. Primeiro, a acusação torpe de que teria contaminado uma cidadã com o vírus do HIV. Depois, a narrativa de que desviava brinquedos do Kuando Kubango para o Libolo. Em seguida, o rótulo de colaborador da CIA. Tudo em horário nobre, transmitido pela televisão pública, como se o Estado fosse correia de transmissão de guerras pessoais.

Não é novidade. O MPLA sempre apostou na fabricação de mitos e monstros. Nos anos 1970, difundiu a farsa de que militantes da FNLA comiam pessoas. Nos anos 1980 e 1990, foi Jonas Savimbi o alvo: diziam que assassinara os pais e os próprios filhos, e que, caso vencesse as eleições, faria os malanjinos empurrar comboios com os dentes. Mais recentemente, o mesmo manual de fake news foi usado contra Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA. De pedófilo a cabo-verdiano, de português a agente de conspirações estrangeiras, nenhuma acusação pareceu excessiva. Agora, a peça mais grotesca: um processo de terrorismo, supostas toneladas de explosivos e até uma ligação ao grupo Wagner, do falecido Yevgeny Prigozhin.

Quando o MPLA ataca adversários externos, a lógica de guerra política ainda pode ser compreendida. Mas quando a vítima é um dos seus próprios, como no caso de Higino Carneiro, o jogo atinge níveis de perversidade que exigem reflexão colectiva. É sinal de que qualquer militante que ouse pensar diferente será triturado pelo mesmo aparelho que se confunde com o Estado. O SINSE, criado para proteger Angola, transformou-se numa máquina de fabricar inverdades. Inteligência nunca foi o seu forte: foi esse mesmo órgão que, nos anos 1970, induziu Agostinho Neto ao erro, resultando na chacina de dezenas de milhares de cidadãos ligados ao Poder Popular e às ideias de Nito Alves. Foi também o SINSE que levou José Eduardo dos Santos a desastres políticos, como o caso 15+2 e o caso Marco Mavungo, que mancharam irreversivelmente a sua reputação.

Hoje, João Lourenço repete os mesmos erros, talvez com mais imprudência. À frente de um segundo mandato já desgastado, o presidente recorre ao lawfare, ao uso político dos tribunais, e tenta manipular a cena partidária com a legalização de partidos satélites, destinados a confundir a opinião pública. Mas os factos revelam um isolamento crescente: em julho de 2025, um massacre em Luanda, protagonizado pelas forças de defesa e segurança, ampliou o medo social e consolidou a rejeição popular.

A pré-candidatura de Higino Carneiro foi suficiente para abalar João Lourenço, que respondeu com ataques públicos, transmissões especiais e discursos que soam mais a desespero do que a segurança de um chefe de Estado. O que se vê é um país onde o poder se sustenta menos pela confiança do povo e mais pelo uso abusivo das instituições, enquanto a UNITA permanece como única alternativa viável, sobrevivendo às ondas sucessivas de desinformação.

A história, como ensinou Jean Michel Mabeko Tali, volta sempre ao mesmo ponto: o MPLA perante si mesmo. Mas a cada volta desse ciclo, mais profundo fica o fosso entre o partido no poder e a nação que ele insiste em subjugar.

Por Hitler Samussuku