Luanda — Alfredo Kussumua (1957–1993) é lembrado como um dos oficiais militares mais proeminentes da sua geração, cuja carreira foi interrompida aos 35 anos, mas cujo sacrifício marcou a história da guerra pós-eleitoral em Angola. A sua liderança no Cuíto, Bié, entre 1992 e 1993, é vista como decisiva para impedir a divisão do país, consolidando o seu nome como símbolo de resistência militar.

Fonte: Club-k.net

Natural do Bié, filho de um ferroviário e de uma camponesa do Moxico, Kussumua ingressou nas FAPLA em 1975/76, destacando-se desde cedo no Centro de Instrução Revolucionária, no Kwanza-Sul. Com apenas 18 anos, tornou-se instrutor e, em 1977, foi selecionado para o segundo curso de oficiais na Escola Nicolau Gomes Spencer, no Huambo.

 

A sua carreira ganhou projeção quando, em 1978, foi chamado pelo general França Ndalo para integrar a reestruturação do Regimento Presidencial. Ali desempenhou funções de Chefe de Operações do Primeiro Batalhão de Infantaria Motorizada e consolidou formação especializada em desembarque e assalto.

 

Comando e prestígio

Ao longo da carreira, Kussumua exerceu funções de elevada responsabilidade: comandou a 54.ª Brigada da 9.ª Região Militar de Luanda, chefiou o Estado-Maior do Regimento Presidencial e assumiu a Missão Militar em São Tomé. No Cuando-Cubango, onde esteve sete anos, desempenhou os cargos de Chefe do Estado-Maior e Comandante da Região Militar, adquirindo prestígio e experiência estratégica.

 

Atingiu a patente de coronel, a mais alta nas FAPLA à época, equivalente em funções a um general de três estrelas, sempre por nomeação direta do Presidente da República.

 

A muralha do Bié

O momento mais decisivo da sua trajetória ocorreu após o colapso das eleições de 1992, quando o Bié se tornou alvo de intensos combates. À frente do Comando Operacional da província, Kussumua recusou a retirada e reorganizou forças dispersas. “O Bié não seria tomado nem por cima do meu cadáver”, garantiu aos subordinados.

 

Durante nove meses de cerco, sem alimentos nem armamento suficiente, manteve a resistência através de disciplina, inteligência tática e apelo moral. O episódio ficou conhecido como um dos períodos mais duros da guerra, com o Cuíto dividido por uma rua.

 

Demonstrou também tolerância rara em tempo de guerra, ao recusar a execução sumária de dois professores civis ligados à UNITA — decisão que lhe valeu críticas internas, mas que reforçou a sua imagem de comandante equilibrado.

 

Herança e simbolismo

Kussumua morreu a 2 de setembro de 1993, durante uma operação de reabastecimento no aeroporto do Cuíto. Deixou esposa e quatro filhos. A confiança que inspirava era tal que, após a sua morte, Luanda autorizou que o então capitão Simione Mucune, seu protegido, assumisse o comando das operações no Bié.

O impacto da sua liderança foi perpetuado na Operação Kussumua, lançada para recuperar o controlo do Cuíto. Entre oficiais e veteranos das FAA, é visto como um militar destinado a ascender a responsabilidades junto do Estado-Maior General, caso tivesse sobrevivido.