Luanda - O meu pai foi seminarista. Entrou no MPLA pelas mãos do alter-ego de Agostinho Neto: Joaquim Capango. Caiu na ressaca do 27 de Maio de 1977. Prisões. Perseguições. Execuções.


Fonte: Club-k.net

Deixou uma viúva de 21 anos. Dois filhos ao colo. Sozinha. Sem família. Sem apoios. Num país estranho. Numa província onde não tinha ninguém. Sem berço. Sem raízes. Sem lei para os fracos.


De luto, a minha mãe bateu a todas as portas. Queria apenas o corpo do marido. Teve de negociar a dignidade de um morto. Conseguiu. Porque tinha sal nos cabelos. Força no braço. Persistência no sangue. Maria Tonha Pedale foi o único canal de acesso ao poder.


Eu tinha dois anos. Cresci a ouvir histórias. Umas verdadeiras. Outras inventadas. Muitas mentirosas. Há quem manipule a memória. Mas a violência foi real. O medo foi real. O Estado mostrou cedo que podia ser mais cruel do que qualquer inimigo externo.


Há uma certeza: 27 de Maio, nunca mais. Nem ontem. Nem hoje. Nem amanhã. A memória é aviso. A impunidade é risco. As vítimas estão enterradas. Os traumas continuam vivos. Projectam-se sombras.


Mas os sinais voltam. Há vozes dentro do Estado que parecem querer reeditar o trauma. Uma nova ameaça circula nas redes sociais. Espalha-se depressa. Sem punição. O silêncio legitima o medo.


O recado é brutal: “ÚLTIMO AVISO! Vocês podem estar no estrangeiro, mas as vossas famílias estão em Angola! Vão acompanhar funerais online! Muitos funerais!”


A imagem mostra um homem mascarado. Machado em punho. Partilhada por um tal de Marcos Aurélio. Nome falso, certamente.


O SIC costuma ser rápido a identificar críticos do Governo. Mas quando surgem ameaças à Segurança Nacional… silêncio. Omissão. Cumplicidade. Lawfare.


Não é caso único. Em 2022, papéis com caveiras apareceram nos carros de deputados da UNITA. A PGR nada investigou. O padrão repete-se. A democracia fica mais frágil. Os cidadãos mais expostos.


Hoje, diante desta nova ameaça, o silêncio mantém-se. Sem inquérito. Sem explicações. Sem justiça.


Resta a suspeita. Se não investigam, é porque sabem. Se não agem, é porque são cúmplices. A cumplicidade velada é tão perigosa como a violência directa.


É medonho. As instituições que deviam proteger o Estado transformaram-se em cúmplices. Usam até as redes sociais para intimidar.


Ninguém está seguro. Nem em Angola. Nem fora. Cada silêncio do poder aumenta a instabilidade.


Um Governo que se volta contra os cidadãos perde legitimidade. Deixa de servir a Nação. Deixa de proteger a sociedade.


Mais grave ainda: O Presidente da República permite. Fecha os olhos. Deixa passar. Ao fazê-lo, abre caminho para novo desastre. Torna-se mandatário por omissão.


O silêncio é político. Mata a confiança. Alimenta o medo. Se nada for feito, a História vai repetir-se. Angola não aguenta outro 27 de Maio.

Por isso, a escolha é urgente: Ou a lei serve todos, ou não serve ninguém. Ameaças têm de ser investigadas. Culpados responsabilizados. Instituições obrigadas a cumprir o seu dever. Sem verdade e sem Justiça, o País vai continuar refém do medo. Dito de forma clara: Angola vive sob ameaça de morte.