Luanda - O Presidente do Malawi, Lazarus Chakwera, acaba de dar uma aula gratuita a meio continente: perdeu eleições e, pasmem, reconheceu a derrota. Não esperou pela Comissão Eleitoral, nem mobilizou tropas, nem chamou os anjos do apocalipse. Apenas disse: “É hora de respeitarmos a vontade do povo malawiano”. Uma frase simples, mas que pesa toneladas quando comparada ao silêncio ensurdecedor de tantos palácios africanos.

Fonte: Club-k.net

Chakwera governava desde 2020. Saiu pela porta da frente, sem escândalo, sem sangue, sem tribunais manipulados. Felicitou o adversário, pediu calma aos seus apoiantes e mostrou que democracia não é uma guerra civil adiada, mas um pacto de civilidade. No Malawi, o povo vota, escolhe e o poder muda de mãos. Simples assim.

Enquanto isso, em outros países, Angola e Moçambique na linha da frente, a democracia é uma miragem. Eleições viram novelas mal produzidas, onde o enredo já se conhece: há urnas, há votos, há contagem… e há sempre o mesmo vencedor. O povo vai às urnas com fé, mas descobre no dia seguinte que a “luz divina” voltou a iluminar o mesmo rosto, como se governar fosse missão sagrada e eterna.


Não custa nada deixar o poder. É até saudável. Em 2020, nos Estados Unidos, Trump perdeu e saiu (resmungando, mas saiu). No Brasil, Bolsonaro perdeu e o mundo não acabou. Em Portugal, em Cabo Verde, no Gana… presidentes vêm e vão. A vida continua. O Estado não desmorona porque um homem devolveu a chave do palácio. Mas em algumas capitais africanas, a cadeira presidencial parece ter supercola: quem senta nunca mais se levanta.


Chakwera, com seu gesto, mostrou que governar não é roubar. Quem não rouba, perde e dorme tranquilo, porque sabe que poderá voltar. O presidente que venceu agora já tinha perdido antes. Voltou. E o Malawi não se incendiou, não se partiu ao meio, não chamou observadores para ficarem de luto.


O contraste é gritante quando olhamos para outros pontos do continente. No Zimbabué, Robert Mugabe permaneceu décadas no poder até ser empurrado pela força, e mesmo assim o sistema permaneceu intacto, com novos rostos a praticar velhas práticas. No Uganda, Yoweri Museveni transformou-se num monumento de permanência, governando como se fosse eterno. Nos Camarões, PaulBiya parece ter assinado um pacto de imortalidade política.


O Malawi, pequeno no mapa, gigante na lição, mostrou que a democracia não é um luxo europeu, nem uma invenção ocidental. É apenas o respeito pela vontade popular. E esse respeito simples, mas transformador, continua a ser a maior fragilidade das nossas chamadas “democracias de vidro”.


Por: Horácio dos Reis