Luanda - Finalmente, o Governo decidiu pôr Luanda a andar sobre carris. Aleluia! Depois de tantos engarrafamentos que já são praticamente património imaterial da cidade, vem aí o tão falado Metro de Superfície. Três mil milhões de dólares para ensinar os luandenses a andar de comboio dentro da própria cidade. Uma verdadeira revolução, ou quem sabe, mais uma estação na longa viagem das promessas governamentais.
Fonte: Club-k.net
O ministro Ricardo D’Abreu explicou, com a serenidade de quem já decorou o discurso, que o dinheiro virá do Estado, porque os investidores privados, coitados, acharam o projecto “complexo demais”. É compreensível. Em Luanda, até construir uma paragem de táxi exige estudos técnicos, audiências públicas e, claro, um “ajuste” no orçamento. Portanto, se o sector privado não quis arriscar, o Estado, sempre generoso, decidiu abrir os cofres e embarcar sozinho.
Mas há um pequeno detalhe, uma espécie de “linha secundária” que poucos estão a ver: o urbanismo de Luanda. Onde exactamente vai passar este metro? Por cima das casas? Por baixo das valas? Ou vai atravessar as zungueiras que todos os dias disputam espaço com as viaturas e os buracos? Fala-se em estudos técnicos e traçados modernos, mas qualquer cidadão que viva nos musseques sabe que em Luanda é mais fácil fazer um túnel na burocracia do que no solo.
E sobre o custo, meus senhores, três mil milhões de dólares por um metro de superfície parece mais um metro de luxo. Com esse dinheiro, talvez fosse mais económico mandar o ministro e toda a equipa técnica visitar a China, onde constroem cidades inteiras com menos dinheiro e entregam comboios que funcionam de verdade, e sem precisar de um “estudo técnico final até dezembro”.
Mas sejamos justos, é uma iniciativa louvável. Afinal, depois de tantos anos de discursos sobre modernização, alguém teve coragem de pôr o Estado a investir em mobilidade urbana, mesmo que o resultado final acabe a meio do caminho, como tantos outros projectos que começaram com pompa e acabaram em sucata.
Que venha o Metro de Superfície. Que ele traga ar fresco, menos engarrafamentos e, quem sabe, um novo slogan para o país: “Angola, onde o progresso anda sobre carris, de superfície e de paciência.”









