Luanda — Um cidadão identificado como Afonso Jovelino Mendes, de 37 anos, dirigiu uma carta de oito páginas ao Director-Geral do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala, na qual pede proteção urgente à sua integridade física, alegando ser alvo de perseguições e ameaças de morte por parte de altas patentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC).

Fonte: Club-k.net

No documento, o denunciante afirma ter colaborado informalmente com o SIC desde 2023, após ser recrutado como “pessoal de confiança” pelo então director da área de Identificação e Cadastro, Comissário de Investigação Criminal Rufino Mário Zangui Gunza. Segundo o relato, Mendes teria prestado informações relevantes que resultaram em várias detenções e apreensões de drogas, diamantes e dinheiro falso, sem nunca ter sido formalmente integrado ou remunerado pela instituição.

 

“Comecei por prestar informações de carácter criminal que foram comprovadas e actuadas com sucesso. A minha dedicação fez-me ganhar a confiança do Director Rufino e de outros chefes, que disputavam trabalhar comigo”, escreveu.

 

O cidadão afirma ainda ter vivido durante meses nas instalações do SIC, em Cacuaco, e posteriormente na residência do referido director, em Benfica, onde diz ter presenciado práticas ilícitas, incluindo pagamento de subornos para ingresso e promoção no SIC.

 

Mendes denuncia também a existência de esquemas de extorsão, corrupção e manipulação de provas envolvendo directores nacionais do SIC, nomeadamente Caetano Manuel Mufuma (Combate à Corrupção), e outros oficiais, como Ngola Kina, Lufungula, Vidal e Bangão, alegando que muitos casos de droga e contrafação por ele reportados foram “negociados” com os infractores.

 

“Todo o dinheiro encontrado na posse dos traficantes nunca era apreendido, e a droga era sempre reduzida à quantidade exacta encontrada”, descreve.

 

Afonso Mendes garante ter sido detido e espancado em Maio de 2025, após ser denunciado por uma cidadã que teria pago 700 mil kwanzas para ingressar no SIC, e posteriormente entregue a oficiais da Direcção do Narcotráfico, onde diz ter sido mantido em cárcere privado por cinco dias, sem alimentação e sob ameaças de execução.

 

“Apontaram-me uma arma à cabeça e disseram: ‘essa é a merda que vou te enfiar na cabeça’”, lê-se na carta.

 

Entre as operações que afirma ter participado, constam casos de contrafação de moeda, tráfico de droga, comércio de alimentos expirados, assaltos à mão armada e interrupção ilegal de gravidez. Contudo, segundo ele, “quase todos os casos acabaram negociados ilicitamente” por dirigentes do SIC.

 

Sem moradia, sem família e vivendo em constante medo, Mendes termina a carta suplicando intervenção do general Garcia Miala, pedindo-lhe que “reponha a legalidade” e o proteja das alegadas represálias.

 

“Por essa Angola, por essa pátria, com fé e esperança, suplico mais uma vez por uma oportunidade para que me possa explicar melhor, pessoalmente”, conclui.

 

O SIC e o Ministério do Interior não responderam até ao momento às alegações apresentadas por Afonso Mendes.