Luanda - Ano: 1997. Luanda. Avenida do 1.º Congresso do MPLA. Sede do Parlamento. Os carros iam de cima a baixo. O relógio marcava doze horas. O sol estava no zénite. Os deputados faziam a pausa do almoço. Vitualhas da Maboque de Armindo César. Pratos fartos. Bebidas generosas. Muitos voltavam às sessões bem regados. Língua solta. Passo incerto. Debates acesos. Enquanto os deputados discutiam entre garfadas e copos, lá fora a música angolana chorava por abandono.

Fonte: Club-k.net

Saímos da sala da Assembleia para cumprir o nosso dever: Voltar às redações e dar a notícia. Repórteres em acção.

João Lígio, da TPA. Mário Inácio, da LAC (Luanda Antena Comercial). Eu, do saudoso semanário Comércio Actualidade. João com o seu cameraman. Mário com a Marant ao ombro. Eu com o bloco e a esferográfica no bolso das jeans surradas.

Mário era meu parça (leia-se parceiro) de várias avenidas e córregos em Luanda e Benguela. Nas farras que tivemos no Cassenda, em casa de Job Capapinha e Marcos Barrica. Outros tempos. Tempos bons.

Do lado da antiga casa do médico e deputado Mac-Mahon vinha a descer uma figura conhecida da música angolana: Proletário (Man Prole). Um herói da cultura angolana. Está esquecido. Abandonado à sua própria sorte. Que desdita, a kizomba triste de Proletário. Figura castiça. Andar despreocupado. Olhos esbugalhados. Ar sisudo. Sorriso de menino. Um músico que animou o País nos seus momentos mais sombrios.

Falávamos do almoço que teríamos dali a umas horas na barraca da Dona Mimi, no Kinaxixi, onde bebíamos Vinul a granel com Coca-Cola. Encontro combinado. Marcado. Octávio Kapapa era o patrocinador de serviço. Horácio Pedro, camarada e amigo, era habitué.

Mário virou o pescoço e disse-me: “Jorge, vem aí o Proletário”. Não liguei. Ele deixou o músico aproximar-se. Cumprimentou-o. Identificou-se. Fez duas perguntas. Ligou a Marant. Gravou a entrevista ali mesmo. Assisti a cinco metros de distância. Meio indiferente. A entrevista acabou. Mário perguntou-me se me lembrava dele. Claro que sim.

O músico disse que um novo disco estava para breve. Não ouvi a peça quando foi para o ar, mas deve ter ficado bem. “Quem Tem LAC Ouve Mais”. Um ou dois anos depois, o disco saiu. As rádios tocaram-no até à exaustão. Sucesso garantido!

Ontem vi um vídeo de Proletário. Está doente.
Justifica a ausência nos festejos do Jubileu dos cinquenta anos da Independência Nacional.
Clama pelo apoio dos fãs. Ao Governo pede um carro e uma casa com melhor localização. Implora. Atenção: Pode ser o último apelo de Proletário.

Doeu vê-lo assim. Foi excruciante. Um homem implora por cuidados médicos. Corre risco de perder a perna direita.
Mexeu-me por dentro. Deixou-me destroçado. Revoltado. Abalou o meu coração. Com razão.

Proletário não merecia isto. Deu voz a várias gerações. Deu alegrias à Nação. Fez sorrir o País quando tinha motivos para chorar. Agora está sozinho. Doente. À espera de ajuda que deveria ser garantida pelo Estado.
Hoje sabe que tudo o que investiu foi num saco roto. O passado teve sabor de mel. O futuro sabe a fel.

Não é caso único. Foi assim com Mamborró, Diabick, Jacinto Tchipa, Vate Costa, Bangão. Está a ser assim com Migue. A lista é longa. Demasiado longa. O mesmo acontece com desportistas, jornalistas, escritores. Com todos os que não têm meios para ir a Portugal ou à África do Sul tratar-se. Em Angola, ninguém tem garantias de Segurança Social. Cada um por si. Deus por todos. Quase todos os funcionários públicos acabam indigentes. Pedintes. Morrem a clamar pelo mínimo ao Governo. Não haveria esta necessidade se o objectivo da governação fosse dar dignidade ao cidadão.

Proletário precisa de ajuda. Agora! Já! E não devia estar nesta situação. Deu muito ao País. Deu voz, força e esperança. Em troca recebe abandono. Os direitos de autor em Angola não chegam para três refeições por dia. Os artistas trabalham. E, no fim, a Estamos todos sujeitos ao mesmo destino. Uns acabam a mendigar. Outros, com mais sorte ou mais fazenda, fecham a vida em Lisboa, Londres, Pretória ou Paris.

Hoje, Proletário implora. Amanhã, talvez já não possa.
E quando a notícia da sua morte correr, vão aparecer as coroas. Os discursos. As condolências oficiais. Os minutos de silêncio. Os mesmos que hoje o deixam sozinho vão dizer que ele “marcou uma geração”.

Hipocrisia não alimenta ninguém. Nem salva vidas.
O tempo de ajudar é agora. Depois vai ser apenas barulho sobre um caixão. Mais um caixão de alguém que deu tudo para o Estado angolano.
Em troca recebeu desprezo. Olhares de indiferença frios, vilmente distantes. O tempo de agir é agora. Amanhã pode ser tarde demais.

Post Scriptum: No meu artigo publicado ontem sob o título “Jornalismo aos Jornalistas” fui injusto. Extremamente. Omiti nomes de profissionais da RNA que ajudaram a erguer o radiojornalismo angolano.

Fica aqui a minha penitência. E a minha expiação.