Luanda - O líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, que concorre a sua própria sucessão no XIV Congresso Ordinário, que arrancou nesta sexta-feira, 28, em Luanda, lamentou, “profundamente” que 50 anos depois da proclamação da Independência Nacional, "os angolanos continuem divididos entre vencedores e vencidos”.

Fonte: Club-K.net

No seu discurso de abertura do conclave, que encerra neste domingo, no complexo Sovsmo, com a eleição do novo presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, disse que se constata a prevalência, 50 anos depois, “a narrativa que esteve na base do conflito que opôs os angolanos por quase três décadas”.

O político garantiu que os “erros” que motivaram o conflito armado em Angola, “não deveremos repetir hoje, aquilo que ontem nos separou”.

Eis o discurso completo do presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, na abertura do XIV Congresso Ordinário, que decorre no município de Viana, nos dias 28 e 30 de Novembro, em Luanda:

Digníssimo Coordenador da Comissão Organizadora do Congresso;

Prezados membros da Direcção do nosso Partido;

Mui Veneranda Juíza PR DO Tribunal Constitucional; Ilustres Vice Pr da NA;

Dignos Representantes de Partidos Políticos Nacionais e Partidos Irmãos de outros países que nos Honram com a Vossa Presença;

Membros do Corpo Diplomático, Membros das Organizações da Sociedade Civil; Entidades Religiosas; Autoridades Tradicionais;

Observadores Nacionais e Internacionais a este XIV Congresso;

Caros Delegados ao XIV Congresso Ordinário da UNITA;

Senhores Jornalistas ; a todos muito boa tarde.

Angolanas e angolanos

Permitam-me que em nome da UNITA estenda a cada um de vós, a nossa calorosa saudação e profundo agradecimento pelo facto de nos honrarem com a vossa prestimosa presença, neste Magno Evento do nosso Partido.

É com profundo sentido de responsabilidade e honra que tomo a palavra neste XIV Congresso Ordinário da UNITA, um momento maior da vida política nacional e um marco de renovação do nosso compromisso com Angola, com a liberdade, com a verdade e com a dignidade do cidadão angolano.

Hoje, aqui reunidos, celebramos não apenas um encontro estatutário, mas um acto de afirmação da maturidade democrática de um partido que soube atravessar tempos difíceis, superar provações, resistir a tentativas de silenciamento e permanecer fiel à sua identidade, ao seu legado e à sua missão histórica.

Este é, por conseguinte, um momento fundamental para o nosso partido e decisivo para o futuro do nosso país. De facto, reunimo-nos hoje não apenas para celebrar o passado, mas para assegurar o futuro. Por isso, este Congresso simboliza a maturidade de um projecto político que permanece fiel à sua essência: servir Angola com verdade, com coragem e com um compromisso inabalável para com o povo Angolano.

Mas, prezados Congressistas, o nosso primeiro dever é o da memória. Não a memória que aprisiona, mas a memória que orienta. Pois este Congresso decorre sob a luz daqueles que, antes de nós, ergueram a bandeira da liberdade.

Recordamos hoje, com respeito e com sentido de continuidade, o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, líder fundador da UNITA, que sonhou com uma Angola plural, de justiça social, democrática e próspera.

Pela décima quarta vez, a UNITA reúne o seu Congresso Ordinário, um acontecimento político de extraordinária relevância na vida da nossa Organização Política, acto que congrega representantes de todos os Órgãos do Partido, eleitos democraticamente para trazerem as suas contribuições nas discussões e decisões a serem tomadas para os próximos quatro anos. Aqui estão também, Delegados mandatados pelas Conferências comunais, municipais e provinciais, para fazerem a avaliação do percurso do Partido, desde o último Congresso, ocorrido em 2021

Queremos, por isso, saudar de forma muito especial, os 1.251 Delegados que se encontram nesta sala, em representação das Bases do Partido, nos trezentos e vinte e seis (326) municípios das vinte e uma (21) províncias de Angola.

Sejam todos muito bem-vindos e auguramos que tenham todos feito uma boa viagem.

Ao longo do mandato que agora concluímos, enfrentámos desafios significativos, mas também alcançámos conquistas importantes:

•Reforçámos a democracia interna;

•Consolidámos a presença do Partido em todas as províncias;

•Melhorámos a organização das nossas estruturas e a capacidade de resposta política;

. Lideramos a Frente Patriótica Unida que teve um desempenho relevante nas eleições de 2022;

Mantivemos firme a defesa dos interesses nacionais, da cidadania e da dignidade humana.

Quero, aqui, reconhecer publicamente o empenho dos Vice-Presidentes, do Secretário-Geral e seus Adjuntos, Presidentes da LIMA, Secretários Gerais da JURA, dos Secretários Nacionais, Provinciais, Municipais, Comunais e de todos os quadros, militantes amigos que, nas condições mais adversas, mantiveram viva a chama da UNITA. O vosso trabalho mostra que o Partido tem força, tem fibra, tem responsabilidade. Mas sabemos que podemos e devemos ir mais longe com unidade, disciplina e sentido patriótico.

Prezados Compatriotas

A UNITA segue fielmente a tradição filosófica que instituiu em 1966, de fundamentar as suas acções e todos os seus actos em decisões tomadas democraticamente, inseridas no método de trabalho que privilegia a Direcção colectiva, que busca regularmente a sua legitimidade nas bases e que sujeita a aprovação dos Programas no Congresso.

É assim que tem sido ao longo dos 59 anos de existência e de percurso político da UNITA por Angola e pelos angolanos.

Momentos muito especiais antecederam a realização do XIV Congresso Ordinário da UNITA que vale a pena trazer à reflexão. Refiro-me ao Congresso Nacional da Reconciliação no qual a UNITA participou com uma expressiva e numerosa delegação. Perante o défice de diálogo aberto e frontal que vivemos no país, reputamos de suma importância aquele evento, que reuniu diversas sensibilidades sociais, político-partidárias, religiosas, sindicais, culturais, académicas, jurídicas, em torno de um propósito comum: pensar Angola dos 50 anos, vividos em circunstâncias históricas, marcadamente adversas e projectar o que devia ser Angola de futuro, por novos caminhos para a realização plena de todos os angolanos. A UNITA felicita, por isso mesmo a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé – CEAST, pela tão proeminente iniciativa cujas contribuições, traduzidas em Carta de Compromissos, se tomadas em conta por todos e por cada um, nos papéis em que estiver investido, podem efectivamente fazer com que Angola se torne um país melhor para todos os seus filhos e para todos aqueles que escolheram aqui viver.

Outro facto relevante foi a celebração dos 50 anos de Independência Nacional. A UNITA, por ocasião dessa efeméride, saudou o povo angolano, enquanto verdadeiro artífice da luta pela Libertação Nacional e detentor exclusivo da soberania nacional, conquistada a 11 de Novembro de 1975, com o derrube do regime colonial de então. Saudamos todos os patriotas que tornaram possível a celebração desta data e dirigimos a nossa vénia a todos quantos se bateram para o reconhecimento igual dos Pais da Nação, signatários dos Acordos de Alvor: Deixamos claro que a falta de um reconhecimento genuíno e equitativo dos verdadeiros Pais da Independência de Angola – Álvaro Holden Roberto, António Agostinho Neto e Jonas Malheiro Savimbi, era um indicador mais do que claro da ainda frágil reconciliação dos angolanos. Defendemos uma opinião diferente sobre a forma como foram organizadas as cerimónias e sobretudo o esbanjamento financeiro que isso representou. Nesta perspectiva, estivemos alinhados com todos sectores da nossa sociedade que criticaram e julgaram que no momento de crise e com Angola a precisar de recursos para resolver problemas básicos da população, os dispêndios financeiros ocorridos com festanças foi uma opção errada e anti-patriótica.

A UNITA reconhece, como marco assinalável, os 50 anos de Independência Nacional e que esta data deveria ser comemorada sob o signo da Unidade e Reconciliação e sob a bandeira da inclusão.

A UNITA lamenta, profundamente que 50 anos depois da proclamação da Independência Nacional, os angolanos continuem divididos entre vencedores e vencidos. A UNITA lamenta constatar que esteja a prevalecer, 50 anos depois, a narrativa que esteve na base do conflito que opôs os angolanos por quase três décadas. Não deveremos repetir hoje, aquilo que ontem nos separou!

É uma constatação generalizada de que é mais do que tempo de abraçarmos a oportunidade de unir os angolanos em torno de uma causa comum, o interesse nacional e de colocarmos uma pedra sobre um passado de divisões e um passado de desconfianças.

Reafirmamos a partir desta tribuna, aqui e agora que a UNITA que participou com o melhor do seu esforço e dos seus membros na Luta de Libertação Nacional, ao lado das populações no interior de Angola, conquistou, por mérito próprio, o direito de actor incontornável do processo político angolano. Prestou um contributo inolvidável para a conquista da independência e resistiu contra o sistema de partido-único implantado em 1975, em Angola e por mérito próprio também, conquistou o estatuto de co-fundadora do Estado Democrático em construção no nosso país, ao abrigo dos Acordos de Paz de Bicesse, assinados a 31 de Maio de 1991, entre os Presidentes José Eduardo dos Santos e Jonas Malheiro Savimbi. Somos firmes defensores da Economia de Mercado e de reformas capazes de proporcionar estabilidade e dignidade à vida dos angolanos.

O Congresso da UNITA, de acordo com o artigo 25 dos Estatutos, é o Órgão Supremo do Partido, ao qual compete, entre outras,

a)Estabelecer a linha político-ideológica do Partido;

b) Aprovar e adoptar a estratégia, o programa do Partido e seus objectivos;

c) Rever os Estatutos e o Programa maior do Partido;

d) Aprovar os relatórios apresentados pelos órgãos do Partido;

e) Eleger o Presidente do Partido;

f) Eleger a Comissão Política;

g) Decidir sobre a extinção, fusão, cisão ou a incorporação do Partido, nos termos dos Estatutos;

h) Apreciar a actuação dos órgãos do Partido e deliberar sobre qualquer questão de interesse do Partido.

Durante os três dias, os delegados eleitos vão debruçar-se sobre as matérias acima mencionadas.

Quanto ao processo democrático interno, terminou no dia 26, o período reservado à campanha eleitoral ao Cargo de Presidente da UNITA que levou dois candidatos, nomeadamente Rafael Massanga Sakaita Savimbi e Adalberto Costa Júnior, ao contacto com as bases do Partido nas vinte e uma (21) províncias de Angola, em especial com os delegados locais, numa dinâmica de proximidade e interacção, que dignifica a UNITA, que por opção, realiza esse exercício desde 2003, portanto, este é o sétimo congresso que se realiza com múltiplas candidaturas

Pelas razões acima descritas, a UNITA e os seus membros nunca se vão autoexcluir, pois conquistaram o direito de plena participação política democrática. É hora de pôr cobro a excessos, a violações dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos. O respeito das liberdades individuais, a assumpção plena de uma sociedade democrática, as reformas a que todos anseiam, são as bases em que irão assentar os alicerces de uma economia diversificada e de uma sociedade que viva em dignidade e abrace o desenvolvimento.

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Meus Caros Compatriotas

Angola desafia-nos a mudar de rumo, neste começo do Novo Cinquentenário, que deve ser erigido e vivido sob novo Paradigma Político. Fomos e somos testemunhas oculares e partícipes dos 50 anos passados, cada um a seu nível de responsabilidade. Importando o passado como referência apenas, tenhamos a coragem de fazer melhor e diferente. Nós na UNITA, estamos decididos, determinados e assumidos a trabalhar com todos para operar a tão desejada mudança política que Angola clama. Faremos do nosso XIV Congresso Ordinário a plataforma e oportunidade especial para definição de estratégia e programas que se traduzam em esteio para a concretização da mais legítima e nobre aspiração dos angolanos, a alternância democrática do poder político.

Olhamos para Angola com o amor de filhos e com a consciência das responsabilidades históricas que todos carregamos. O País enfrenta uma crise de liderança sem precedentes;

As instituições do Estado enfrentam desafios de credibilidade e autonomia; O espaço democrático necessita de ser ampliado para a reafirmação de um Estado Democrático e Direito de facto;

A participação cidadã precisa de ser respeitada e não condicionada; A alternância democrática deve ser vista como um processo natural de maturação política, nunca vista como ameaça.

A UNITA propõe-se e apresenta-se como alternativa viável e credível para assumir as rédeas do PODER POLÍTICO em 2027, e implementar reformas reais que abarquem a DESCENTRALIZAÇÃO REAL, REFORMA CONSTITUCIONAL, PODER JUDICIÁRIO INDEPENDENTE, IMPRENSA LIVRE PARA FISCALIZAR O PODER E UMA ECONOMIA ABERTA.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Distintos Delegados,

O XIV Congresso Ordinário, decorre no mês em que Angola completa 50 anos, um jubileu de ouro, há sensivelmente 21 meses do próximo período eleitoral, devendo implicar responsabilidade acrescida dos participantes neste Magno Evento, nas discussões a fazer sobre a vida do Partido e do país. Que as Resoluções resultantes dos debates das Comissões deste Congresso deste XIV Congresso Ordinário, reafirmem a UNITA como protagonista reconhecida na transformação deste país numa Nação, Pátria Mãe de todos os seus filhos, para a condução de um país reconciliado, estável e desenvolvido.

Este Congresso não pertence apenas aos que aqui estão.

Pertence aos jovens que procuram oportunidades, às mulheres que erguem famílias e comunidades, aos trabalhadores que acreditam no futuro e aos angolanos que desejam um país onde o poder sirva o povo.

Caros Presentes! Com este espírito declaramos abertos os trabalhos do XIV Congresso Ordinário da UNITA.

Que este seja um Congresso de profundidade política, de debate livre, de decisões sábias e de visão de futuro.

Viva Angola!

Viva a UNITA!

Viva o Presidente Fundador Dr. Jonas Malheiro Savimbi!

Unidos, venceremos!

Bem haja o XIV Congresso Ordinário da UNITA!

Deus abençoe a UNITA!

E que Deus abençoe Angola e os angolanos!

LUANDA, 28 de Novembro de 2025

Adalberto Costa Júnior

Presidente da UNITA