Luanda - Pelos vistos, chegou finalmente o momento em que algumas pessoas terão de aceitar uma notícia chocante: a UNITA já não tem dono. Sim, caro leitor, pode respirar fundo. O partido não foi herdado por primos, sobrinhos, genros, tios distantes ou por aquela figura misteriosa que sempre aparece quando convém. O XIV Congresso tratou de mostrar, com uma elegância quase ofensiva para quem ainda acredita em feudos políticos, que a UNITA é hoje uma instituição e não uma fazenda política de família.

Fonte: Club-k.net

A ciência política até agradece. Panebianco, se estivesse em Angola este fim-de-semana, provavelmente teria soltado um sorriso académico daqueles que dizem: “Eu avisei”. Ele sempre explicou que partidos fortes são aqueles que sobrevivem às suas personagens carismáticas. Mas há quem ainda sonhe com a ideia de partidos que se comportam como empresas privadas, onde a liderança passa de mão em mão como quem divide herança de sofá e televisão. Pacientes, sempre pacientes.

Talvez por isso seja sempre útil recordar Max Weber, que explicava que o carisma, quando não vira instituição, morre com o líder. Por esta lógica, Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos poderiam perfeitamente ter transformado os seus partidos em condomínios familiares. Mas, para desespero dos apaixonados pelo patrimonialismo político, não o fizeram. O MPLA não virou propriedade dos Santos, e a UNITA não foi escrita no testamento de Savimbi. Uma chatice para quem gosta de novelas, mas um alívio para quem aprecia democracia.

A analogia com empresas cotadas em bolsa cai aqui como uma luva: quando as acções vão para o mercado, o patrão deixa de ser “o dono”, passando a ser apenas mais um entre muitos accionistas. Mas ainda há quem queira aplicar ao sistema político angolano a lógica da cantina do bairro, onde o dono é o dono e pronto, sem discussão. O congresso da UNITA, porém, veio estragar essa narrativa folclórica. A organização abriu o “capital político” aos militantes e, surpresa, não ruiu.

Samuel Huntington falaria disto como um avanço civilizacional: instituições que funcionam porque têm regras e não porque têm um “chefe vitalício”. Mas claro, há sempre quem prefira acreditar que a democracia interna é apenas uma peça teatral. Sim, daquelas peças mal ensaiadas, com figurantes a dormir em palco. Azar: desta vez o guião foi levado a sério.

O recado que sai do XIV Congresso da UNITA é simples, directo e, para alguns, doloroso: o partido pertence aos seus militantes e não aos seus fantasmas emocionais. As lideranças passam, as instituições ficam, especialmente quando se recusam a ser tratadas como propriedade privada. Para desgosto dos coleccionadores de títulos de “dono de partido”, a UNITA, afinal, não está à venda, não foi herdada e não pode ser hipotecada.

É institucionalização democrática com aquela pitada de sarcasmo que só a história sabe cozinhar.