Luanda - A recente divulgação dos resultados do Instituto Nacional de Estatística (INE) referente ao Censo 2024 constitui um momento de inflexão para Angola. Com uma população estimada em 36,6 milhões de habitantes, o país ganha finalmente uma base de dados robusta, recente e confiável — instrumento essencial para orientar políticas públicas, planeamento estratégico e decisões de investimento. Trata-se do levantamento estatístico mais abrangente do país, realizado com métodos modernos e alinhado às normas das Nações Unidas, o que reforça a credibilidade e utilidade das informações que agora passam a servir de referência para os próximos anos.

Fonte: Club-k.net

O Censo 2024 introduziu, pela primeira vez na história do país, uma metodologia totalmente digital, recorrendo a dispositivos móveis (CAPI) durante o processo de recolha e complementado por entrevistas telefónicas (CATI) em ações de controle. A cobertura abrangeu a totalidade da população residente — nacionais e estrangeiros —, incluindo zonas urbanas, rurais e áreas de difícil acesso. Este processo foi antecedido por trabalhos de cartografia, operação piloto, recolha nacional e um inquérito pós-enumeracão para validação dos resultados, cumprindo rigorosamente os padrões internacionais de qualidade, transparência e precisão estatística.

O país passa, assim, a dispor de dados realistas e actualizados sobre a estrutura e distribuição da população. Comparando com o censo anterior, de 2014, que contabilizou cerca de 25,8 milhões de habitantes, verifica-se um crescimento superior a 10 milhões em apenas uma década — um sinal inequívoco da vitalidade demográfica nacional e dos desafios que acompanham esse aumento. A juventude da população continua a ser um traço marcante, o que implica necessidades acrescidas em educação, saúde, habitação, segurança alimentar, emprego e infraestrutura social. É com base nestes dados que o país poderá dimensionar escolas, hospitais, redes de água e saneamento, estradas, políticas habitacionais e programas sociais com maior rigor e eficiência.

Nas últimas semanas, surgiram nas redes sociais informações incorretas acerca dos custos do Censo, apontando valores na ordem dos 300 milhões de dólares. Importa esclarecer: o custo total do processo, segundo informação recente da Direção do INE, rondou 102 mil milhões de kwanzas, equivalente a aproximadamente 102 milhões de dólares, ou seja, um valor três vezes inferior ao que tem sido erroneamente divulgado. Mais do que isso, trata-se de um custo relativamente baixo considerando a dimensão territorial do país, o grau de dispersão populacional e o fato de ter sido um censo totalmente digital. Em muitos países africanos, processos semelhantes custaram significativamente mais, mesmo sem digitalização total. A eficiência financeira do Censo 2024 merece, portanto, ser destacada e não deturpada.

O investimento feito no Censo deve ser visto como um pilar para melhorar a governança pública. Sem dados confiáveis, qualquer política pública torna-se especulativa. Com dados reais, o país pode planificar com precisão. A partir deste Censo será possível modernizar o sistema de planeamento, actualizar mapas administrativos, reforçar a eficácia do Orçamento Geral do Estado, melhorar a distribuição de recursos entre províncias e municípios, atrair investimento privado com base em números sólidos e promover políticas sociais mais inclusivas e eficientes.

O Censo 2024 não é apenas uma conquista técnica; é um marco político, institucional e social. Porém, o sucesso desta operação estatística só produzirá impacto se os dados forem efectivamente utilizados. É fundamental que ministérios, administrações locais, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e parceiros internacionais integrem estes resultados nos seus processos de planeamento e tomada de decisão. O país dispõe agora de uma bússola fiável — mas cabe aos líderes e instituições usarem-na correctamente.

Angola tem pela frente grandes desafios e enormes oportunidades. A qualidade do Censo 2024 oferece ao país a possibilidade de transformar a forma como governa, planeia, investe e acompanha o desenvolvimento. O passo decisivo foi dado: contamos agora com a base de dados mais completa e moderna da nossa história. O desafio que se segue é transformar números em políticas, políticas em ações e ações em resultados concretos para melhorar a vida dos angolanos.

Este Censo não é apenas um exercício estatístico. É o fundamento sobre o qual se desenha o futuro de milhões de cidadãos. E é por isso que deve ser valorizado, defendido e utilizado com responsabilidade, rigor e visão estratégica.