Luanda - Os dados do Censo Geral 2024 confirmam aquilo que muitos já sentiam no nariz, perdão, sabiam por observação empírica: 25% da população angolana ainda defeca ao ar livre. Não é pouca gente. É praticamente um exército nacional de “fertilizadores ambulantes”, espalhados por valas, lixeiras e cantos abandonados como se fossem relíquias vivas da tradição rural.

Fonte: Club-k.net

E sejamos honestos: alguns habitus do kimbo não se largam com facilidade. No kimbo, defecar ao ar livre era quase uma experiência espiritual.


A pessoa agachava-se calmamente, contemplava a natureza, recebia a brisa matinal no rosto, inspirava o cheiro puro da terra, expirava outro tipo de perfume, enquanto os passarinhos ofereciam o seu concerto gratuito do amanhecer. Era uma espécie de retiro intestinal, acompanhado de uma vista panorâmica para o capim.

E claro, no kimbo tudo virava adubo.
No fim, ainda se dizia com orgulho:
“Pelo menos o meu contributo agrícola está dado.”

Mas a cidade, ah, a cidade não foi preparada para essa transferência cultural. Então o choque é grande, e o sarcasmo nasce sozinho:

Não há drenagens — aquelas mesmas estruturas que, num país normal, serviriam para o escoamento de águas pluviais, aqui não servem nem para a água, quanto mais para os excrementos comunitários.


Não existem latrinas públicas e, quando existem, têm a ousadia de estar fechadas com cadeado, como se guardassem barras de ouro.


As valas de drenagem já estão ocupadas não pelas águas, mas pelo lixo, pelos mosquitos e, claro, pelos “presentes biológicos” que aparecem de madrugada.


Urbanização sem urbanidade construímos casas sem casas de banho, bairros sem saneamento e ruas  que entram em greve sempre que chove.


A famosa técnica do “vai ali atrás daquela parede” agora praticada em pleno ambiente urbano, como se fosse uma nova modalidade do desporto nacional.


Mas o Censo ainda teve a coragem de informar que apenas 42% das famílias possuem casas de banho. Ou seja, o país é jovem, o povo é forte, mas a retrete continua a ser um luxo.

No fundo, o que vemos é isto: O kimbo veio para a cidade, mas a cidade não fez questão nenhuma de se preparar para receber o kimbo.

E então continuamos no paradoxo: Temos arranha-céus em Luanda, mas falta resolver o arranha…
Bem, deixa ficar.

Saneamento básico não devia ser notícia.
Mas, em Angola, até aquilo que devia estar debaixo da terra, acaba sempre à vista de todos.