Luanda - Jimmy Cliff acaba de se ir. E com ele esvai-se muito mais do que um gigante do reggae, encerra-se um capítulo inteiro da memória colectiva negra. Para compreender o seu legado, é preciso regressar ao início, ao lugar onde tudo germinou: uma Jamaica pobre e rural, onde um menino chamado James Chambers descobre que a música pode ser prece, refúgio e luta. Eis o primeiro acto de uma homenagem em dois tempos: a vida, o nascimento do mito, a formação de um homem que transformou a dor em dignidade.
Fonte: Club-k.net
Infância modesta e primeiros passos esquecidos
Jimmy Cliff, de seu nome verdadeiro James Chambers, nasceu a 30 de Julho de 1944 numa aldeia rural da Jamaica, então ainda sob dominação britânica. Filho de uma família humilde de sete filhos, foi criado pelo pai e pela avó, entre colinas quentes, terra batida e uma esperança teimosa. Ainda adolescente, é enviado para Kingston, não apenas para estudar, mas para se aproximar do sonho que o inquietava: a música. Precocíssimo, escreve canções ainda em idade escolar, misturando cânticos de igreja com os sons de ska e de soul que apanhava na rádio. Aos 18 anos grava o seu primeiro sucesso local, Hurricane Hattie (1962), convencendo para tal um vendedor de gelados sino- jamaicano a tornar-se produtor. E é o próprio Cliff quem apresenta ao novo produtor um rapaz que ouvira cantar na rua: Bob Marley. Poucos o sabem, mas Marley deve parte do seu primeiro registo discográfico à generosidade de um Jimmy Cliff ainda adolescente.
A meio da década de 1960, Cliff parte à procura de oportunidades em Londres e Nova Iorque, sem sucesso imediato. Mas em 1968 o Brasil abre-lhe as portas ao mundo: Waterfall vence um festival internacional e faz do reggae um fenómeno no universo lusófono. Pouco depois, o seu veemente libelo anti-guerra, Vietnam (1970), toca profundamente um vasto público opositor à guerra americana, Bob Dylan viria a considerar mais tarde essa música como “a melhor canção de protesto jamais escrita”. Em 1972, Jimmy Cliff alcança a consagração ao interpretar o protagonista do filme The Harder They Come, cuja banda sonora, incluindo quatro canções suas, dá a conhecer o reggae ao mundo inteiro. Esse papel de jovem jamaicano revoltado, disposto a tudo para gravar a sua música, reflecte a sua própria trajectória e transforma Cliff em símbolo cultural de resistência para toda uma geração.
Militantismo e mensagens políticas
Por trás das melodias vibrantes, Jimmy Cliff sempre transportou uma mensagem social e política de grande força. Desde cedo, utilizou a música como arma de consciência para denunciar injustiças sistémicas. Temas como Vietnam atacam frontalmente o imperialismo guerreiro, enquanto You Can Get It If You Really Want (1970) oferece aos oprimidos um hino de esperança e perseverança. Cliff não hesita em denunciar desigualdades, em Remake The World, lamenta que “alguns possuam tudo, enquanto demasiados nada têm”, palavras que lhe valem a censura do regime do apartheid na África do Sul, onde a canção é proibida na rádio nacional SABC em 1977. Nada disso o intimida. Em 1980, Jimmy Cliff desloca-se pessoalmente à África do Sul segregada para cantar justiça. Envergando uniforme militar, uma alusão directa ao Exército Popular de Libertação da Namíbia (PLAN), então em luta contra Pretória, actua em Soweto perante vinte mil pessoas, reafirmando o seu apoio à maioria negra com temas como Majority Rule (“A maioria governa”) no álbum seguinte. “O reggae é a vida; e a luta faz parte da vida”, afirmava, plenamente consciente do poder subversivo dessa música nascida no gueto.
Ferrenho defensor da dignidade negra e da emancipação, Cliff exprime também um olhar crítico sobre as independências pós-coloniais. Em 2022, ao ser questionado sobre os 60 anos de independência da Jamaica, responde sem rodeios que independência política não tem valor se não vier acompanhada de verdadeira independência mental e económica. “Quando uma ilha como a Jamaica afirma ser independente, isso não é real se o antigo colonizador continua a imprimir a nossa moeda... Se não puderem pensar por vós próprios, não poderão agir livremente”, explica, apontando os vestígios persistentes do neocolonialismo. Durante uma visita ao Ghana, exorta igualmente os africanos a preservarem a sua cultura da hegemonia ocidental e a permanecerem fiéis às suas raízes. Ao longo de toda a vida, Jimmy Cliff soube unir festa e consciência, fazendo do reggae uma música simultaneamente de dança e de luta, um canto de resistência, de esperança e de unidade para os povos oprimidos.
Viagens iniciáticas em África e busca espiritual
A história de amor entre Jimmy Cliff e África começa com uma viagem tão triunfal quanto inesperada. No final de 1974, torna-se o primeiro músico de reggae jamaicano a pisar o solo africano numa digressão pela Nigéria. Ao chegar a Lagos, fica maravilhado ao ser recebido por uma multidão em êxtase, uma recepção digna de chefe de Estado, reunida para saudar o autor de Many Rivers to Cross. Entre os espectadores do concerto no estádio de Surulere encontra-se a estrela local, Fela Kuti, pai do afrobeat, que convida Jimmy Cliff a celebrar esse encontro histórico na República Kalakuta, o seu santuário. Mas a euforia rapidamente se desfaz: rivalidades entre promotores conduzem a contendas contratuais que resultam na detenção súbita de Jimmy Cliff por ordem de um tribunal de Lagos. O cantor passa três noites preso antes de ser libertado. Em vez de cultivar amargura, transforma o episódio em arte: compõe The News, onde narra o incidente, e guarda uma lembrança profunda dessa primeira viagem à terra dos seus antepassados. “Nunca isso alterou a imagem do continente que ele apresentava como a terra dos seus antepassados”, observa- se a seu respeito. África permanece para ele pátria sonhada, mãe simbólica reencontrada.
A partir desse momento, Jimmy Cliff multiplica as digressões africanas, tecendo com o continente laços profundos e duradouros. Em 1977, depois de integrar no grupo a corista sul-africana Aura Lewis, percorre a África Ocidental (Senegal, Gâmbia, Serra Leoa...) em busca de novos públicos. No terreno, integra músicos locais: o maliano Cheick Tidiane Seck recorda que, então, Jimmy Cliff se apresentava sob o nome Naïm Bachir. De facto, o jamaicano iniciara nessa época um percurso espiritual singular. Criado na fé cristã, impregnado pela filosofia rastafariana na juventude, acaba por converter-se ao Islão durante uma estadia no Senegal, vendo aí uma etapa importante da sua busca identitária. A sua itinerância espiritual não se detém aí: explorará ao longo da vida diversas tradições religiosas, procurando, em cada paragem, um traço de sabedoria, jamais prisão dogmática. Anos mais tarde, realizará a peregrinação a Meca, conquistando o título honorífico de El Hadj e confirmando o nome muçulmano Naïm Bachir.
Esta espiritualidade aberta reflecte-se profundamente na sua arte. Apesar de se ter afastado da ortodoxia rastafari, Jimmy Cliff conservou a sua essência humanista: pregava paz, unidade e amor ao próximo. “A espiritualidade foi sempre o fulcro da sua obra”, recorda uma homenagem africana, fosse ao invocar Jah (Deus) à maneira rasta, fosse ao celebrar os antepassados africanos ou ao entoar refrãos tingidos de gospel. Um testemunho angolano sublinha que, embora não fosse rastafariano por religião, Cliff, como muçulmano, revelava um profundo humanismo que transparecia na sua arte, a sua empatia erguendo-se acima de todas as fronteiras de fé. Ao longo das suas viagens, íntimas e mundanas, o artista parece ter construído uma síntese espiritual própria, guiado por uma busca simples e radical: “Procurar saber quem sou, e ser quem sou”, eis a lição que dizia ter aprendido.
Ricardo Vita
Headhunter e observador pan-africanista













