Luanda - Quando o Império chama a fé de crime. Em 1921, o poder colonial belga decidiu pôr fim ao que não conseguia compreender. O que começara como um movimento espiritual, uma palavra dita em kikongo, dirigida aos humilhados, aos doentes, aos esquecidos, transformara-se, aos olhos da administração, numa ameaça intolerável. O julgamento de Simon Kimbangu não foi apenas um processo judicial. Foi um acto de nomeação do inimigo. Um momento em que a fé negra, autónoma, não supervisionada, foi reclassificada como subversão, fanatismo, rebelião latente. O que se lê abaixo não é um comentário. É o texto cru do interrogatório, tal como o poder o formulou, e como o profeta lhe respondeu.
Fonte: Club-k.net
O julgamento de Simon Kimbangu: Thysville (actual Mbanza-Ngungu), presidido pelo Comandante De Rossi
De Rossi — Kimbangu, reconhece ter organizado uma revolta contra o governo colonial e ter qualificado os brancos, seus benfeitores, de inimigos abomináveis?
Kimbangu — Não organizei qualquer revolta, nem contra os brancos, nem contra o governo colonial belga. Limitei-me a pregar o Evangelho de Jesus Cristo.
De Rossi — Porque é que incitou a população a abandonar o trabalho e a deixar de pagar impostos?
Kimbangu — Isso é falso. As pessoas que se dirigiram a Nkamba fizeram-no por sua livre vontade. Iam para ouvir a palavra de Deus, procurar cura ou receber uma bênção. Nunca pedi a ninguém que deixasse de pagar impostos.
De Rossi — Afirma ser o mvulizi (salvador)?
Kimbangu — Não. O Salvador é Jesus Cristo. Eu recebi d’Ele a missão de anunciar aos meus a
mensagem da salvação eterna.
De Rossi — Já ressuscitou mortos?
Kimbangu — Sim.
De Rossi — De que forma?
Kimbangu — Pelo poder divino que Jesus Cristo me concedeu.
De Rossi — Durante os incidentes de 6 de Junho, em Nkamba, a multidão que fanatizou feriu dois soldados. Porque é que fugiu?
Kimbangu — Os soldados do administrador Morel maltrataram-me brutalmente, o que enfureceu os que estavam comigo. Esses mesmos soldados abriram fogo e saquearam a aldeia. Não sei quem feriu os dois soldados, dada a confusão criada. Fugi porque devia fazê-lo, pois tinha de concluir a minha missão, conforme a ordem de Cristo.
De Rossi — Nega ter incitado a população à revolta, mas os cânticos datilografados entoados pelos seus seguidores, cujas cópias foram apreendidas em Nkamba, convidam à tomada de armas. Que tem a dizer?
Kimbangu — Nenhum cântico incita à revolta contra o governo. Também na Igreja Católica existem hinos onde os cristãos são chamados “Soldados de Cristo”, e até hoje o governo não prendeu os brancos que os ensinam.
De Rossi — Onde se escondeu entre 6 de Junho de 1921 e o dia da sua detenção?
Kimbangu — Continuei a realizar a obra de Deus em várias aldeias.
De Rossi — Sabia que as autoridades o procuravam activamente. Porque é que não se entregou?
Kimbangu — Devia continuar a obra de Jesus Cristo em diversos lugares. Entreguei-me voluntariamente ao militar branco Snoeck quando chegou o momento.
De Rossi — Tem consciência do risco de epidemia que fez correr à população ao trazer cadáveres para Nkamba?
Kimbangu — Nenhuma epidemia foi registada. Restituí a vida a muitos mortos pelo poder de Jesus Cristo. Nunca pedi à população que me trouxesse cadáveres, mas também não podia impedir aqueles que vinham até mim, onde quer que eu estivesse.
De Rossi — As deserções em massa e as incitações à greve não foram uma estratégia para perturbar a ordem pública e derrubar o governo?
Kimbangu — Nunca ordenei o abandono do trabalho, nem incitei a qualquer greve.
De Rossi — Ouvimo-lo afirmar que “os brancos se tornarão negros e os negros se tornarão
brancos”. Não é essa a prova da sua intenção de expulsar todos os brancos da colónia? Kimbangu — Essa frase não deve ser entendida literalmente.
De Rossi — Qual é então o seu significado?
Kimbangu — Deus revelará o seu sentido no tempo justo e determinado.
De Rossi — Durante a sua permanência nas fábricas de óleo de Kinshasa, onde trabalhou, esteve em contacto, segundo informações de que disponho, com grupos subversivos negros norte- americanos, nomeadamente com Garvey. Que responde?
Kimbangu — É falso.
De Rossi — Sabemos que mandou recolher grandes quantias de dinheiro. Para que serviriam esses fundos, senão para a compra de armas destinadas a derrubar o governo e expulsar os brancos do país?
Kimbangu — Nunca mandei recolher dinheiro. Nunca aceitei pagamento daqueles que curei ou ressuscitei. Alguns fundos foram recolhidos voluntariamente por certas pessoas para suprir as necessidades da multidão que se reunia diariamente em Nkamba, sobretudo para lhes dar alimento. O ensinamento de Cristo condena a violência. Eu não sou favorável ao seu uso.
O que este julgamento revela
Este processo não procurava a verdade. Procurava uma tradução administrativa do medo. Tudo é revelador: a obsessão com o trabalho e os impostos, a confusão deliberada entre fé e conspiração, a incapacidade de conceber um messianismo negro que não seja político, a transformação de uma palavra espiritual numa ameaça militar. Kimbangu nunca se defende como insurgente. Defende-se como mensageiro. O tribunal não o escuta. Classifica-o. E ao fazê-lo, inaugura uma longa tradição colonial: a de julgar a alma quando não se consegue dominar o corpo.
Ricardo Vita
Headhunter e observador pan-africanista













