Luanda - Hoje não vos endereço um discurso macio, nem vos ofereço o conforto da linguagem diplomática. Falo-vos com a dureza que a realidade impõe, com a raiva lúcida de quem se recusa a aceitar que um país tão rico continue a ser palco da humilhação do seu próprio povo. Há verdades que já não podem ser envernizadas: Angola está a ser saqueada há décadas, e quem paga a conta desse saque são sempre os mesmos — os pobres, os esquecidos, os silenciosos.
Fonte: Club-k.net
Vivemos num território abençoado por recursos naturais que muitos países invejariam: petróleo, diamantes, terras férteis, rios imponentes, uma costa privilegiada, uma juventude vibrante. E, apesar disso, milhares de famílias vivem em casas sem saneamento, sem água potável, sem luz regular, sem um posto médico funcional, sem uma escola decente onde os filhos possam aprender sem medo de que o teto lhes caia em cima. Isto não é apenas uma falha de gestão; é um crime moral e histórico. Não é azar, não é destino, não é maldição: é corrupção organizada, é ganância sem limites, é um Estado capturado por uma minoria que trata o país como propriedade privada.
Se eu fosse Presidente de Angola, não teria qualquer interesse em ser um símbolo decorativo, nem guarda-costas de interesses instalados. Eu viria para quebrar o pacto de silêncio que protege os ladrões do povo. A minha primeira declaração seria uma afronta direta a todos os que vivem do roubo institucionalizado: acabou o tempo da impunidade. Não mais se esconderia por trás de discursos de estabilidade aquilo que, na prática, é roubo à luz do dia. Cada hospital vazio de medicamentos, cada escola em ruínas, cada estrada anunciada e nunca concluída, cada projeto público que existe apenas no papel, todos eles têm autores concretos. Não surgiram do nada: têm assinatura, têm despacho, têm beneficiários.
Esses beneficiários ostentam carros de luxo, palácios murados, contas no estrangeiro, viagens em primeira classe, tudo pago com o suor de quem ganha uma miséria e ainda assim paga impostos até no pão que compra. Se eu fosse Presidente, esses nomes deixariam de ser sussurrados nos corredores para serem expostos à luz do escrutínio público. Auditorias profundas não seriam ameaça, seriam rotina. Cada kwanza gasto em nome do Estado teria de ser justificado. E aqueles que foram enriquecendo com o dinheiro do povo teriam de enfrentar a justiça. Não me interessaria se são antigos combatentes, generais, ministros, empresários influentes ou parentes de figuras históricas. Quem roubou à nação, roubou à criança que morre sem atendimento, ao jovem que não encontra trabalho, à mãe que implora por um medicamento. E quem faz isso deve ser tratado como aquilo que é: ladrão.
Povo de Angola, não vos deixem convencer de que sois fracos. Fracos são os que precisam de vos manter na ignorância e no medo para continuarem a mandar. Um povo que enfrentou a colonização, a guerra, a fome, que ainda assim insiste em sobreviver, não é um povo frágil; é um povo poderoso que foi traído por uma elite cínica. Essa elite apropriou-se da linguagem da libertação para instaurar uma nova forma de dominação. Eles falam em nome do povo, mas vivem contra o povo. Usam a bandeira para encobrir crimes. Transformaram a memória da luta num álibi permanente para justificar o presente de desigualdade e abuso.
Dividiram-vos, com método e frieza. Fizeram-vos desconfiar uns dos outros — norte contra sul, campo contra cidade, uma etnia contra outra, um partido contra outro — para que nunca percebessem que o verdadeiro conflito não é entre o povo, mas entre o povo e os que o exploram. Plantaram o medo dizendo que sem eles Angola voltaria ao caos. O que eles não querem que entendam é que a origem do vosso sofrimento não é a falta deles, é o excesso de poder deles.
Se eu fosse Presidente, não vos pediria calma; exigiria levantamento de dignidade. Não vos pediria disciplina cega; pediria consciência crítica. Não vos pediria para acreditarem em mim; pediria que passassem a acreditar em vós próprios e no vosso direito de exigir contas a quem governa. Um povo que não questiona é um povo condenado a ser usado.
Falo agora aos jovens. Vós sois tratados como peças descartáveis num jogo que nunca vos favorece. Dizem-vos que sois “o futuro” enquanto vos roubam o presente. Mandam-vos estudar, mas não criam emprego. Exigem-vos experiência, mas recusam-vos a primeira oportunidade. E quando finalmente aparece um concurso público, já tem dono; quando surge um projeto, é rapidamente capturado pelos “filhos de”, “sobrinhos de”, “amigos de”, “companheiros de”. A mensagem que vos passam é clara: não basta ser competente, é preciso pertencer ao círculo certo.
Se eu fosse Presidente, eu não fingiria que isso é erro pontual; reconheceria como sistema. E sistema combate-se destruindo o seu fundamento. Eu rasgaria o véu da hipocrisia e colocaria transparência radical nos processos de recrutamento, concursos, bolsas, contratos. Não vos diria para terem esperança, dar-vos-ia instrumentos: educação séria, formação técnica de qualidade, acesso a crédito sem compadrio, espaços reais de decisão política. A juventude não pode continuar a ser mero adereço em campanhas, aplaudindo discursos que não a incluem. A juventude tem de ser motor do rumo deste país ou este país não terá rumo.
Às mulheres de Angola, não vos venho dirigir elogios vazios nem frases prontas. Cansei-me, como vós, de ouvir “a mulher é o pilar da família” dito por quem nada faz para vos proteger e valorizar. Todos conhecem a verdade: são as mulheres que carregam este país nos ombros. Trabalham dentro e fora de casa, frequentemente em silêncio, invisíveis nas estatísticas, esquecidas nas decisões. Sofrem violência doméstica banalizada, enfrentam desrespeito em instituições públicas, recebem menos pelo mesmo trabalho, são afastadas de cargos de liderança ou usadas apenas para cumprir quotas simbólicas.
Se eu fosse Presidente, declarar-me-ia inimigo frontal de qualquer sistema que continue a tratar a mulher como cidadão de segunda categoria. Um Estado que fecha os olhos à violência contra a mulher é cúmplice de crime. Um governo que não garante igualdade de acesso a oportunidades económicas, políticas e educacionais é agente ativo de injustiça. E justiça que exclui metade da população é farsa. A mulher angolana não precisa de caridade; precisa de igualdade, respeito e poder real de decisão.
Quanto aos políticos e dirigentes que tratam o povo como massa de manobra manipulável, a minha mensagem seria cortante: a era da arrogância tem de acabar. Transformaram cargos públicos em plataformas de enriquecimento, ministerial em título de nobreza, partido em escudo para barbaridades, e o Estado em meio para satisfazer ambições pessoais. Afastaram-se tanto da realidade do povo que já não sabem quanto custa um quilo de arroz, quanto vale um salário mínimo, o que significa escolher entre comer ou comprar remédio.
Se eu fosse Presidente, exporia o ridículo moral de um sistema em que governantes circulam em cortejos de carros de luxo sobre estradas esburacadas, passam por bairros sem água potável rumo a banquetes, falam de progresso diante de hospitais onde pacientes morrem por falta de um simples medicamento. O Estado deixaria de ser garantia de conforto para alguns e voltaria a ser, na marra, instrumento de serviço para todos. Cortaria privilégios obscenos, extinguiria mordomias, condicionaria qualquer benefício a resultados concretos. E deixaria claro que a lealdade de um servidor público deve ser à Constituição e ao povo, nunca a figuras individuais.
Também teria de enfrentar, sem hesitação, a cultura do medo que paira sobre o país como nevoeiro espesso. Onde há medo de falar, há abuso. Onde há receio de criticar, há tirania disfarçada. A cada jornalista intimidado, a cada ativista silenciado, a cada cidadão ameaçado por expressar opinião, morre um pouco da alma da nação. Um governo que teme a verdade é um governo que sabe que está errado. Se eu fosse Presidente, deixaria claro às forças de segurança que são guardiãs da lei, não capangas de poderosos. O uniforme do polícia e a farda do militar não podem ser símbolos de terror, mas emblemas de proteção.
Na economia, a situação é igualmente vergonhosa. Angola, com tanta riqueza, ajoelha-se diante das oscilações do preço do petróleo como vassalo perante senhor feudal. Quando o barril está alto, há festa nas altas esferas; quando o barril cai, o povo é sacrificado em nome da “crise”. Esta dependência não é inevitável, é mantida. É conveniente para quem lucra com importações escandalosas, com contratos inflacionados, com a eterna desculpa de “temos de apertar o cinto” — cinto esse que nunca aperta a cintura dos privilegiados, apenas a dos que já mal respiram.
Se eu fosse Presidente, a agricultura deixaria de ser slogan e passaria a ser estratégia central. O interior do país deixaria de ser terra de ninguém, lembrado apenas em campanhas eleitorais, e tornar-se-ia motor económico real. O camponês que hoje luta sozinho contra a seca, a falta de vias, a ausência de crédito, seria reconhecido como peça-chave da soberania alimentar. Os pequenos e médios negócios do país deixariam de ser sufocados por burocratas gananciosos. O Estado teria de escolher: ou continua a ser o principal obstáculo ao desenvolvimento, ou se converte, à força da lei e da pressão popular, num verdadeiro aliado produtivo.
Mas há uma verdade que não posso mascarar: nem mesmo um Presidente decidido, honesto e implacável será suficiente se o povo continuar a vender o seu poder em troca de migalhas. Enquanto houver quem troque voto por saco de arroz, quem aplauda quem o humilha, quem normalize o “jeitinho” para resolver tudo, o sistema continuará a reciclar-se. Mudam-se rostos, preserva-se a lógica. O combate à corrupção não é espetáculo para satisfazer redes sociais; é mudança cultural profunda, e essa só acontece quando o cidadão comum decide que já não aceita compactuar.
Por isso, se eu fosse Presidente, em vez de vos pedir fé cega em mim, pedir-vos-ia que deixassem de acreditar em salvadores individuais. Não há salvador. Há povo que se levanta ou povo que se ajoelha. Há cidadão que aceita ser massa ou que assume ser protagonista. Há funcionário público que diz “é assim mesmo” e continua a roubar, ou que diz “chega” e recusa participar. Há professor que reproduz mentira ou que forma consciência. Há polícia que extorque e agride, ou que protege e resiste a ordens injustas. A mudança não cairá do céu; nascerá do confronto direto entre a coragem e a covardia — a vossa e a dos que vos governam.
Povo de Angola, chegaremos a um ponto em que a história vos perguntará: no tempo da maior injustiça, o que fizeram? Fecharam os olhos? Viraram a cara? Riram-se nervosamente e disseram “é assim mesmo”? Ou tiveram a ousadia de erguer a voz, romper o silêncio, enfrentar a máquina, ainda que vos chamassem loucos, ingratos, subversivos? O que respondereis aos vossos filhos quando eles vos perguntarem porque aceitaram viver de joelhos num país com riqueza suficiente para viver de pé?
Se eu fosse Presidente, preferiria ser derrubado por enfrentar interesses obscuros do que manter-me confortável traindo a missão de servir. Preferiria ser odiado por corruptos e medíocres do que ser lembrado como mais um na longa fila dos que viram o sofrimento do povo e decidiram acomodar-se. Não aceitaria governar à custa da dignidade de quem nada tem. Poder sem honra não é poder, é podridão.
Angola não nasceu para ser vitrine de desperdício e vergonha. Não somos um caso perdido, somos um caso sabotado. E toda sabotagem pode ser desmontada. A pergunta é: há coragem suficiente? Há raiva suficiente? Há amor pelo país suficiente para enfrentar, sem rodeios, os que o vendem em pedaços?
O verdadeiro dono desta terra não são as famílias que se julgam eternas, não são os partidos que se confundem com o Estado, não são os grupos económicos que se alimentam da fraqueza das instituições. O verdadeiro dono desta terra sois vós — o cidadão que acorda cedo, a mãe que luta pelos filhos, o jovem que ainda sonha apesar de tudo, o trabalhador que sobrevive com quase nada, o camponês que continua a semear esperança em solo duro.
Enquanto uma criança dormir com fome ao lado de um palácio iluminado, Angola estará ferida. Enquanto um corrupto se rir da justiça, Angola estará humilhada. Enquanto quem diz a verdade for perseguido e quem mente for promovido, Angola estará traída. Isso não é apenas inaceitável — é insuportável.
Se eu fosse Presidente, o meu lado estaria escolhido desde o primeiro dia: o lado do povo contra os que o exploram; o lado da verdade contra a máquina da mentira; o lado da justiça contra a banalização da injustiça. Se, para manter o poder, fosse necessário trair estes princípios, eu preferiria perdê-lo. Porque o único fracasso imperdoável é ter tido a oportunidade de mudar e ter escolhido não o fazer.
A hora de romper não é amanhã; é agora. E o instrumento da rutura não é um homem, é um povo disposto a dizer: basta.
Longa vida a uma Angola que se levanta.
Longa vida a um povo que, finalmente, se reconhece como dono do seu destino.













