Luanda - Quando se afirma que “João Lourenço deve sair sem perseguições”, percebe-se que, em Angola, a maior preocupação das elites não é a continuidade das políticas públicas nem o futuro colectivo, mas sim a garantia de uma transição confortável entre pares. A alternância política, afinal, não parece ser um acto de responsabilização democrática, mas um acordo de cavalheiros dentro da nobreza do poder.
Fonte: Club-k.net
A antiga deputada e empresária, Tchizé dos Santos, hoje voz moral da paz palaciana, surge a defender que “a perseguição não deve fazer parte da tradição política angolana”. E tem razão: a tradição nunca foi perseguir os de dentro, mas proteger o círculo. A justiça, recorda-nos, “não pode ser usada como instrumento de vingança política”, sobretudo quando pode perturbar o sossego de quem sempre habitou os corredores do privilégio.
O mais revelador é que este apelo surge num momento de debate sobre a sucessão presidencial, como quem lembra à corte que a saída do trono deve ser silenciosa, higiénica e sem ruídos incómodos. Não se fala de escolas, hospitais, emprego ou esperança; fala-se apenas de como sair bem, sair inteiro e sair impune.
No fim, fica claro que estamos longe de um verdadeiro projecto de Estado onde os cidadãos se sintam realizados no seu próprio país. O que se desenha é apenas mais um episódio do eterno desfilar do establishment: uns entram, outros saem, todos se cumprimentam, enquanto o povo continua fora do palácio, a assistir à alternância da nobreza como quem assiste a um espectáculo ao qual nunca foi convidado.













