Luanda - Os anais da história da humanidade revelam-nos que a geopolítica sempre existiu em menor ou em grande escala, dependendo dos equilíbrios entre as potências existentes num certo espaço geográfico. A correlação de forças entre as potências constitui um factor decisivo para a configuração da geopolítica, em menor ou em grande escala.

Fonte: Club-k.net

Pois que, os interesses geopolíticos são defendidos ou salvaguardados através dos equilíbrios sustentáveis entre as potências interessadas. A alteração significativa do equilíbrio resulta na supremacia de uma potência que vai exercer a sua superioridade e colocar-se na posição cimeira e vantajosa para impor a sua vontade política sobre as outras potências. O Equilíbrio assenta num conjunto de factores, de entre os quais: humanos, culturais, territoriais, económicos, tecnológicos, militares e know-how.


A supremacia é o fenómeno complexo que não se manifesta apenas através dos factores acima referidos, mas sim, na capacidade transformadora do Homem em todos os domínios, nomeadamente: na conceição, organização, estruturação, inovação, modernização, transformação, realização e adaptação. Por isso, a superioridade ou a supremacia tem um carácter relativo, transitório e alterável, dependendo da conjuntura global.


No mundo contemporâneo da alta tecnologia, isto é, da existência do arsenal nuclear, torna-se impossível existir a «superioridade absoluta», que permita exercer a hegemonia e o monopólio, impondo unilateralmente a sua vontade sobre as outras potências nucleares e ditar-lhes as regras de jogo. Neste momento, em termos económicos, tecnológicos e militares, o EUA supera a Rússia e a China. Nesta arena, Washington detém a supremacia sobre as Potências Asiáticas acima referidas.


Apesar disso, a potência nuclear não se manifesta na «ordem numérica» dos misseis nucleares ou de bombas atómicas em posse de uma potência. Mas sim, no potencial destrutivo em grande escala, causando uma catástrofe sobre a humanidade. Aliás, as armas nucleares e bombas atómicas têm o carácter suicídio, catastrófico e apocalíptico, que causa o extermínio humano. A título de exemplo, uma Coreia do Norte, um pequeno território peninsular, com seus Misseis Balísticos Nucleares pode devastar os EUA.


Não obstante o facto de que, o EUA detém a superioridade nuclear esmagadora, tendo a capacidade nuclear e atómica de aniquilar a Coreia do Norte numa fração de segundos. Repare que, a Coreia do Norte é um pedacinho colado à China. Isso significa que, um ataque nuclear contra a Coreia do Norte afecta igualmente a China. Ora bem, o meu raciocínio reside no facto de que, as Potências Nucleares estão conscientes da gravidade que pode resultar-se do desdobramento de Armas Nucleares num Teatro de Guerra. Só que, o ser humano é obsceno e cruel.


No meu Artigo de 26/11/2025, publicado do Club. K. Net, intitulado: «A Cimeira Afro-Europeia no Contexto do Multilateralismo», eu afirmava que, a «postura unilateralista» das superpotências mundiais tem como a base estratégica a reconfiguração do mundo em quatro esferas de influências: (a) Américas e Caribes – sob o domínio de Washington; (b) Rússia e Europa – sob tutela de Moscovo; (c) Indochina – sob controlo da China; (d) Médio Oriente e África – Zonas de disputas.

Numa outra publicação de 29/12/2025, intitulado: «África no Cruzamento da Geopolítica Mundial», eu sustentava que, o Continente Africano é banhado pelos Oceanos Índico e Atlântico. A Asia e o Médio Oriente tiram maior proveito dos portos marítimos do Oceano Índico. Ao passo que, os portos marítimos ao longo do Oceano Atlântico dão maior vantagem à Europa e aos Continentes Americanos.


Em termos reais, o mundo já está dividido em zonas de influências geoestratégicas das superpotências mundiais. Dentro dessas esferas geopolíticas existem interesses estratégicos de outras potências que devem serem definidos e negociados entre as partes, respeitando restritamente a soberania e a integridade territorial de cada esfera de influência.


Noutras palavras, cada uma das três superpotências tem o seu espaço de «jurisdição territorial» que não deve ser violado pelas outras superpotências. A guerra da Ucrânia e a operação relâmpago da Venezuela, que resultou na captura do Nicolás Maduro e da sua esposa Cília Flores, enquadram-se nesta Nova Ordem Mundial que está sendo forjada discretamente pelas Superpotências. A Ilha do Taiwan faz parte deste tabuleiro geopolítico. A Coreia do Sul, o Japão e a Austrália pertencem a esfera geopolítica da China. Mas esses países estratégicos são aliados de Washington e ocupam uma posição geopolítica muito importante no Oceano Pacífico.


No caso específico da África, o Golfo da Guiné, na costa atlântica, cai na esfera de influência dos Estados Unidos da América. A costa marítima do Oceano Índico está virada ao Continente Asiático. Os recursos minerais do interior da África estão na condição de partilha entre as potências industrializadas. Este é o contexto actual da geopolítica africana.


No fundo a Nova Ordem Mundial, que está em forja, vai encontrar o seu enquadramento jurídico no Direito Internacional. O tal enquadramento legal será determinado e imposto pelas superpotências mundiais que têm assentos permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Portanto, a Reforma exigida das Nações Unidas, no formato das propostas da União Africana e do Mercosul, não vai acontecer agora.


Por outro lado, o processo da reconfiguração da Nova Ordem Mundial não será de imediato, levará o seu tempo, e conhecerá os caminhos sinuosos, complexos e delicados. Lembremo-nos da crise dos Misseis Nucleares Soviéticos em Cuba, em outubro de 1962, que tinham como objectivo geoestratégico «estabelecer o equilíbrio nuclear» entre a Rússia e os EUA. Já que, na altura, os EUA tinha instalado Misseis Nucleares na Turquia, que fica próxima da Uniao Soviética.


Todavia, nas negociações secretas entre as duas partes o EUA procedeu discretamente retirar as suas Armas Nucleares da Turquia e da Itália. Estas démarches diplomáticas conduziram a vários Acordos Bilaterais, tais como: a ligação da linha telefónica (telefone vermelho) segura entre a Casa Branca e o Kremlin; o Controlo das Armas Nucleares; o Tratado de Não Proliferação Nuclear; o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, etc.


Portanto, a Operação de “Blitzkrieg” na Venezuela, com a captura do Nicolás Maduro e da sua esposa Cília Flores, vai mexer com o tabuleiro geopolítico mundial. A geopolítica da América Latina e das Caraíbas vai conhecer alterações profundas na «constelação» de Alianças Políticas, na Estrutura Económica, no Comércio Internacional e nas Parcerias Estratégicas.

Gostaria de advertir ao facto de que, este panorama refletido neste artigo não representa o meu posicionamento político sobre a Geopolítica Mundial. Mas sim, é uma leitura objetiva e realista daquilo que está a acontecer agora entre as superpotências mundiais. Pois, o Direito Internacional já não tem força substancial e nem existem mecanismos eficazes para se fazer valer na prática.


Por exemplo, o Conselho de Segurança das Naçoes Unidas, o «Órgão Decisório», que aprova as «Resoluções Vinculativas», é dominado por Cinco Membros Permanentes que detém o Poder de Veto, que dominam o Mundo, e que pretende «dividir o mundo» em três esferas de influências.
Portanto, sem o «voto consensual e favorável» dos Cinco Membros Permanentes do CSNU nada pode passar e ninguém entre eles os cinco pode ser condenado ou castigado. As Deliberações da Assembleia Geral das Naçoes Unidas não têm a força de Lei e não são vinculativas. Este é o grande «dilema» do Direito Internacional.

Luanda, 07 de Janeiro de 2026