Luanda - A filosofia para crianças e jovens, com capacidade própria, pode surgir como proposta ao ensino que questiona os limites ou posições tradicionais da educação filosófica, geralmente reservada ao nível superior. O problema central está em saber quais são as causas da resistência cultural à filosofia em crianças e jovens; por que há a não valorização da filosofia em crianças e jovens na cultura angolana; e como as crianças e jovens podem filosofar, considerando sua capacidade de raciocínio abstrato, argumentativo e reflexivo-crítico. Debate-se se a filosofia deve ser vista como transmissão de conteúdo ou como exercício do pensar.
Fonte: Club-k.net
Autores como Matthew Lipman defendem que o pensamento filosófico pode ser desenvolvido desde cedo, em comunidades de investigação, com a finalidade de promover autonomia, diálogo e cidadania ativa. Críticas apontam riscos de simplificação da filosofia ou de instrumentalização pedagógica, mas o debate permanece aberto, revelando a tensão entre tradição e inovação educativa e racional.
1. Introdução
Se recorrermos aos grandes filósofos da história, recordaremos importantes passagens sobre o interesse do homem na busca pelo conhecimento. Mas o questionamento filosófico que não nos escapa é: o que podemos conhecer? Até que ponto podemos conhecer?
Aristóteles, na Metafísica, sustentou que “todos os seres humanos naturalmente desejam o conhecimento” (Livro I). Mas eles podem? Como? Sob quais condições? Cercadas de dúvidas, as crianças parecem compreender a função do questionamento, que tem a importante tarefa de colocá-las em contacto com a realidade e com o que querem descobrir. Elas percebem que a repetição de perguntas gera novas respostas, de forma que, quando as respostas não as deixam satisfeitas, podem voltar a interrogar. Este exercício de questionamento é, em si, um início ao filosofar.
As crianças, imbuídas de inocência, representam o homem em seu estado natural; seu espírito é guiado pelo encantamento da realidade. A falta de conhecimento sobre si e sobre o mundo circundante leva à formulação de vários “porquês”. Esses “porquês” resultam de fatores como desconhecimento da realidade circundante ou insatisfação com as noções apreendidas a partir dos adultos.
Nos dias atuais, verifica-se no mundo infantil e juvenil certo desencanto pelo tédio profundo. A genuína reflexão que caracterizava a inquietude típica da infância e da juventude perdeu-se; hoje, o novo já não inquieta. Observa-se certo contentamento com a realidade apresentada à criança, e o espírito inquisidor, característico dessa etapa existencial, parece estar a desaparecer. Diante disso, levantam-se os seguintes problemas: quais razões estão na base dessa letargia intelectual evidenciada pela resistência cultural à filosofia em crianças e jovens? Por que não se valoriza a filosofia em crianças e jovens na cultura angolana?
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2. Causas da resistência cultural à filosofia em crianças e jovens
Para compreender este problema, é necessário analisar como a filosofia para crianças e jovens é encarada no país, sobretudo no contexto escolar e em centros infantis. Muitos percebem a filosofia como algo distante, complexo ou pouco prático para crianças e jovens, considerando-a irrelevante para a vida cotidiana. A filosofia é frequentemente associada a debates acadêmicos e adultos, o que pode afastar os jovens.
Segundo o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, a filosofia é uma atividade crítica e de investigação racional, não sendo um conjunto fechado de doutrinas. A educação, por sua vez, é entendida como o processo pelo qual se transmite e se renova a cultura, e a filosofia tem o papel de formar a capacidade crítica. Assim, a filosofia para crianças e jovens significa aplicar a atividade filosófica de forma crítica, problematizadora e investigativa desde o início da formação humana, reconhecendo que filosofar não está limitado à idade adulta.
A resistência cultural à filosofia em crianças e jovens tem sido analisada por diversos autores que destacam tanto as dificuldades quanto as possibilidades de promover o pensamento filosófico em contextos culturais específicos.
Segundo Feliciano dos Santos M. B. (2025/2026), Matthew Lipman (1990), na década de 1960, criou o programa Filosofia para Crianças, visando cultivar o desenvolvimento das habilidades cognitivas mediante discussões de temas filosóficos, permitindo a iniciação filosófica de crianças e jovens. Assim, surgiram as bases de um novo paradigma de educação, com o objetivo de desenvolver o pensamento crítico, criativo e cuidadoso.
Em 1974, Lipman contou com o apoio de Ann Margareth para criar o Institute for the Advancement of Philosophy, com a finalidade de estruturar melhor o currículo da filosofia para crianças e jovens. Para Lipman, a filosofia deve começar com as crianças, pois o pensamento crítico não pode ser adiado até a idade adulta. A resistência à filosofia na infância é resultado de preconceitos sobre a capacidade das crianças de pensar criticamente.
Influências do sistema educacional também contribuem para que crianças e jovens percam a vontade de filosofar. O foco na produtividade e memorização, os testes padronizados e aulas centradas no professor não incentivam a exploração de ideias ou a formulação de perguntas. Muitas vezes, os jovens são ensinados a aceitar respostas prontas de figuras de autoridade, dificultando a abertura para questionar e refletir.
Para superar essa resistência cultural, é necessário:
• Demonstrar a relevância da filosofia, conectando questões filosóficas com temas do cotidiano, como amizade, justiça, liberdade e sustentabilidade;
• Estimular a curiosidade em espaços seguros, valorizando todas as contribuições, independentemente de estarem corretas ou não;
• Incorporar métodos lúdicos, como jogos, histórias e dramatizações, para engajar os mais jovens de forma crítica e divertida;
• Utilizar mídias contemporâneas para iniciar discussões filosóficas;
• Esclarecer o papel da filosofia na formação do pensamento crítico e na abordagem de desafios globais, como desigualdade e mudanças climáticas.
O pensamento infantil, historicamente visto como protofilosófico, era considerado incapaz de abstração e reflexão. Para muitos filósofos da tradição, a infância representava a negação da filosofia, reservando-a à vida adulta. Contudo, Lipman (1990) enfatiza que “fazer filosofia não é uma questão de idade, mas de habilidade em refletir escrupulosamente e corajosamente sobre o que se considera importante”.
Ao admitir que o pensamento filosófico se realiza essencialmente na interrogação, devemos questionar o que permaneceu impensado pela tradição filosófica. A exclusão das crianças da atividade filosófica pode ser expressão do poder e domínio dos adultos em sociedades patriarcais.
Treinar professores para conduzir diálogos filosóficos de forma acessível é essencial, pois a ausência de docentes preparados limita a filosofia a exercícios moralizantes ou lógicos, prejudicando seu potencial transformador. Ao superar a resistência cultural, a prática filosófica pode se tornar uma ferramenta poderosa para formar crianças e jovens críticos, empáticos e conscientes do mundo ao redor.
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3. Por que não há valorização da filosofia em crianças e jovens na cultura angolana?
A falta de valorização da filosofia entre crianças e jovens na cultura angolana está relacionada a fatores históricos, sociais, políticos e culturais. Durante o período colonial, o sistema educativo em Angola foi projetado para formar trabalhadores, não cidadãos críticos. A filosofia, sendo disciplina reflexiva, ficou marginalizada, e esse legado ainda influencia a educação no país, onde disciplinas práticas têm maior prioridade.
A tradição oral angolana, rica em ensinamentos implícitos, não é formalmente reconhecida como filosofia. Esse contraste entre os modos tradicionais de pensar e o formato acadêmico da filosofia pode levar à rejeição da disciplina formal, percebida como estrangeira ou desconectada da realidade local.
Para superar essa resistência, é necessário:
• Integrar a filosofia africana e tradições locais ao currículo escolar;
• Capacitar professores para ensinar filosofia de forma acessível e envolvente;
• Enfatizar a relevância da filosofia no desenvolvimento de habilidades críticas, criatividade e resolução de problemas;
• Conectar a filosofia à vida cotidiana para estimular o pensamento crítico.
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4. Como crianças e jovens podem filosofar
O filosofar não se reduz a adultos; é um exercício crítico, reflexivo e criativo, acessível desde a infância. Lipman sustenta que “crianças e jovens são capazes de pensar filosoficamente se estimulados por narrativas e pela comunidade de investigação”. Ann Margaret Sharp (1995) enfatiza a importância da formação docente para garantir a qualidade filosófica, evitando que a filosofia se torne apenas moralizante ou lógica.
Pesquisas em psicologia do desenvolvimento, como Piaget (1976) e Vygotsky (1987), mostram que crianças elaboram perguntas sobre existência, justiça, verdade e morte desde cedo. Gareth B. Matthews (1980) destacou que crianças levantam questões metafísicas, éticas e epistemológicas espontaneamente.
Na prática, escolas podem organizar grupos de trabalho e investigação, discutindo problemas abertos e apresentando argumentos. Esse processo favorece competências como autonomia intelectual, diálogo e participação democrática, formando cidadãos críticos, éticos e conscientes.
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5. Conclusão
A resistência cultural à filosofia em crianças e jovens em Angola e a falta de valorização da disciplina refletem fatores históricos, sociais, econômicos e culturais. Apesar disso, representam oportunidades de repensar o papel da filosofia na formação das novas gerações. Ao conectar a filosofia às tradições locais, à realidade social e às necessidades contemporâneas, é possível transformá-la em instrumento poderoso para formar cidadãos críticos, éticos e conscientes, capazes de contribuir para o desenvolvimento de Angola.
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Bibliografia
1. Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
2. Aristóteles. Metafísica. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
3. Basto, Feliciano dos Santos Moreira. Seminários de Filosofia Prática, curso de Mestrado, 6ª edição, 2025/2026.
4. Chitolina, C. L. A criança e a educação filosófica. Maringá: Dental Press, 2003.
5. Kandjimbo, Luís. Filosofia e cultura angolana: tópicos e problemas, 2024-2025.
6. Lipman, Matthew. A filosofia vai à escola. São Paulo: Summus, 1990.
7. Matthews, Gareth B. Philosophy and the Young Child. Harvard University Press, 1980.
8. Piaget, L. J. A equilibração das estruturas cognitivas. Zahar, 1976.
9. Sharp, Ann Margaret e Splitter, L. J. Teaching for Better Thinking: The Classroom Community of Inquiry. ACER, 1995.
10. Vygotsky, L. S. Pensamento e linguagem. Martins Fontes, 1987.
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Autobiografia
Serafim Muca, filho de Eurico Tchitupa e de Filipina Tchohondo, natural de Viana, Província de Luanda, nacionalidade angolana, nasceu em 10 de maio de 1987. Casado, , residente em Icolo e Bengo, município de Calumbo (Vila do Kangamba, Zango III).
Frequentei o ensino básico na Escola das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena (Escolinha da Paz, km 9), o ensino médio no Centro de Estudos dos Institutos Religiosos (CEIR), atual Escola Papa João XXIII, Luanda, bairro Rangel, com curso em Ciências Sociais e Humanas.
Fiz o bacharelado em Filosofia-Pedagogia no Centro de Estudos Dom Bosco (atual Instituto Superior Dom Bosco, ISDB). Licenciei-me em Filosofia na Universidade Católica de Angola (UCAN, ISDB) e sou mestrando em Filosofia na Universidade Agostinho Neto, Faculdade de Humanidades.
Frequentei o seminário durante oito anos, incluindo um ano como postulante ou pré-novício. Sou professor do ensino superior há seis anos no Instituto Superior Tocoísta Golf 2, Luanda, lecionando Filosofia Geral, Introdução à Filosofia do Direito e do Estado, Ética e Pensamento Social e Metodologia de Investigação Científica. Também exerço funções de secretário do Departamento de Ciências Sociais e Humanas, especialmente no curso de Psicologia.
Tenho 13 anos de experiência no ensino geral, lecionando Introdução à Filosofia e Educação Moral e Cívica (EMC).











