Luanda - Dois factores estruturais merecem destaque, para mim incontornáveis, na análise do fenômeno da bajulação no seio da nossa família partidária.
Fonte: Club-k.net
São eles:
a) A arquitetura da Constituição da República, sobretudo no tocante as competências do PR.
b) A ausência de concorrência interna genuína na escolha do líder máximo da organização.
Quanto ao factor Constituição
A Constituição de 2010 confere ao Presidente da República poderes excepcionais, concentrando na figura do Chefe de Estado, titular do Poder Executivo e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas um grau de influência que abrange desde a definição da orientação política do país até amplas competências na nomeação de cargos chave na administração pública.
Nas forças de defesa e segurança e na esfera económica, o poder do PR é altamente influenciador.
Essa hipertrofia presidencialista transforma o Presidente numa instância quase decisiva para o destino individual de cada cidadão e, em particular, de militantes partidários: ascensão social, oportunidades económicas, nomeações públicas e até a viabilização de projectos pessoais dependem, em larga medida, da proximidade ou do favor desse titular único de poder.
Quando a mesma figura acumula os cargos de Presidente da República, Presidente do partido e Chefe do Executivo — como previsto no modelo constitucional vigente —, o militante percebe que a lealdade expressiva e a subserviência pública se tornam atalhos racionais (ainda que moralmente degradantes) para a sua mais rápida ascensão.
A bajulação surge, assim, não apenas como defeito individual, mas como estratégia adaptativa num sistema que premia o enaltecimento oportunista de uma pessoa, o elogio falso e o cinismo calculado.
O Título II da CRA, ao consagrar essa concentração de poderes, acaba por incentivar, ainda que indirectamente, comportamentos servis e desprovidos de integridade ética, em que cidadãos e militantes sacrificam a sua dignidade humana em troca de benefícios materiais ou de estatuto.
Quanto ao factor da ausência de concorrência interna
O MPLA ainda não experimentou, em sua história recente, um processo eleitoral interno verdadeiramente competitivo, com múltiplas candidaturas para o cargo máximo da organização.
A indicação prévia ou a consagração de um candidato único foi durante muito tempo a regra, permitindo que o nome do futuro líder fosse conhecido com grande antecedência.
Essa previsibilidade elimina o risco e o mérito na disputa, transferindo o investimento dos militantes para a demonstração precoce e exagerada de lealdade ao sucessor inevitável.
Isto é muito mau.
O militante acaba de despreocupando com o partido e passa a lutar por um lugar ao sol encaminhado por força da bajulação ao líder.
A bajulação ganha, nesse contexto, um destinatário certo e um horizonte temporal definido. Acresce-se que, no nosso partido, os critérios de promoção raramente privilegiam a competência técnica, o mérito comprovado ou a capacidade de contribuição programática. Predominam, em regra, a notoriedade mediática, a imagem pública e — sobretudo — a bajulação crónica aliada ao clientelismo, ao nepotismo e ao amiguismo. A ostentação de riqueza, a vestimenta igual a do líder, a imitação e até a gesticulação também já começam a ser factores adicionais de bajulação rumo a promoção.
Não surpreende, pois, a dificuldade em algum destes militantes responder com clareza a uma pergunta aparentemente simples: qual é a ideologia do MPLA hoje? A resposta esvazia-se porque as escolhas internas assentam menos em actos e estudos, em valores ou visões de país e mais na intensidade da adulação, da bajulação e nas redes montadas dos grandes favores.
Propostas de solução
1. Rever criticamente a Constituição de 2010, em particular as normas que consagram um hiperpresidencialismo atípico e desequilibrado face aos princípios de um Estado democrático de direito. Importa descentralizar poderes, reforçar os contrapesos institucionais e limitar a acumulação de funções executivas e partidárias no mesmo titular.
2. Democratizar efetivamente os processos internos do partido, instituindo eleições competitivas com múltiplas candidaturas ao cargo de Presidente do MPLA. O líder deve emergir como aquele que oferece maiores garantias de unidade orgânica, modernização partidária, conhecimento geral da educação comportamental e que seja homem de virtudes, amigo das ciências e do desenvolvimento técnico e econômico do país, para o aprofundamento democrático e uma nova a reconexão genuína do MPLA com as massas populares, a sociedade civil e os anseios de uma Angola renovada.
3. Estabelecer o mérito, a competência e a integridade como critérios centrais e transparentes de promoção em todos os níveis partidários e da governação do país.
4. O Presidente da República e do partido deve repudiar publicamente e afastar sistematicamente todos aqueles que fazem da bajulação instrumento de progressão pessoal, reconhecendo nesses indivíduos falsidade, hipocrisia e ausência de carácter.
5. Intensificar a educação política dos militantes, promovendo o debate ideológico substantivo, o pensamento crítico e o compromisso programático.
6. Reforçar a educação cívica, moral e ética da cidadania em geral, cultivando valores de autonomia, dignidade e responsabilidade pública.
A superação da bajulação exige, portanto, reformas institucionais profundas e uma revolução ética simultânea no seio da sociedade e do nosso glorioso partido.
Sem ambas acções, o conformismo servilista e oportunista continuará a corroer a qualidade da nossa militância, a credibilidade do partido. É a saúde democrática do país que corre riscos.
Precisamos actuar o quanto antes.
Que 2026 nos traga um partido democrático, mais humanista e progressista.











