Luanda - Há dias, ao entrar no Facebook, deparei‑me com uma fotografia do general Joaquim Lopes "Farrusco". Debaixo da imagem, sucediam‑se comentários: alguns diziam que só conheciam o nome, outros recordavam com orgulho que tinham servido sob o seu comando. Enquanto lia aquelas palavras, uma lembrança de infância, há muito adormecida, regressou com uma nitidez quase dolorosa. Lembrei‑me de que tive o privilégio de o ver ao vivo, de muito perto, quando ainda era apenas uma criança a jogar futebol no centro de Kalandula, em Malanje.

Fonte: Club-k.net

Aquele dia começou como qualquer outra tarde simples. Eu e os meus amigos estávamos num campo de terra batida, descalços ou com sapatos já muito gastos, a chutar uma velha bola de um lado para o outro. O sol estava forte, o chão seco, coberto de pó vermelho que se agarrava às pernas, às camisolas e ao cabelo. Corríamos, ríamos, gritávamos, às vezes discutíamos faltas inventadas, completamente mergulhados no jogo. Naquela idade, o nosso mundo inteiro cabia naquele rectângulo de terra, naquela bola cansada e na amizade uns dos outros. Não havia espaço para política, nem para guerra, nem para grandes figuras da história. Só queríamos jogar.

Até que algo começou a quebrar a rotina daquela tarde. Ao longe, ouvimos um ruído grave, um som contínuo e vibrante que aumentava a cada segundo. No início, quase ninguém ligou: pensámos que fosse um camião pesado a passar na estrada ou alguma máquina a trabalhar numa obra. Mas o som não parava e soava diferente, mais intenso, mais próximo. A curiosidade acabou por vencer o jogo. Levantámos a cabeça e vimos, recortado contra o céu, um helicóptero a sobrevoar Kalandula, indo de um lado para o outro.

Para crianças como nós, aquilo era quase inacreditável. Helicópteros não faziam parte do nosso quotidiano; eram coisas de filmes, de notícias distantes ou de histórias contadas pelos adultos. Ver um, ali mesmo, por cima da nossa vila, parecia irreal. Ao mesmo tempo que nos assustava um pouco, fascinava‑nos, como se de repente o “mundo grande” tivesse decidido descer até ao nosso pequeno campo de futebol.

O helicóptero deu algumas voltas, e nós passámos a segui‑lo apenas com os olhos, esquecendo a bola, as balizas improvisadas e o resultado da partida. Até que percebemos que começava a descer, cada vez mais baixo, cada vez mais perto do nosso campo. Ficámos imóveis, hipnotizados, a observar aquela máquina enorme aproximar‑se do chão. Em poucos instantes, pousou exactamente no lugar onde, minutos antes, corríamos atrás da bola.

O vento das hélices levantou uma nuvem espessa de poeira, areia e pequenas pedras. O ar encheu‑se de pó vermelho; as nossas roupas e o nosso rosto ficaram cobertos de terra. Tivemos de tapar os olhos com as mãos para conseguir ver alguma coisa. O barulho era ensurdecedor, o chão parecia tremer sob os nossos pés. Para mim, era como estar dentro de uma cena de filme de ficção científica: um objecto estranho a descer do céu, no meio da nossa vida simples em Kalandula.

Quando o helicóptero estabilizou e o ruído abrandou um pouco, as portas abriram‑se. De lá de dentro desceram três homens. Um deles era o general Joaquim Lopes "Farrusco". Naquela época, eu não sabia quem ele era, nem imaginava o peso do seu nome. Aos olhos de uma criança, via apenas um homem forte e confiante, de uniforme de piloto. Pareceu‑me alto, imponente, com uma postura firme e uma autoridade natural que se impunha sem esforço. O uniforme impecável, alinhado, contrastava com as nossas camisolas suadas e cheias de pó. Lembro‑me nitidamente de como me pareceu elegante, quase uma figura de cinema, com o cabelo comprido a mexer levemente ao vento que ainda soprava das hélices. Ao lado dele vinham mais dois militares, também fardados, mas o meu olhar permanecia preso à sua figura.

Naquele instante, senti uma mistura estranha de medo, respeito e admiração. Nunca tinha estado tão perto de um helicóptero, nem de alguém que transmitisse tanta importância só pela presença. Ninguém teve coragem de se aproximar. Ficámos ali, alinhados, silenciosos, como se o campo tivesse deixado de nos pertencer. O lugar onde, até há pouco, só havia brincadeira e barulho infantil transformara‑se num palco de algo sério, ligado a um mundo adulto que nós não compreendíamos.

Não sabíamos por que razão ele tinha aterrado ali, nem qual era a sua missão. Talvez fosse uma operação militar, talvez uma visita rápida, talvez algo ligado à guerra que, naquela altura, corria paralela às nossas infâncias. Mas, mesmo sem entender nada, intuíamos que aquele momento não era comum. Percebíamos, de alguma forma vaga, que aquele homem era alguém especial.

A imagem desse dia ficou gravada em mim durante anos: o campo empoeirado, o sol a pique, o estrondo das hélices, a poeira suspensa no ar e a figura do general "Farrusco" a descer do helicóptero com passos seguros. Eu era muito novo — talvez tivesse a idade de uma criança na primeira classe — e não tinha qualquer noção do significado político ou militar da presença dele em Kalandula. Não compreendia hierarquias, estratégias, conflitos. Mas, no plano emocional, aquela cena tornou‑se imensa. Foi o dia em que o meu pequeno mundo de brincadeiras se encontrou, sem perceber, com o grande mundo da guerra, do poder e da história.

Muitos anos depois, ao ver a sua fotografia no Facebook, senti como se um fio invisível unisse o miúdo daquele campo empoeirado ao adulto que sou hoje. Enquanto outros, nos comentários, falavam de batalhas, campanhas, missões e vida de quartel, eu recordava algo muito mais simples e inocente: um grupo de crianças a jogar futebol e o dia em que um helicóptero aterrou à nossa frente como se viesse de outro planeta. Para eles, ele era o general, o comandante, o líder. Para mim, antes de tudo, foi um herói misterioso vindo do céu, um símbolo de força e coragem que apareceu, por alguns minutos, no meio do meu jogo de infância.

É por isso que, quando hoje vejo a fotografia de Joaquim Lopes "Farrusco" não consigo olhar como apenas o retrato distante de uma figura histórica. Para mim, é uma porta aberta de volta a Kalandula, ao campo seco e empoeirado, ao calor da tarde, ao espanto nos olhos dos meus amigos, ao barulho do helicóptero a cortar o céu. Lembra‑me como certos momentos da infância permanecem connosco para sempre e como um encontro breve, mesmo à distância, pode marcar silenciosamente a maneira como passamos a ver a coragem, o poder e a própria memória ao longo de toda a vida.