Luanda - Ele não gritava. Não dançava. Não saltava. Num estádio africano saturado de ruído, tambores e buzinas, um homem estava de pé. Imóvel. O braço erguido. Enquanto a multidão vibrava, ele tornava-se estátua. Durante o Campeonato Africano das Nações (CAN), em Marrocos, as câmaras acabaram por procurá-lo. No início, era apenas um detalhe estranho nas bancadas dos Leopards da RDC. Depois tornou-se imagem. Depois símbolo. Depois pergunta. Esse homem chama-se Michel Nkuka Mboladinga. Mas o continente rebatizou-o de outro modo: Lumumba.

Fonte: Club-k.net

Uma postura nunca é inocente. O que Michel Nkuka Mboladinga reproduz não é um gesto improvisado. É o da estátua de Patrice Lumumba, em Kinshasa: braço erguido, olhar fixo num horizonte que ultrapassa o presente. Lumumba, primeiro Primeiro-Ministro do Congo independente, assassinado em 1961. Figura quebrada, figura mitificada, figura inacabada. Michel Nkuka Mboladinga não se disfarça. Não caricatura. Encarna. Durante noventa minutos, por vezes mais, permanece de pé, sem se mover. Como se o corpo tivesse de se tornar memória. Como se o futebol tivesse de se tornar lugar de consciência. Num torneio onde tudo é velocidade, ele escolhe a imobilidade. Num espaço onde tudo é exuberância, escolhe a gravidade. E é precisamente por isso que a imagem atravessou fronteiras.

O CAN é um espectáculo. É também, muitas vezes, um palco político disfarçado. Bandeiras, hinos, rivalidades, orgulhos nacionais. Mas raramente a memória se mantém de pé. Lumumba, o adepto, introduziu algo de desconfortável: a lembrança de que as nações africanas não nasceram na alegria dos estádios, mas no sangue, nas traições e nos sonhos interrompidos. O seu gesto não era agressivo. Não era reivindicativo no sentido partidário. Era mais subtil: dizia que a história não está atrás de nós. Observa-nos jogar. Um jogador adversário chegou mesmo a imitar a sua postura numa celebração, antes de pedir desculpa ao compreender o alcance do gesto. Isso diz tudo: a imagem não era folclórica. Era carregada. Porque é que este gesto nos toca tanto? Porque o gesto liga três tempos: o passado anticolonial, o presente desportivo, o futuro incerto. Recorda que a soberania africana não é um dado adquirido confortável, mas uma tensão permanente. Num mundo onde as imagens africanas circulam frequentemente sob o filtro da miséria ou do exotismo, eis uma imagem diferente: um homem negro, de pé, calmo, digno, contido, que escolhe o silêncio como linguagem. E esse silêncio era mais forte do que os cânticos.

Lumumba, ainda. Quando Aimé Césaire escrevia, em Une saison au Congo: “Tu es notre guide inspiré, notre messie ! Rendons gloire à Dieu, mes enfants, Simon Kimbangu est de nouveau parmi nous !”, falava de Lumumba. Mas, através dele, falava dessas figuras que não morrem. Revelava uma verdade africana: certos homens não morrem porque não são apenas indivíduos, são passagens. Poder-se-ia dizer hoje: Lumumba continua de pé. Não nos palácios. Não nos discursos oficiais. Mas num estádio, entre os seus. O adepto não reivindicou herança política. Limitou-se a lembrar que a dignidade não é folclore. Mostrou que se pode apoiar uma equipa sem esquecer aquilo que funda uma nação.

Que nos diz isto? A diáspora africana, as novas gerações, os filhos nascidos depois das independências vivem frequentemente entre memória fragmentada e modernidade apressada. Pedem-nos que avancemos. Que sejamos performativos. Que sejamos globalizados. Raramente nos pedem que sejamos conscientes. Michel Nkuka Mboladinga fez exactamente isso: introduziu a consciência no entretenimento. E esse gesto incomoda porque recusa o esquecimento confortável. Um corpo como arquivo. O seu braço erguido não era um slogan. Era um arquivo vivo. Recordava que o Congo não é apenas um relvado de futebol, nem apenas uma terra de recursos. É uma história de lutas, de fracturas, de esperanças. Num mundo que consome símbolos à velocidade das redes sociais, ele impôs a lentidão. Impôs a duração. Impôs a verticalidade. E essa verticalidade é política.

Pode-se rir. Pode-se minimizar. Podemos dizer que é apenas futebol. Mas a verdade é mais profunda: um continente que esquece as suas figuras de ruptura acaba por normalizar as suas dependências. Lumumba nas bancadas recorda algo simples: a liberdade não é cenário. É postura. E essa postura exige coragem. Quando a RDC deixou a competição, ele permaneceu imagem. Foi saudado como um dos símbolos do torneio. Mas a questão permanece: que fazemos com esses símbolos quando os projectores se apagam? Transformamo-los em folclore viral? Ou deixamo-los interpelar-nos?

Escrever Lumumba, hoje, não é escrever um adepto. É escrever um continente que recusa reduzir a sua história a entretenimento. É escrever uma memória que não quer morrer nos manuais. É escrever essa tensão permanente entre celebração e consciência. Ele não gritava. Não dançava. Não saltava. Mantinha-se de pé. E, por vezes, manter-se de pé basta para recordar a um estádio inteiro, e talvez a um continente inteiro, que a dignidade não se aplaude apenas. Encarna-se. E, por vezes, manter-se de pé basta para lembrar que um continente não é apenas um campo de jogo. É uma promessa inacabada.

Ricardo Vita
Headhunter e observador pan-africano