Luanda - É época de Carnaval, com ela nada de novo chegou. De motivos para festejar temos menos do que zero. Não se vê um fundo de túnel. Talvez luzisse mais o fundo duma garganta que se abrisse nas trevas do que se acenderia uma centelha no fundo dum túnel que não existe. E porque dela precisa e não há volta a dar, só a alma do povo pode recriar e reavivar a âncora da esperança que dele foge. A esperança que parece lhe abandonar todos dias. Assim vamos nós sobrevivendo à medida que desvivemos aos olhos nus. De tanto sofrer e ver o sofrimento - como que nos rodear os pés com as correntes da crueldade mais cega -, uns dos outros desviamos o olhar porque o coração quase que nos silencia por exaustão. Carnaval! O que será o Carnaval afinal nas nossas vidas? A festa e a expressão da alegria dum futuro promissor? Ou a celebração, de alguns, de uma miséria que se espraia à custa da esperança usurpada ao outro? Se afinal pudéssemos, quantos de nós se negariam a jungir o tempo para fugir com os olhos só mais um mosqueado ritualista do folclore que, há muito, perdeu o ar da sua graça para a indiferença de bandulhos vazios.

Fonte: Club-k.net


RITUAIS E APARÊNCIAS


Bem que passou ainda pouco tempo sobre efusivas festividades de uma certa independência. Celebrações que não nos trouxeram pelo menos uma expectativa de dias melhores. Agora, onde vamos nós buscar forças para vibrações carnavalescas? O bucho está ruidosamente vazio, e, sobre a independência, não uso a semântica “a independência”. Porque “a independência” tem um alcance nacional - ao mesmo tempo que encerra a ideia de uma conquista individual de cada cidadão. Destas lentes teríamos a independência. Estaríamos perante uma conquista em proveito de todos, no sentido em que dos frutos dela se apropriam todos cidadãos. Infelizmente, o que se vive no nosso país é “uma independência”. É subjetivo, sim: “Uma Independência” é o que realmente está em vigor no nosso país. É uma pertença condicionada de uma clique exclusivista. Um pequeno grupo que só ele colhe ecos emocionais do significado que se encarregou de lhe atribuir a dita independência. A sombra e a penumbra desta verdade estão lá espelhadas. Saltam a vista no próprio modo de vida do grupo. Gubernare, como lhe chamavam no antigo império romano, ou Kybernân, como lhe chamavam na Grécia antiga, para ambos a terminologia (náutica) ia muito felizmente entroncar no sentido de dirigir, com zelo, os destinos do Estado. Ainda hoje a nomenclatura corporiza um agregado de atributos que traduzem preocupações de orientar a navegação - da grande nave, que é o Estado/país. A nave deve ser guiada por timoneiros destros, gente capaz de discernir por que rotas logrará chegar a porto seguro. Intacta, ela e toda sua tripulação. Lobrigar outra coisa desta associação analógica – entre a condução dos destinos de um Estado com o conceito náutico aqui empregue, que não se entenda o povo como a tripulação de um Estado -, só a quem deita fora o Bebé com a água do banho, acontece. Num espelho vimos um ritual côncavo. Ou seja, uma aparência cujo foco é o seu próprio umbigo. Do lado oposto a convexidade do espelho aponta a fórmula da arte de Gubernare/Kybernân – aquela que tem no âmago das suas preocupações o bem-estar das almas (da tripulação a bordo).

UM FUTURO FOSSILIZADO NUM RITUALISMO EGOCÊNTRICO


Deixa tudo e mais alguma coisa a desejar o que desde a dita independência nacional, se assiste no nosso país. Rituais, rituais mais rituais, só rituais, para fazer de contas que o país está tem marcha. Não nos iludamos: O país está em processo de perecimento autoinfligido pelas mãos de antipatriotas. O país vive mergulhado num marketing politiqueiro que se faz a partir do palanque das constantes nomeações e exonerações – algumas até vexantes. O marketing politiqueiro das condecorações e das inaugurações convenientes e oportunistas, do frenesim da atividade legislativa ao gosto do freguês, e, entre tantos outros, o palanque do enrolhar das vozes de quem ainda tem fôlego para fazer soar críticas ao regime. A constante ritualista - que é o instrumento de representação do bem que nunca existiu, que tenta esconder o mal que sempre esteve, e está presente -, tem sido o veículo de predileção do que convém esconder do povo.


Tudo que se materializa por conta desta deriva ritualista, continuamente presente no nosso quotidiano, acaba por desmascarar os protagonistas da farsa. Revela-os na sua essência; naquilo que eles realmente são: Agentes da fossilização das potencialidades do país. Quando nada mais se sabe fazer senão render à aparência toda proeminência, tudo acaba por se parecer mesmo com a história do inaufragável Titanic. Tão aparatosamente inexpugnável que só precisou de meia- viagem para ir ao fundo. É o que nos parece ser o destino daqueles que se querem entronizar como a estrela maior. O desfecho esse, não vai ser diferente de qualquer outro daqueles filmes da vida real em que o fim só pode ser dramático. Escusámos de fazer referência às revoltas a bordo que só se valorizam quando já tudo está fora de controlo. O umbigo – aquele botãozinho que todos temos cá mais para baixo do ventre -, tem uma curiosidade: Só se deixa apanhar pelos olhos se inclinarmos a cabeça na direção do chão. Pregar os olhos no chão até pode proporcionar relaxamento por reflexo da sensação de segurança: O chão está lá, estou a vê-lo, está firme e não me foge dos pés. Mas como não se trata de fazer yoga – que é o que muitos fazem para ganhar paz de espírito e uma melhor disposição -, não é uma boa opção pregar os olhos no chão. A história mostra que debaixo até dos pavimentos mais voluptuoso escondem-se, mais as coisas inconvenientes ou más, do que as coisas nobres. O valor negativo do que ali se oculta, ou a negatividade da fonte ou da história do que lá se guarda, faz da contemplação do chão uma alienação mui perigosa. Nefasto como qualquer oclusão, pregar os olhos no chão obscurece as faculdades mentais. Priva de ver o que de mais óbvio paira à nossa frente. É como que acenar para atrair pedra de tropeço sem disso se aperceber.

GUBERNARE/KYBERNÂN

Prometida - há muito - a melhoria das condições de vida do povo tarda a chegar. Mais velha e mais antiga das promessas é também a que mais se atrasa a dar prova de vida.


Porque não olhar para a fórmula de evitar o erro por meio da identificação do que não se deve fazer? Para se lograr alcançar certo resultado ensina, o que transparece da transversalidade da historiografia epistemológica, que, um bom método de governar é aquele que se propõe sinalizar, e tudo fazer para combater tudo que possa pôr em causa os resultados da ação governativa. Estará alguém expectante de ver resultados promissores a partir de uma governação seriamente comprometida com a corrupção? Então, porque se insiste falar de governação quando (paradoxalmente) se tem insistido numa fórmula que nada tem a ver com o conceito de governar? Se a ação a que se chama governar é vertical, nunca será uma governação no verdadeiro sentido da palavra. Há de ser, sim, uma gestão partilhada e exclusivista de interesses individuais não legítimos. A governação assenta conceptualmente num eixo horizontal. Inclusivo, por definição.


A MÉTRICA DE UMA PSEUDO GOVERNAÇÃO

A noção de que uma simples imprecisão pode deitar tudo a perder assistiu, preciosamente, à humanidade no domínio da aquisição do conhecimento. De alguma maneira, a humanidade ficou daí a dever muito dos seus méritos ao procurar evitar o erro. Criar aparências como um fim em si mesmo é um exemplo do que não se deve fazer.


No meio das aparências de bem que o MPLA e o seu líder se têm dedicado a criar, só o mal tem realmente o seu lugar. Se ao menos se inspirassem na administração do Soba, já não era nada mau; há nas práticas administrativas do Soba princípios que reflectem sabedoria. Nas desafortunadas práticas do MPLA - depois de vendido sob a forma de apreço pela ordem e pela legalidade - só o mal dá sistematicamente à tona. Estes protagonistas têm legislado não para sanar as pragas socioeconómicas do país, não para levantarem o país do vale da miséria humana em que as populações se encontram, mas, legislam para reforçar a ditadura e a tirania de todas as formas e por todos meios. Alastram os domínios da corrupção criando amplificadores de expedientes inconstitucionais e ilegais. Não se eximiram de transformar a própria Constituição acabando por transformar a suposta lei magna numa espécie de foral do latifúndio. Na medida em que a foram formatando nos moldes diretórios dos interesses da clique do poder, a Constituição acabou por ser ela própria um ônus contra a soberana vontade do povo. Cada vez mais temos na dita Lei Magna um peso morto contra as legítimas aspirações do povo e do país. Os titulares dos órgãos de soberania trabalham freneticamente em projetos de manipulação e de monopolização do poder. Engendraram expedientes que, contra o sentimento e contra a vontade popular, lhes dão suporte funcionando como verdadeiros meios concretizadores do monopólio do poder, do enriquecimento ilícito e obscuro. Debaixo dos nossos olhos criaram, e continuam a criar, impérios de fortunas obscenas por conta do enviesamento dogmático de fétido produto legislativo.

A MENTIRA EM QUE SE TRANSFORMARAM OS TRIBUNAIS

Estes órgãos cujo a Constituição da República concede a nomenclatura de órgãos de soberania, na verdade, representam o que de mais baixo e vil há. O que de mais desprezível existe na carteira das apetências autoritárias do regime, está de pedra e cal “nos passos perdidos” dos tribunais. Seja qual for o grau de jurisdição ou nível da instância, os tribunais atuam como parte nos contenciosos que envolvem interesses de figuras da elite. Desde que certa ação judicial visa ou, diretamente, favorece um deles, ou, potencialmente, afetará ou favorecerá indiretamente alguém do círculo – nomeadamente por via de uma demanda que envolve o próprio, enquanto titular dum órgão do estado -, o tribunal, que tem por função assegurar e aplicar a legalidade na composição do litígio, descai-se para o lado do regime. Do regime recebe a cartilha das instruções e limita-se a decalcar cega e servilmente.


Concretizando: Os tribunais mais que pactuar com regime, à ele se juntam e unidos labutam no planeamento do crime, na materialização do crime, e na frustração da prova do crime que juntos protagonizaram. ALJOVI, LIMITADA – um exemplo flagrante de como os tribunais se engajam por arrancar vitórias nas suas secretarias inquisitoriais. Neste caso estão a tentar forçar uma vitória que - nem os sucessivos entorpecimentos da legalidade lhes podem granjear -, nem a fluidez e a solidez dos factos lhes abrem alas para lavarem as mãos na pia das ilegalidades. O país bateu no fundo e está preso nos próprios escombros! Chegamos ao nível mais abjecto de todos desde a primeira queda moral de um governo que já vem de cinquenta anos a esta parte. Perdido na sua modorrenta contemplação do umbigo, este governo dá sinais de que não despertará enquanto não se aperceber que já a última carruagem passou.