Luanda - “Audácia” ou simplesmente Francisco Tuta tem um percurso profissional invejável, no domínio do professorado em Angola. É dele o testemunho vivo sobre a vida de Augusto Ngangula, uma das figuras idolatradas no ensino primário em Angola no pós- independência.


Fonte: Jornal de Angola

A mãe dele chamava-se Makazina Nha N´gangula.

Aos 62 anos, da sua trajectória de vida consta também a brilhante passagem e contributo no movimento de libertação nacional que resultou na proclamação da independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975.

 

Enquanto guerrilheiro, António Francisco Tuta sobressaía na frente de combate por causa das suas investidas inteligentes e acções devidamente arquitectadas. Daí surgir o pseudónimo “Audácia”, nome por que é popularmente chamado pelos colegas de trincheira.

 

Nasceu na comuna do Munhehe, município dos Luchazes, na ex-vila Luso, hoje província do Moxico, aos 5 de Setembro de 1948. A primeira infância de António Francisco Tuta não foi das melhores. Frequentou o ensino primário na localidade de Muhehe.

 

As vicissitudes do dia-a-dia impuseram-lhe um brusco abandono da área de origem. O destino foi a vila Luso, hoje Luena. A perspectiva de António Tuta era atingir a Missão Católica do Kuima, no Huambo. Por lá, aspirava frequentar a formação de professor.

 

Em 1966, a intensidade do conflito armado impelido pelos movimentos de libertação nacional transtornou as suas ambições. A sua vida no Luena passou a ser um dilema: aderir a um dos movimentos ou abster-se em definitivo.

 

Nas matas e aliado ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), já se encontrava o primogénito da família, José Domingos Francisco Tuta, vulgarmente conhecido como Ouro de Angola. Foi por intermédio deste que recebia todas as dicas da actividade na guerrilha.


“Escrevia cartas para mim sobre a vida dele como militar”. Não se desfez do sonho de ser professor. Procurou um emprego que lhe pudesse dar algum dinheiro até conseguir a passagem com destino ao Kuima, província do Huambo. Na serração do senhor João Lino cortou árvores e poliu madeiras.

 

Em cada final de semana tinha o seu respectivo salário. As notícias chegadas da Missão Católica do Kuima davam conta da necessidade de apenas 40 estudantes. Mas com o corre-corre por causa da instabilidade politico-militar apenas 36 alunos se candidataram. Sem a lista estar completa não podiam ir.

 

Este condicionalismo levou-o a trabalhar por mais algum dinheiro. Nesta ocasião, surge-lhe a oportunidade de se deslocar para o município do Lumeje, onde havia uma das serrações desprotegidas. A instabilidade política inquietava tudo e todos.

 

Leccionar na guerra

 

Aos 62 anos, António Francisco Tuta lembra que depois do primeiro encontro passaram apenas sete dias. Durante o alistamento, solicitou que lhe permitissem ingressar dias depois, pois que pretendia despedir-se do progenitor.

 

Nas matas já se encontrava Batalha de Angola, um dos seus irmãos. No encontro de despedida, o pai solicitou que, atendendo a existência na guerrilha de vários membros da família, António Francisco Tuta ou simplesmente “Audácia” fosse para o ramo da educação. Mas na época não havia condições de escolha. Todos tinham de combater com arma na mão. Encaminharam-no para a terceira região militar, cujo comissário político era Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, actual secretário-geral do MPLA.

 

Tinha como incumbência traduzir do dialecto local para o português toda a comunicação e conversa. As dificuldades organizativas conduziram-no à escola de formação político- militar, escola Anoy, na histórica região do Tumdombe.

 

A formação demorou um mês, seguida de treino militar. Aos 19 anos, findo o curso, foi colocado na zona E da terceira região militar, no centro Cuba. O comandante Cutolola e Janguinda deram-lhe as boas-vindas. A caminhada até à área de destino foi um martírio, com travessia de postos fronteiriços da República da Zâmbia.

 

Ensinar a Ngangula

 

Falar de Augusto Ngangula é retratar uma das figuras adoradas do contexto educacional de Angola no pós-independência. Foi no centro Cuba, da zona E da terceira região militar, na província do Moxico, que António Tuta conheceu o adolescente de nome Augusto Ngangula.


Ngangula destacava-se por uma inteligência subtil. Daí que, em vez de estudar a iniciação, foi proposto para a segunda classe. “Era um rapaz bastante dinâmico”. Por causa desta inteligência, os responsáveis do centro Cuba nomearam-no chefe de brigada a nível das crianças.

 

António Francisco Tuta  Responde

Fale do livro que escreveu sobre Ngangula


O livro tem o título de “Malamo Chalala”. Malamo são as matas fechadas que estão na comuna de Mussuma, província do Moxico. Chalala é o rio onde os guerrilheiros tiravam água para beber. Depois há um subtítulo: Augusto Ngangula, o pioneiro do MPLA. O livro ainda não foi lançado porque a editora prometeu-me entregar os exemplares em Janeiro. O meu objectivo era apresentar publicamente o livro em Dezembro, mas fica para o próximo ano.

 


Quem foram os pais de Augusto Ngangula?


Conheci-os muitíssimo bem. O pai chamava-se Kambeu Iamuhanba e a mãe Makazina Nha N´gangula.

 

Durante quanto tempo deu aulas a Augusto Ngangula?

 

Foi um ano lectivo. Comecei a leccionar no centro Cuba em Maio de 1968. Um mês depois criámos as condições e arrancámos com o ano lectivo. No dia 1 de Dezembro, Ngangula foi assassinado pelos colonialistas.

 

Esteve no enterro?


Sim. Estive, assim como muitas outras pessoas que na época estavam no centro Cuba. Foi enterrado numa lavra, na área do Malamo, no posto administrativo de Mussuma. Ele morreu com 12 anos.

 

Ngangula não é uma invenção?


Desminto isso. Ngangula é verdadeiro, existiu de verdade. Eu fui o professor dele. Conheci-o até à altura da sua morte. É normal que as pessoas se questionem sobre isso. Há testemunhas vivas que com ele conviveram.

 

Há testemunhos de que Ngangula não é ficção?


Há muitos. Vou mencionar apenas alguns nomes. O Munheca é um deles e está a morar actualmente no Ramiro, em Luanda. No Moxico está a dona Amélia Paulo Resto, que o conheceu. No Kuando-Kubango está o Eduardo Mapulanga, o Tchikolo Mwenho. Ele participou no enterro de Ngangula. Já na área da Estalagem, em Luanda, está o senhor Justino Frederico. Há muitas testemunhas.

 

Por que mataram a criança?


Todo o mundo se questionou. Apanharam-no com livros de alfabetização do MPLA. Tentaram persuadi-lo a mostrar onde era a base dos guerrilheiros, mas ele levou os militares para a aldeia, onde vivia com a família. Até helicópteros foram utilizados. Mataram o rapaz, infelizmente.

 

Parou de leccionar?


Não. Fui transferido para a zona B, que na altura era o Alto Zambeze, na província do Moxico. Foi sob minha responsabilidade que abrimos o internato 14 de Abril. Estávamos em 1970 e foi um local de referência dos movimentos de libertação nacional.

 

Quem são as figuras que estiveram consigo?

 

Foram meus companheiros o comandante João Luís Neto, general Xietu, da Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas (FAA). Estiveram comigo também os comandantes Gika, Valódia, Loy, Dangereux, Ludy Kissassunda e Tutu, entre outros nomes da história política de Angola.

 

Por que veio à África do Sul?


Por doença. Deixa-me dizer-te que antes fui indicado para leccionar na província do Namibe, em 1978, por orientação de Lúcio Lara. Não concretizei por causa do clima e fiquei longos anos inactivo até conseguir emprego por intermédio de Manuel Pedro Pacavira, actual embaixador na Itália.

 


Não disse como veio parar à África do Sul


Já lhe disse que foi por doença. Passei por maus momentos em Angola. Lutei dia e noite para conseguir dinheiro. Viajei graças à disponibilidade do ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra, José Pedro Van-Dúnem. Tratei-me, mas mesmo assim, nada. De regresso, voltei a ter as mesmas crises. Estava desesperado. O meu irmão foi falar com a ministra das Pescas, na época Fátima Jardim, que lhe entregou algum dinheiro. Só assim consegui regressar à África do Sul.

 

A vida é difícil?


Desde 1998 que nunca mais regressei a Angola. Vivo sozinho. É doloroso e não é fácil. Cá, não tenho sustentabilidade que possa aguentar a minha família. Vivo do subsídio da minha aposentação, o que não é muito. É muito difícil a minha vida na África do Sul.

 


Como é que sobrevive?


A minha família manda-me dinheiro. Aperto o cinto para comprar coisas que em Angola dão dinheiro. É dali que vem a minha sustentabilidade. Com esse dinheiro pago renda da casa, compro os meus medicamentos, pago os hospitais bem como o transporte e alimentação.

 

Mas que doenças lhe inquietam?


Tinha uma infecção na pele que em Angola chamavam de formigueiro. Mas na realidade era outra coisa. Tenho problemas da próstata e tensão alta. Muita coisa junta que só Deus sabe.

 

É pai de quantos filhos?

Sou pai de seis filhos. Todos eles se encontram a viver em Angola.

 


Bombardeamento em Cayangue

Francisco Tuta tem hoje 62 anos e conta com uma trajectória cheia de revezes. Altos e baixos são os momentos que guarda. Filho de Francisco Mucungo Tuta e de Muefulai Cuvango Calenga, tem como momento marcante na sua vida o bombardeamento da localidade de Cayangue. “Foram milhares de angolanos e a imagem nunca se apaga da minha memoria”.



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