Luanda -  1. Hoje me penitencio. Tenho sido, ao longo de mais de 35 anos, um cidadão impotente. Impotente ante o rumo de um território que acreditei e ajudei a proclamar, nos idos de 1975. Impotente por não conseguir mobilizar a juventude, para reivindicar um rumo diferente do país.


 
Fonte: Folha 8


Impotente por me conformar com o estado de pobreza a que estamos votados, por uma minoria que tem os milhões de dólares dos milhões de famintos, que fecham a boca, ao invés de as abrir e gritar por comida, ante a fome, que campeia em gente que respira e anda a pé com menos de 1 dólar/dia, quando os poucos felizes (happy few) já não vivem com menos de 1000 dólares/dia.

 

2. Impotente e resignado por não termos verdadeiros símbolos angolanos, mas figuras partidarizadas como tal.


Não temos uma bandeira verdadeiramente de todos angolanos, ela é a imagem e à semelhança de um partido....


Não temos uma moeda igualmente de todos. O Kwanza é a imagem de Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos e, ambos, estão longe de reunir o consenso nacional de serem heróis com estatuto de representatividade em todos os povos e nações autóctones angolanas.

 

3. O Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional, até ele,  vergonhosamente, não reflecte a cidadania dos angolanos, mas a militância dos angolanos do MPLA, pois são os seus símbolos que ele carrega.

 

Esta é a minha impotência, porque numa mudança, nem símbolos angolanos vamos empunhar, como fazem os outros povos nas transições, nas eleições ou nas revoluções, contra os regimes déspotas e não só. Em Angola, por exemplo, quando ocorrer a MUDANÇA, seguramente, ela vai rejeitar todos os símbolos, sem excepção, por não reunirem o consenso geral.


4. O actual poder, casmurro no seu orgulho barroco, só mais tarde se vai aperceber que as maiorias e as fraudes não são eternas e não se aldraba vários POVOS eternamente...
E o MPLA não tinha necessidade disso, bastava ter uma visão de Estado, para se orgulhar de ter cunhado, para a eternidade, a sua marca nos símbolos angolanos. Mas ao optar por caminhar ORGULHOSAMENTE SÓ, igualmente, cairá o seu cordão umbilical...


Mas ante todas estas incongruências, reconheço, a minha, a nossa impotência é cúmplice face à DITADURA DEMOCRÁTICA DO PETRÓLEO, que nos (des)governa com mão de ferro e torna cúmplice a comunidade internacional, adormecida no cobertor do crude. 


 
5. E a minha impotência é maior depois de ter assistido a forma pacífica e sem batota fraudulenta, como decorreram as legislativas em Cabo Verde. Os cabo-verdianos têm símbolos que não são do partido no poder, como a bandeira, a moeda e o BI. São símbolos e orgulho de todos os cabo-verdianos por isso se via, orgulhosamente, a bandeira nacional, em todos os palanques partidários. Estas batotas o partido no poder em Cabo Verde já não carrega...


 
Por esta razão a comunidade internacional, destacando-se a União Africana deu ênfase aos avanços da democracia neste país, bem como à lisura, transparência e ética, evidenciada pelos concorrentes, pesem as acusações de uns e outros e ainda a vantagem natural do PAICV, que está no poder à10 anos e vai governar mais cinco. Mas aqui a culpa também foi da oposição, capitaneada por Carlos Veiga que adoptou uma má estratégia ao monopolizar a campanha em torno da sua imagem ao invés da do partido; o MpD.

 

6. Acusou-se o PAICV de receber, mais de 10 milhões de dólares do MPLA e o MpD, 1 milhão de Portugal, mas entre a especulação e a realidade a verdade ficou submersa nos meandros dos gastos da campanha para um país pobre...

 

Mas ainda assim, no geral a campanha decorreu, normalmente com o PAICV a explorar as fraquezas do principal adversário; o MpD. Noutro capítulo, foi bonito assistir o desempenho de Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA, que chefiou a missão de observação da União Africana. Como angolano fiquei contente e manifestei isso ao saudá-lo no Hotel Praia-Mar, face às cinco recomendações pertinentes que fez ao órgão eleitoral: a) - Fim das urnas opacas e sem selo de segurança (substituindo-as por urnas transparentes);


b) - Identificação dos membros das assembleias de voto;

c) Identificação dos representantes dos partidos políticos;

d) proibição da propaganda política próximo dos locais de voto;

e) fim da contagem dos votos à porta fechada.

No pedestal da sua autoridade, Roberto de Almeida, capitalizou e foi ouvido, pelos 17 observadores dos 11 países africanos presentes em todas as ilhas.


Seguramente, este dirigente, em Angola recomendando o mesmo, receberia uma chuva de críticas por favorecer o jogo da oposição...


7. Depois de Cabo Verde, aterrei no Egipto e, veja-se a coincidência do destino, na brincadeira, em Angola, havia dito ao Tio Setas, ao Félix, ao Nvunda e à Manuela, que se conseguisse com o apoio dos meus amigos desembarcar no Cairo, só de lá sairia quando Moubarak caísse, quis o destino que esta mera profecia se concretizasse. Obrigado Senhor, por me permitir acompanhar a partida de mais um ditador... 


Foi um feito único, viver e acompanhar no frio do clima, mas na quentura daquelas gentes na praça, nas tendas improvisadas, sob o olhar cúmplice dos blindados silenciados e dos militares, solidários com a pobreza geral, ante a riqueza da clique dirigente.

 

Foi um feito único, só possível, pelo esforço e facilidade dadas pelos meus amigos; Abdel e Baradei, que tudo fizeram para me infiltrarem no meio daquela eufórica multidão de homens, mulheres e crianças, recriando as verdadeiras revoluções.


Uma revolução no resgate do PÃO, da ÁGUA, do SAL, da LIBERDADE e da CIDADANIA, amordaçadas por um homem, no poder por mais de 30 anos. Um homem, que se corrompeu ao ponto de ser dos mais ricos do mundo à custa de dinheiro público. A sua família engalanava o séquito da rapinagem, tal como alguns homens da sua corte... Eles eram milionários, os outros eram pobretões. Em muitos aspectos, como o do controlo da economia, das riquezas, da banca, da oportunidade, por um grupo de dirigentes e familiares, era um retrato do que se passa, actualmente, em Angola.


Moubarak alterou a constituição (recordemo-nos da angolana) à sua imagem e semelhança, perseguia os opositores, prendia e assassinava, os intelectuais e os jornalistas, que não o bajulassem.


Moubarak suprimiu a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a liberdade de manifestação, pois, tal como em Angola, julgava, que controlando tudo, tendo sob a sua bota, os órgãos de comunicação pública, comprando a privada, colocando-a na mão do filhos e dos seus homens de campo, teria o poder eterno.


Com as empresas de telecomunicações, maioritariamente sob a alçada do filho Gamal, acreditou, que toda insatisfação seria abafada se a sociedade civil e oposição quisessem utilizar esse recurso...


Enganou-se


O povo vivia no sufoco, por esta razão, chorei, no meio da Tahrir Square, ao assistir a resistência dos jovens, mesmo quando nos últimos dias, Moubarak, sugeria não abandonar o poder e que iria proceder a reformas, o povo disse não! Pois quem em 30 anos não mudou, não seria em seis meses que o faria, por isso: VAI MOUBARAK, FORA MOUBARAK, gritavam as milhares de vozes.

 

Essa força, fez-me, sim, chorar e acreditar que um homem chora sim, quando se solta a sua sensibilidade na lembrança comovida de feitos antes vividos, pelos angolanos, como aqueles do 25 de Abril de 1974, quando nas cadeias, das cidades e dos maquis, recebemos a notícia de que em Portugal, a Revolução dos Cravos, derrubava o regime de Caetano e Salazar, pondo fim a 500 anos de colonização portuguesa em Angola.


Chorei por rever naquela nossa força, no nosso grito, na nossa sede de então o clamor por um Estado mais justo, diferente do colonial. Chorei no Cairo, no Egipto, por ver como uma mola de jovens, movidos pelo sentido de mudança e do seu papel no tempo, munidos apenas com penas, gritaram, gritaram e com esse GRITO, imobilizaram um dos 10 maiores exércitos do mundo, reuniram a sua solidariedade e demoveram o ditador a sair de cena, sem honra nem glória, demonstrando ser este o fim dos ditadores de todo o mundo, que se arrastam no poder, pensando serem eternos e de o país sucumbir com a sua queda do poder.
MENTIRA!


No Egipto o povo e o Exército demonstraram que não, e que serão capazes de garantir uma transição pacífica, rumo a uma verdadeira democracia.


Viva a revolução dos jovens egípcios que já está a contaminar a região e bem poderá descer para a África do Leste, Central e Austral...


O que, fatalmente, mais cedo ou mais tarde acontecerá.



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