Luanda - O famoso kudurista Sebem deverá, em breve, ser levado à barra do Tribunal, por ter praticado, na semana passada, um alegado crime de agressão física e verbal contra um agente de autoridade.


Fonte: Semanario Angolense


O músico, detentor de um vasto cadastro policial, deverá responder a uma queixa-crime que lhe foi movida pela Unidade Operativa do Trânsito.Registado sob o número 1583/011, o processo de polícia correccional corre os seus trâmites e, brevemente, será remetido ao Tribunal de Polícia pela Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC).

 

Ao cantor, que escapou a detenção por se ter posto em fuga, foi-lhe, entretanto, apreendida a sua viatura, um Chevolet-Brazer, com a matrícula LD-77-11-CF, de cor preta.

 

Segundo apurou este jornal junto desse órgão de investigação criminal, o kudurista, que é igualmente apresentador de um programa no canal 2 da Televisão Pública de Angola (TPA), é acusado de ter ofendido física e verbalmente um agente do trânsito, no passado dia 17 deste mês, à Vila Alice.

 

O cantor terá consumado a agressão, depois ter sido surpreendido por um agente motorizado quando, no exercício da condução, fazia uso do seu telemóvel.

 

O episódio ocorreu à rua Lourenço Mendes da Conceição, quando Sebem, ao volante da referida viatura, de vidros fumados, ao ser interpelado, ter-se-á limitado a baixar um dos vidros e, sem mais nem ontem, mandado o agente ir «para o c….».

 

Numa manifesta atitude de desato, o músico continuou a sua marcha, tendo sido perseguido pelo agente motorizado. O SA apurou tratar-se do 1.º chefe Timóteo Fernando, afecto à Unidade Operativa do Trânsito de Luanda.

 

O músico dirigiu-se para uma residência localizada no mesmo bairro, mais concretamente, à rua Aníbal de Melo, onde estacionou a sua viatura. Frente à referida moradia, que fontes do SA dizem ser pertença do seu sogro, um coronel da FAA, Sebem foi alcançado pelo agente policial. Este solicitou-lhe à carta de condução, ao que o kudurista terá respondido, em termos grosseiros, que não a entregava por ser uma «figura pública».


Chamado à razão, Sebem não só terá dirigido novas palavras injuriosas contra o agente de autoridade, como também o terá agarrado pelos colarinhos.


Dizem testemunhas que assistiram ao desacato, presenciado por muitos curiosos, que o agente do Trânsito terá ficado com a farda amarrotada e perdido dois botões na camisa.  «Sou uma figura pública e mais importante do que tu na sociedade. Vai para o c…», terá dito o músico, aparentemente a transbordar de raiva.

 

De seguida, o kudurista dirigiu-se ao interior da residência, de onde viria a sair volvidos alguns minutos, na companhia da sua esposa e sogro. A partir do quintal, Sebem terá dirigido outras palavras injuriosas e menos simpáticas contra o 1.º chefe Timóteo Fernando. Por questões de pudor, para não ferir os ouvidos mais sensíveis, o SA optou por não reproduzi-las.


«Eu não só boêlo como o Nagrelha…», terá dito o apresentador televisivo do alto da sua cátedra, numa clara alusão à recente detenção daquele kudurista, por posse de cocaína.  Há indicações de que a mulher e o sogro do cantor terão juntado às suas vozes ao coro de vaias e de humilhações a que foi sujeito o agente da URP.


Apreensão da viatura

 

Este jornal soube que efectivos da 3.ª esquadra afecta à Divisão policial do Rangel, junto ao «Pau da cobra» mobilizaram-se pouco tempo depois, a fim de procederem à detenção do irreverente kudurista, mas não foram bem-sucedidos na sua missão.

 

Quando chegaram à residência do sogro do cantor, já Sebem tinha se posto ao fresco. Provavelmente, terá empreendido a fuga pelas traseiras da residência, sem deixar rasto. De forma a «compensar» o esforço, os agentes policiais ter-se-ão contentado em levar a viatura do músico. Trata-se de um «Chevolet», de vidros quase todos fumados e com a chapa de matrícula de caracteres inferiores aos definidos pelo Código de Estrada.

 

«Sempre a subir» em desacatos
Uma polémica «figura pública»

 

Conhecido pela sua postura extravagante com que se apresenta em público, sendo os traços mais marcantes o cabelo oxigenado e as roupas singulares que exibe, o músico Sebem é uma das mais controversas figuras públicas do nosso panorama musical.

 

Ele que, ao longo de vários anos, tem sido uma das vozes que mais têm se batido pela paternidade do kuduro, um género de música e dança que leva uma parte da nossa juventude quase à histeria, tem vindo a revelar-se como um personagem em permanente conflito com a lei.


O seu «portfolio» é rico em episódios de desacatos policiais, sendo por isso uma figura que mais tem estado «a subir» nos meios judiciais ou, antes, uma presença quase habitual nas «estatísticas» policiais.

 

Em 2007, quando da realização do Afro-Basquet em Luanda, Sebem foi detido e condenado, por desacatos e injurias a agentes de autoridade, a uma pena de prisão suspensa pelo Tribunal de Polícia.


Na altura, o músico, provavelmente, embriagado pelo estatuto de figura pública, entrou em atritos com agentes policiais que se encontravam de serviço no pavilhão gimnodesportivo da Cidadela.  Levado a tribunal, o cantor não só mostrou arrependido, como também prometeu mudar a sua postura. Ledo engano!

 

Não passou muito tempo para que no ano seguinte, ou seja em Dezembro de 2008, o kudurista fosse novamente detido e julgado por crimes de desacato, incitamento a motim e injurias à autoridade.

 

Sebem era ainda acusado de ter atropelado um agente da polícia, mas acabou por ser absorvido por não terem sido provadas em tribunal as acusações que pesavam sobre si. Aliás, viria a beneficiar do princípio «in dúbio pró réu», ou seja, na dúvida absolve-se o réu. Apesar de possuir antecedentes em matéria «criminal», que, em boa verdade, não constituem nenhum espelho de virtudes ou exemplos de moralidade para a sociedade, o kudurista é, paradoxalmente, um dos convidados da Semba Produções para a apresentação de um programa de entretenimento no canal 2 da «nossa» televisão pública.


Em relação ao comportamento de algumas figuras públicas, que se julgam estar acima da lei, o Semanário Angolense convidou o conhecido sociólogo Paulo de Carvalho para se pronunciar sobre o assunto, ao qual não está dissociada a crise de valores que enferma a nossa sociedade.


 
Segundo o sociólogo Paulo de Carvalho


Valoriza-se o fútil em detrimento da competência

 

1- Não se admite que haja pessoas a quem a sociedade luandense atribui notoriedade, que não saibam retribuir com comportamento socialmente digno. Por exemplo, um pintor notável não deve envolver-se em desacatos à autoridade, sob o risco de perder tal notoriedade. E isso não tem a ver com atitude boémia, que é uma coisa que se admite (mas com limites).


2- Existem realmente pessoas que pretendem atingir a notoriedade sem grande esforço. E esta não é apenas uma característica de Angola, pois pessoas dessas existem em todas as sociedades. O que é preciso é que a nossa sociedade esteja preparada para isso e não lhes atribua a notoriedade pretendida, sem o requerido esforço.


3- A verdade, porém, é que a nossa sociedade urbana tende a valorizar mais algumas pessoas que se encontram para lá da barreira daquilo que é moralmente admissível, do que (por exemplo) um mecânico que trabalhe 12 horas por dia e, assim, consiga sustentar a família de forma honesta e socialmente útil. Valoriza-se o fútil, em detrimento do esforço e da competência. Por exemplo, valoriza-se mais um diploma do que a competência, ainda que se saiba que o diploma foi comprado (ou foi conseguido com cábulas ou a troco de alguma coisa, o que vai dar no mesmo).


4- Isso está relacionado com a crise de valores que grassa pela nossa sociedade urbana, a qual poucos somos aqueles que pretendem realmente combater. Um pouco por toda a Angola urbana, pretende-se alcançar o lucro de forma rápida e fácil, nem que para isso seja preciso ludibriar. E quem não alinha nesses esquemas, é considerado (no mínimo) burro. E olhe que falo com conhecimento de causa. Ora, assim não vamos a lado algum; assim não poderemos pensar em desenvolver o nosso país; assim teremos de continuar a importar quem venha pensar por nós. E os rendimentos dessas pessoas vão continuar a proporcionar o crescimento de outros países – e não de Angola.

 

5- O que é comum, hoje em dia, em Angola?

O comum é cada um pretender «caminhar mais depressa» que o outro, ainda que isso implique passar por cima desse outro (não importa quem ele seja). Quem vende quer lucrar mais do que quem produz e cada um quer mendigar, quase exigindo que o outro lhe dê alguma coisa sem esforço. Vejamos um exemplo caricato, do sector do comércio: uma flor pode custar 200 kwanzas, mas 2 flores iguais já custarão 500 kwanzas e 3 flores mil kwanzas – quando deveria ser o contrário, ou seja, se uma flor custa 200 kwanzas, duas flores deveriam custar 350 e três flores, 450 kwanzas; ou então uma flor custar 200 kwanzas e 3 flores 500 kwanzas. O exemplo que dei é coisa que acontece mesmo, porque cada um pretende lucrar o máximo, sem qualquer lógica e com o mínimo de esforço. Já lá vai o tempo em que se lutava para ganhar uns trocados; hoje passou a fazer sentido ganhar fortunas em pouco tempo, ainda que isso implique «vender a alma».


Enquanto se mantiver esta tendência e enquanto não houver moralização real das instituições públicas, não tenhamos ilusões, que mais longe estará a meta de ultrapassarmos a crise de valores.



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