Lisboa - Nunca gostou da derrota. Nem quando jogava futebol na rua, nem quando era avançado da selecção. O estratega do Conselho Nacional Líbio não quer o poder.


*Ana Gomes Ferreira
Fonte: Publico


Soa a ficção, mas é verdade. Havia um juiz na Líbia que dava sentenças contra Muammar Khadafi. Não foi demitido, não foi preso. Foi convidado para ser ministro da Justiça e aceitou. Na televisão pública, falava dos abusos do regime, frente-a-frente com o coronel, fazia-lhe críticas abertas e duras. No dia 15 de Fevereiro, Mustafa Abdel Jalil demitiu-se para se tornar o estratega do Conselho Nacional Líbio (CNL), a formação que comanda a revolta armada e, na cidade de Bengasi, vai criando estruturas para quando chegar a altura de esta ser o poder em Trípoli.

 

Provavelmente não se livrará de um cargo. Mas este homem nascido em 1953 diz que, quando a vitória chegar, não quer o poder. Não é o que lhe interessa. Prioritário é, para este advogado, que a próxima Constituição seja correcta, que reconheça os direitos políticos e os direitos cívicos dos cidadãos. Que a lei seja aplicada correctamente e que o percurso da oposição esteja dentro da lei, ou seja, quer um Estado de direito que sustente a democracia.

 

Foi por isso que uma das suas prioridades foi enviar emissários à Europa, para obter legitimação no campo internacional para o Conselho Nacional - Mahmoud Jebril, que actua como primeiro-ministro deste governo paralelo ou provisório, partiu para França, arrancando logo a um país da União Europeia o reconhecimento do CNL como único representante do povo líbio. E só quando este reconhecimento se alargou e os Estados árabes chancelaram uma intervenção estrangeira para ajudar a oposição, as decisões começaram a ser tomadas: o Conselho criou uma nova empresa petrolífera, esvaziando o papel da já existente que geria a produção e as receitas para Khadafi; o Conselho anunciou que os actuais embaixadores já não representam a Líbia e que vai escolher os novos.

 

Uma jogada de um homem do Direito. Mustafa Abdel Jalil nasceu na cidade de Al Bayda. Quando era menino, do que gostava era de jogar futebol. Jogava bem, recordou ao Financial Times um amigo de infância e hoje advogado, Adbullah al-Mortdy. De que mais se recorda o amigo? "Ele não gosta de ser derrotado." Nem quando jogava na rua, nem quando jogava no campo, porque Jalil fez carreira e pertenceu à selecção nacional Líbia - era avançado e um dos jogadores mais populares da época.

 

Em 1975, licenciou-se em Sharia e Distrito na Faculdade de Língua Árabe e Estudos Islâmicos e começou a trabalhar no Ministério Público. Mas três anos depois foi nomeado juiz e a sua carreira começou de verdade. O homem que já era famoso pelo futebol ganhou notoriedade proferindo sentenças que contrariavam claramente as orientações e os interesses do dirigente do país, o coronel Muammar Khadafi. O que pensam que lhe aconteceu? Khadafi chamou-o para ministro da Justiça - porque percebeu que, nesta matéria, precisava de ter alguém com boa reputação, explicam agora os analistas. Podemos dizer que lhe saiu o tiro pela culatra.

 

O ministro - tomou posse em 2007 - não teve qualquer pudor ou medo em aparecer na televisão pública, no ano passado, criticando o regime por não acatar as decisões dos tribunais e manter em cativeiro 200 presos políticos.

Em directo, Mustafa Abdel Jalil anunciou mesmo a sua saída do Governo de Khadafi, mas o coronel não aceitou a demissão. Nem depois de a organização não governamental Human Rights Watch ter divulgado um documento elogiando a denúncia do ministro. "O ministro Mustafa Jalil pediu publicamente a libertação dos prisioneiros, mas a Agência de Segurança Interna, que os tem detidos, recusou. O ministro disse não poder abrir uma investigação aos abusos da Segurança Interna, porque esta tem imunidade. Só o ministro do Interior a pode retirar, mas tem-se recusado", lê-se no site da Human Rights Watch.

 

Segundo fontes ouvidas pelo Financial Times, Jalil era o único na "entourage de Khadafi" - fortemente familiar, o que diminui a possibilidade de crítica e também a possibilidade de surgir de dentro o seu afastamento - que lhe fazia frente, que expunha argumentos desagradáveis e que o criticava.É por isso que é o cérebro e a figura moralizante da oposição. Aliás, não há quem ouse apontar-lhe o dedo por ter feito parte do regime.

 

E tivesse ou não essa vontade, quando no dia 15 de Fevereiro abandonou o Governo e aderiu à revolta, é a ele - um rosto conhecido no país de norte a sul e com uma reputação imaculada - que todos querem ouvir para perceberem as posições oficiais do Conselho Nacional Líbio, uma complexa e até confusa aliança com 31 representantes (por enquanto as razões de segurança só permitem conhecer 11 deles) que Jalil tem conseguido manter coesa.

 

Assim, com cautela - não tivesse ele por hobby a criação de abelhas - e muita diplomacia para não ferir os muitos poderes da Líbia (os regionais, os tribais...), este senhor elegante a quem todos elogiam a voz suave, vai comprometendo o país com um rumo político. Usa frases que ninguém contestará: "Desejamos um Estado democrático, republicano e civil, que respeite os tratados internacionais e o direito internacional, assim como os direitos humanos e que denuncie o terrorismo."



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