É uma grande contradição e uma vergonha que os dirigentes Africanos não consigam despir-se da era de amiguismo. Fica-se aqui solidário com a palavra magistral do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso: «não se compreende que dirigentes africanos que se bateram para libertar os seus países e povos hoje negam a mesma aos seus». O mais grave para o pobre povo Africano é que a Europa cede a chantagens, como aconteceu ao forçar a ausência de um dos membros mais influentes, a Inglaterra. Por causa do seu interesse económico sacrifica a democracia e enaltece a cultura da culpabilidade a que muitos países africanos se agarram para justificar as suas fraquezas de governação.

A inexperiência na governação, os sistemas de governo adoptados logo após as independências, o alto nível do analfabetismo foram factores que contribuíram para a fraca cultura democrática das sociedades africanas. A eles se junta a desaculturação de algumas sociedades da Africa, e a falta de respeito pelas ideas uns dos outros. Em consequência, sofreram transformações, senão mesmo destruição, com resultados que se procura corrigir com o advento da democratização do continente.

Muitos dos valores morais na maioria dos países africanos foram destruídos na luta pelas independências, nas guerras civis que se seguiram e nas lutas ideológicas. Estes conflitos trouxeram novos hábitos e novas formas de relacionamento, o enriquecimento fácil, a ociosidade galopante.

Em Angola, por exemplo, houve quem recebesse altos salários sem nada fazer. Um empregado de uma empresa comercial atende os clientes como se estivesse fazer-lhes um favor e os serviços públicos fazem ainda pior.


Como libertar a África de hoje dos libertadores de ontem

É tudo isso que a nova geração de dirigentes africanos precisa de equacionar e vencer se quer ver o continente progredir. Se ontem a Africa se libertou do jugo colonial, hoje ela precisa de se libertar dos seus libertadores, uns feitos ditadores e outros aristocratas e latifundiários. Quem fará esse combate de mudança? A geração de ontem, com seu passado a enterrar, ou a geração do futuro que é por enquanto, de sonhos? Nem uma nem outra – esta tarefa é ainda da geração de hoje. Esta geração deverá capacitar-se em encontrar em cada dia o quê  e o porquê  das coisas e como se ultrapassar os males que enfermam as nossas sociedades.

É possível mudar o quadro actual com trabalho árduo junto das populações; com programas concretos e exequíveis. A primeira batalha a vencer é a do medo. Medo de morrer, medo da mudança, porque Países houve que governaram os seus povos na base do medo. Tomemos o exemplo de Angola, onde a teoria da violência venceu a mente dos angolanos, onde a vida de um animal irracional podia apresentar-se como mais preciosa do que do Homem.

Que não se chore pelo leite derramado, mas é necessário ter-se isso em conta para se inverter a situação que é ainda predominante na maioria dos países do continente Africano. Para mudar para melhor, África precisa de uma nova geração de dirigentes, com um olhar novo sobre as nossas sociedades.

Estes jovens devem pautar-se por um novo comportamento, uma mudança de mentalidade. Transformar as experiências negativas do passado em acções correctas no presente. O novo comportamento tem a ver com a forma de governar. Aquele que estiver a dirigir um dado País deve ter a noção que está ali para servir a colectividade, os interesses de todos, não propriedade pessoal dos seus entes ou de um grupo.

Uma nova visão se impõe, e há grandes lições na governação dos povos. Já dos tempos dos nossos antanhos se sabe que o poder corrompe o Homem. É preciso haver respeito pelos mandatos. E quanto mais reduzidos eles forem, melhor será. Respeito pela Constituição e outros documentos reitores. A verdadeira separação de poderes – o Executivo, o Legislativo e o Judicial – e não a subordinação de dois últimos ao primeiro, como se verificou e se verifica ainda em alguns países.

Principalmente, os futuros líderes e candidatos a dirigir o Continente terão de fazer uma aliança com os seus povos e não só entre eles. E foi justamente o contrário a acontecer recentemente no Zimbabué. Apesar do regime de terror infligido às sua populações, Robert Mugabe recebeu a solidariedade dos dirigentes africanos. São essas atitudes que a nova geração deve negar.


O Imperativo da Reconciliação

África não deve seguir o exemplo do que aconteceu depois da II Guerra Mundial com Nuremberga, julgando este ou aquele dirigente Africano no Tribunal Internacional. Isto não resolve os conflitos provocados pelas crises após as independências, e nem tão pouco se estará a fechar o ciclo negativo do passado, porque quem se seguir no poder é tentado ao ajuste de contas.

A África do Sul de Nelson Mandela teve uma visão sábia. Fechado o ciclo do passado, certamente os novos e futuros governantes deverão seguir com rigor o preceituado nas suas constituições e na ordem continental e internacional. O contrário desta visão é prolongar os conflitos.

Em todos os conflitos mundiais, seja em África, na Europa, América ou Ásia, houve sempre situações de violações de direitos humanos, de crimes contra a Humanidade cometidos por todas  as partes em conflito. A diferença é que uns foram mediatizados, de acordo com os interesses dos poderosos do Mundo.

A solução a dar aos problemas provocados pelos conflitos armados após entrada na normalidade Institucional exige cautela. É fácil pedir punição, mas avançar um passo em frente exige reflexão.

O continente berço da humanidade é ainda virgem, necessitando apenas de homens corajosos excepcionais que possam levar avante os destinos dos seus povos.
A hora é da Africa, a hora é da juventude emergente, a hora é da mudança que só será possível com a alteração  de mentalidade das suas gentes, mas sobretudo das suas elites dirigentes.

Se esses futuros homens fortes do continente cultivarem o espírito de irmandade, o espírito de servir e não de se servir, de governar com honestidade e responsabilidade e aceitando mais uma vez o espírito de sacrifício, poderemos arquitectar o desenvolvimento sustentável do continente. Então se poderá dizer “Bem haja a libertação da Mãe Africa!”

* Vice-Presidente da UNITA
Fonte: Africa Monitor



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