Luanda - Segundo realtos dos jovens no seu website "Depois da notícia da ameaça de morte que sofreu o nosso companheiro, Carbono Casimiro, no passado dia 7 de Abril, e somando-se às demais ameaças a que alguns de nós foram sujeitos ao longo destas últimas semanas, decidimos fazer uma denúncia formal destes graves acontecimentos, tanto à Polícia Nacional como a outras organizações de defesa e observação dos direitos humanos como a Amnistia Internacional e Human Rights Watch."


Fonte: http://centralangola7311.net

Ameaças vieram do terminal +244923260144

Considerando que se trata aqui da preservação ou não da nossa integridade física e da segurança dos nossos mais chegados, publicamos aqui na Central a carta endereçada a Ambrósio de Lemos, comandante-geral da Polícia Nacional (PN), juntamente com os relatórios de outros companheiros que também sofreram ameaças.

 

É fundamental que haja vigilância e colaboração de todos os sectores da sociedade para que não exista nenhum acto de violência contra cidadãos que estejam contra as políticas do regime. Não é ofensa querer manifestar publicamente o nosso descontentamento. Ofensa é, outrossim, não poder fazê-lo sem ser imediatamente intimidado. É ofensa porque é um desrespeito dos nossos direitos básicos, da nossa liberdade e autonomia. Nós queremos uma liberdade onde possamos assinar com o nosso nome, assumir as nossas opiniões e defendê-las com palavras, sem actos de violência pelo meio. Só assim Angola será realmente livre e independente: quando os angolanos forem também livres e independentes.


Como diz a frase: “Posso não estar de acordo com o que dizes mas luto para que o possas dizer”.

 

A Central 7311

CARTA AO COMANDANTE-GERAL DA POLÍCIA NACIONAL

AO COMANDANTE-GERAL DA POLÍCIA NACIONAL

 

EXMO SR. AMBRÓSIO DE LEMOS

Saudações, ilustre senhor:

É com algum pesar e consternação que resolvemos, pela segunda vez num tão curto espaço de tempo, fazer apelo à sua retidão e decoro, sendo no entanto esta carta meramente informativa de ocorrências de extrema gravidade no seio de alguns dos envolvidos na organização da reunião/manifestação que ocorreu no dia 2 de Abril.

 

O motivo de recorrermos directamente a si, é por acreditarmos que se a manifestação do dia 2 de Abril foi um sucesso e até mesmo um exemplo a nível de segurança e respeito entre manifestantes e PN, contribuindo para a democracia do nosso país, isto deveu-se à carta que lhe endereçámos um dia antes e que, felizmente, foi bem interpretada da vossa parte. Caso contrário, as instruções que teriam era a de nos circunscrever ao Parque da Independência, o que teria provocado um certo mal-estar generalizado.

 

Se acaso acompanha as notícias que circulam pela internet, há-de ter reparado que aqueles de nós que fomos entrevistados, fizemos sempre questão de sublinhar o papel exemplar e discreto da nossa polícia no dia da reunião/manifestação, respeitando escrupulosamente as leis que vão regendo o nosso país no que concerne a esses direitos específicos.

 

Desta vez escrevemos, contudo, mais do que para agradecer, para denunciar o que poderá ser o prenúncio de uma caça às bruxas a alguns dos cidadãos que, exercendo um direito consagrado não só na nossa Constituição e na dos outros países que se proclamam democráticos, como na Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas no seu artigo XVIII, se vêem sujeitos a pressões psicológicas de todo o tipo. A mais grave foi verificada na noite de quinta-feira, 7 de Abril, pelas 22 horas, quando dois sujeitos encapuzados entraram no quintal onde vive o jovem Dionísio Casimiro, dispararam um tiro e proferiram de maneira sonora e inequívoca “vamos te apagar!”. Em seguida retiraram-se com a promessa de voltar. Felizmente, e contrariamente ao que é a sua rotina, o Dionísio não estava em casa a essa hora, tendo por isso escapado à ira dos jovens meliantes.

 

O Dionísio foi esta manhã apresentar queixa formal no Comando Municipal do Rangel, registada pelo agente Barbosa da investigação criminal, sem que nos tenha sido dado o nº do processo que ficou de se ir saber na segunda-feira, dia 11 de Abril. Dada a estranheza do crime e a recém actividade cívico-política do visado, estamos em crer que se trata de uma perseguição política com o intuito de intimidá-lo. No entanto, com assuntos que envolvem ameaças explícitas à nossa integridade física não devemos limitar-nos a conjeturar, pois é assunto de extrema gravidade.

 

Obriga-nos ainda sublinhar que não se trata de um caso isolado. Outros jovens deste grupo receberam ameaças de ordem diversa, ameaças essas que anexamos a esta missiva para que possa também estar a par-e-passo dos contornos sombrios desta história.

 

Estamos conscientes de que não devemos importuná-lo com todo e qualquer assunto e que existem estruturas funcionais dentro da polícia para se ocuparem de casos de toda a ordem e natureza. No entanto, a nossa intenção era tão somente comunicar-lhe estas ocorrências, da mesma maneira que já o fizemos com as diversas organizações que monitoram os direitos humanos, dentro e fora de Angola, para que tenham conhecimento de mais esta arbitrariedade que é um dos infortúnios que continuam a minar a imagem da nossa bela e amada pátria.

 

Acreditamos que os agentes da investigação criminal que irão ocupar-se do caso, fá-lo-ão com seriedade e profissionalismo, dignificando o nome da nossa polícia que tantos esforços tem envidado na construção de uma imagem cada vez mais idónea e digna do respeito dos seus concidadãos.

Agradecidos pela atenção e sem mais de momento nos despedimos mui respeitosamente.

 

AMEAÇAS AOS JOVENS CO-ORGANIZADORES DA MANIFESTAÇÃO DO DIA 2 DE ABRIL

 

Nome: António Medil Campos

Relatório de ocorrência:

Medil Campos foi um dos detidos na manifestação do dia 7 de Março de 2011, no Largo da Independência, durante a madrugada.


Alguns dias depois do dia 7, uma senhora, usando o pretexto de ter sido sua professora durante o ensino médio, foi recolher informações entre os vizinhos.


Suspeitou-se da senhora, pois Medil Campos nunca estudou na escola a que ela se referia.

 

Dias depois, duas pessoas sem se identificarem foram à casa de Medil Campos aí encontrando sua mãe, com quem falaram. Mostraram os pequenos panfletos que distribuímos dias antes da manifestação, alegando que ele tinha os tinha distribuído em escolas a mando dum partido da oposição, a UNITA, que foi a segunda parte beligerante envolvida na guerra civil de 1975 à 2002. Sugeriram à mãe de Medil que conversasse com ele, lhe aconselhasse a ter cuidado e parar de fazer o que estava a fazer, assustando assim a sua mãe e outros familiares que ali moram.


Havia, na manifestação de dia 2 de Abril e na reunião de dia 4 de Abril, pessoas infiltradas e alguns dos participantes alegam ter sido seguidos até as suas casas.

 

De assinalar também que duas semanas antes da manifestação de dia 2 de Abril, começou-se um protesto espontâneo no largo da independência sobre a violência à liberdade de expressão em Angola, e o local já se encontrava sob vigilância de indivíduos de índole suspeita, que filmavam e tiravam fotografias às escondidas.

 

 

Nome: Massilon Leonardo Kutekila Chindombe

Relatório de ocorrência:


Chamo-me Massilon Leonardo Kutekila Chindombe, cidadão angolano recentemente tornado activista em prol das ausentes e/ou carentes liberdades no meu país.

 

No dia 7 de Março de 2011, aderi a uma convocatória anónima que circulou pela internet e tinha como propósito pedir o fim do regime. Neste mesmo dia fomos detidos à revelia, encarcerados e soltos pouco menos de 10 horas depois, sem nos ter sido comunicada a razão da nossa detenção.

 

Motivado por estas atrocidades e, na certeza de não ter cometido crime algum nem nada ilícito, continuei a insistir nessa reivindicação. Desta feita, de forma mais activa e não como mero participante, juntamente com amigos entre os quais alguns também faziam parte do grupo que havia sido detido no dia 7 de Março.

 

No decurso das nossas actividades, concedi uma entrevista a uma rádio local, “Ecclésia”, falando sobre a manifestação que convocámos e que teve lugar no dia 2 de Abril de 2011 com o lema: a liberdade de expressão em Angola. Após a entrevista venho recebendo chamadas e SMSs que transcrevo abaixo, pondo em risco a minha integridade física:

 

Dia 29-03-2011

Moço, não viva por ver os outros a viverem.

Lembre-se que cada um tem a sua mãe e mesmo os gémeos

Cada um nasceu distinto do outro. Se voltares a fazer o que

Fizeste, serás um homem morto.

 

Dia 07-04-2011

Oh Massilon, desperta rapaz. De capanga bastou o teu pai, miúdo acorda qual é a cor do Luaty, Carbono, Elsa, Bonavena, Patrocínio, Manuel Vitória Pereira e tantos outros que estão a frente da manifestação. Tu tens para onde ir? Eles têm, para além de que estão assegurados e tu, o que tens? Olhe para os teus irmãos. Estuda e prepara o teu futuro antes que voltes para o Diríco sem nada.

 

Estas mensagens e as chamadas tiveram origem do número +244923260144 da operadora de rede móvel UNITEL, que logo a seguir fica fora de serviço, pelo que se me revela impossível retornar as chamadas.

 

Já por uma vez, encontrando-me ausente de casa, pessoas estranhas bateram à porta e quando a minha esposa foi abrir, dois indivíduos de rosto coberto deram as costas e foram-se embora.

 

Todos estes factos, sabendo que os mesmos dão-se depois da minha declaração e participação activa em actos que visam repudiar a má governação a que eu considero estarmos sujeitos, fazem-me ligá-los ao regime governamental, o que me leva a torná-los públicos.



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