Luanda - O que é que lhe move a concorrer à presidência da Federação Angolana de Futebol (FAF) uma vez ter feito parte da actual direcção que está de saída, acusada de ter levado o futebol para caminhos menos desejados?


O que me move é o facto de ter entrado na Federação há cerca de dois anos, e ter percebido que a FAF precisava de ganhar outros rumos de organização e também por percebido que muitas das contestações têm base sólida. Dai que tendo sido parte do elenco fui apresentando projectos quer na área do desenvolvimento do futebol jovem, quer na reestruturação da própria organização da FAF. Como esses projectos foram aceites e podiam ser factores de mudança, e também em função da realização dos campeonatos jovens que a mim coube organizar, percebi que era necessário trabalhar com os clubes para se buscar os caminhos certos do futebol em Angola. E foi sobretudo esse último aspecto que me move a concorrer. E igualmente o facto de algumas pessoas quer dentro da federação quer fora acharem que reunia requisitos para assumir a direcção da federação. Também por ter tido conhecimento que algumas pessoas não muito correctas estavam a se movimentar para ir à FAF. Por essa situação, achei por bem apresentar a minha candidatura.


*Teixeira Cândido
Fonte:  O Pais




Chegou a ponderar o facto do seu nome estar associado a este elenco e isso lhe prejudicar?


De maneira alguma. Nunca pensei nesse facto porque pude perceber que quem está por dentro do futebol, e sobretudo acompanhou a própria dinâmica da Federação Angolana de Futebol nos últimos dois anos, período em que fiquei dentro do elenco, pode perceber que a minha postura dentro da FAF era diferente. E marcou-me bastante a dinâmica dos campeonatos jovens, a que fui incumbido de organizar em 2009/2010. Alguns chegaram a considerar ter sido dos melhores já organizados e isso me marcou bastante, o que me deixa a vontade para concorrer, mesmo estando num elenco muito criticado, acho que cumpri o meu papel. Fiz aquilo que deveria ter feito, penso.



A vigência da próxima direcção será apenas de um ano. O que é que a vossa lista prepara para esta primeira etapa?

Nós temos no nosso programa três metas. Para curto, médio e longo prazo, como é habitual nessas situações. O grande objectivo é mesmo a reestruturação da Federação Angolana de Futebol, trabalharmos muito fortemente na reestruturação dos estatutos, ajustá-los a realidade actual quer a nível do Regime Jurídico das Associações Desportivas quer da legislação da FIFA e da Confederação Africana de Futebol. Por outro lado, podemos desenvolver outras acções que visam dar uma base sólida de organização, que nos permitam depois realizar os trabalhos de médio e longo prazo. Por exemplo, a nível da arbitragem, que tem sido uma polémica tremenda. Temos de dar tranquilidade aos aficionados do futebol, tirarmos a arbitragem da responsabilidade dos clubes. O alojamento e os prémios dos árbitros não podem ser da responsabilidade dos clubes. Acho que essa medida terá um grande impacto, pelo facto de existir muitas suspeitas de corrupção. Para melhor concretizar essa ideia, pensamos trazer connosco um parceiro, a Associação dos Árbitros. Nós vamos ajudar essa associação a ser organizar e pensamos que será um grande parceiro na organização da arbitragem no país.



Outras das questões que se levanta nesse um ano de mandato são as dívidas. Diz-se que a FAF tem muitas dívidas. Qual é a fórmula para resolvêlas.


Temos de fazer um diagnóstico profundo dessa dívida, e em função do volume do passivo que encontrarmos, vamos estabelecer um período de renegociação. E estabelecermos uma forma de como vamos liquidar este passivo. Acho que há uma série de questões como a dívida com o treinador e com os jogadores que devem ser resolvidas no imediato. E para isso a Federação Angolana de Futebol deverá ter alguns recursos. Porque tendo iniciado só agora a época com certeza que existirá alguns recursos, sobretudo aqueles que a FAF tem de receber.



Segundo o Ministério da Juventude e Desportos o orçamento da FAF é de um milhão de dólares. E o ano já vai a meio.

É um montante que poderá ajudar, caso a FAF ainda não tenha recebido.

Mas sobre esta matéria nós temos uma visão diferente. Não podemos ter uma grande dependência do Estado quanto a que temos hoje. Entendemos que o marketing tem de ser um grande veículo para a nossa gestão. Temos de ir buscar mais patrocinadores. Precisamos no mínimo de 13, por forma a que possamos atribuir a cada área da actividade da FAF um patrocinador especializado. Um para arbitragem, um outro para o departamento das selecções nacionais e outro para os campeonatos nacionais, por exemplo.



E para isso contamos fazer um trabalho muito forte de imagem, numa primeira fase, a FAF tem de refazer a sua imagem junto dos patrocinadores.

Já temos um projecto detalhado sobre aquilo que será o marketing da FAF.

Já conseguimos inclusive alguns patrocinadores, por exemplo, a embaixada alemã, que será um dos grandes parceiros para a formação do futebol.

Penso que se formos para a FAF ficam reunidas as condições primárias, digamos assim, para não depender muito do Estado. Nós queremos é tornar a FAF cada vez mais independente financeiramente. Pois que se a FAF tiver maior autonomia financeira passa também a ter maior independência na gestão de alguns assuntos.

Na hipótese de Angola não se qualificar para o CAN2012, como é que vocês pensam atrair patrocinadores, quando o produto principal da FAF é o futebol?



Nós queremos fazer uma gestão que assenta num futuro de médio e a longo prazo. Ou seja, a ideia é nós mostrarmos um rosto novo aos patrocinadores com o rejuvenescimento das nossas selecções, o que nos abre perspectivas de num futuro de quatro anos poderemos colher frutos. Penso que essa filosofia poderá atrair mais patrocinadores. E num futuro próximo colocarmos Angola nos lugares cimeiros em África. Essa é uma estratégia que teremos de adoptar imediatamente se Angola não se qualificar. Precisamos de começar a trabalhar um pouco mais sério, criarmos um padrão para o nosso futebol. Começarmos a incutir na cabeça das pessoas que o factor de mudança ou renovação é primordial para a perspectiva que nós temos do futuro das selecções nacionais.


É claro que os resultados imediatos são sempre o sustentáculo do nosso trabalho, mas nós não queremos nos preocupar com o imediatismo. Vamos sim nos preocupar com um processo estruturado; iniciar um processo que vise dentro de quatro a cinco anos ver Angola com uma nova roupagem.


Olhando para o vosso programa, vê-se que vocês sonham com mais d e um mandato.


Não tenhamos dúvidas. Nós queremos um primeiro, segundo e um terceiro mandato. A nossa intenção aqui é trabalhar para o futebol porque se virem o nosso programa irão ver que traçamos um projecto de longo prazo. E tenho certeza que nos próximos cinco anos Angola terá um futebol completamente diferente do que temos hoje. Porque a nossa perspectiva é apostar fortemente na formação.



E quando falamos da formação, não estamos a falar apenas das selecções, mas também dos clubes. Vamos ter de definir um fio de jogo para as selecções de Angola. E esse fio de jogo terá de ser definido em consenso com todos os técnicos nacionais. Vamos promover um encontro a nível das províncias com os técnicos. Há de haver depois um encontro nacional, com todas as comissões para se encontrar um estilo de jogo. Portanto, é necessário basilar o futebol em função da morfologia do homem angolano. E depois de fazermos isso, teremos de definir que treinador poderá orientar as selecções.

E não fazermos aquilo que se tem feito.


Os treinadores chegam a Angola e eles é que definem os seus estilos para as nossas selecções.


Será, na sua opinião, uma comissão técnica a definir o estilo do futebol nacional.


Sim. Seja qual for a origem do treinador há-de encontrar uma cartilha, onde ele se vai orientar. Seja da Europa, América do Sul, Africano ou Angolano. Não sei se o futebol europeu é o que melhor se adapta as características do futebol nacional. Se calhar o futebol brasileiro está mais próximo de nós. Mas isso não caberá a mim definir, deixo o trabalho para os técnicos.

Queremos a participação de todos, ex-jogadores, treinadores e outros sábios do futebol. Iremos fazer uma comissão com cerca de 300 pessoas.

Ou seja, a nossa visão é tão profunda quanto isso, porque achamos que se definirmos essa base do futebol, temos condições para caminhar. Temos ainda de profissionalizar em profissional, amador, semi-amador e por adiante. A ideia é profissionalizarmos o futebol sénior em Angola. O Girabola tem de ser profissionalizado, criarmos uma liga. E depois da criação dessa Liga, temos de encontrar as melhores soluções para que possamos alimentar essa liga com jogadores nacionais e de qualidade. Os clubes têm de estar muito bem estruturados, por isso, a nossa grande aposta está virada para a formação do homem. Os clubes têm de ter gente à altura de os gerir, assim como as associações provinciais de modo a que possamos de facto profissionalizar o nosso futebol. Ou seja, a ideia é fazermos uma revolução no nosso futebol. É necessário porque achamos que estamos atrasados há muitas décadas.


Como é que se pode levar muitos patrocinadores à FAF, quando o nosso futebol ainda não faz o retorno do investimento?


Para as empresas nacionais é fundamental fazermos lóbis junto do próximo governo para que se possa aprovar com urgência a Lei do Mecenato.

Mas o que tem estado afastar muito os patrocinadores têm sido a pouco visibilidade que se dá as suas marcas.

Ou seja, o retorno que essas empresas precisam é a da notoriedade dos seus produtos ou das suas marcas. Os seus produtos têm de ser publicitados junto do público-alvo. E se repararem, as selecções nacionais jogam quase sempre em Luanda, com algumas excepções. Temos de ir muitas mais vez as outras províncias, sobretudo a nível da equipa sénior. E mesmo em juniores, se trouxermos por exemplo a equipa do Real Madrid em juniores e levarmos para as outras províncias virão o impacto que essa actividade terá. Realizarmos um triangular com as equipas vizinhas ajudamos seguramente a difundir as marcas dos nossos patrocinadores. A nossa intenção é devolver o futebol as suas origens. E se nós alastrarmos essa base do futebol, os patrocinadores viram sem dúvidas.

Ou seja, quanto mais população alvo existir, mais os patrocinadores vão fazer fila para investir no futebol.

Mas para isso temos de ter coragem. Coragem para mudar as coisas que estão erradas. Por exemplo, temos feito muitos estágios fora do país, não pode ser. Temos de começar a concentrar mais as nossas selecções dentro do país. As pessoas dizem que em Angola os estágios são caros, mas temos de alterar essa situação. Precisamos de fazer uma Angola mais interna. Ao invés de irmos jogar nas Américas, Qatar e outros países, temos de trazer esses países vir jogar a Angola. Ou seja, levar a que o público tenha maior afinidade com o futebol. Criando essa afinidade, com certeza os patrocinadores que são também parte da sociedade, vão estar mais incentivados a apoiar as nossas selecções. Temos de fazer um movimento do futebol interno. Estamos muito virados para o exterior. Temos é de fazer ao contrário. Formarmos jogadores e exportar, e não apenas ao contrário.


Mas essa teoria de devolver o futebol às origens esbate na questão da ausência de espaços para prática do futebol, em Luanda em particular.

Essa questão se coloca fundamentalmente a nível de Luanda, porque Benguela e outros centros do futebol nacional a questão é bem melhor. Nós pensamos que o trabalho de lóbi junto do próprio do governo é determinante.

Ali onde era um campo de futebol e hoje é um estaleiro tem de voltar a ser campo. Isso é possível. Temos de discutir junto do governo. Se o governo determinar que em cada município existir dez quadras, não estou a falar campos, mas de quadras é possível fomentarmos outra vez o futebol.

Relva sintética é outra solução que pode colmatar ausência de campos nos bairros e municípios. Existem muitos campos em Luanda que estão degradados. Se aproveitarmos esses espaços, podemos dar um salto.

Temos de forçar esse assunto, porque perdemos a sensibilidade de termos infra-estruturas de base. Podemos ser mal interpretados, mas precisamos de recuperar as quadras do futebol, começando pela base.


Têm-se a ideia que o Girabola consome muito tempo dos recursos humanos da Federação Angolana de Futebol. Qual é o horizonte para a criação da Liga, caso sejam eleitos?


Dois ou três anos, acho que seria tempo suficiente. Se falássemos em menos tempos não seria prudente.

E qual seria a base. Pensamos que podemos já encontrar patrocinadores para começar a dar prémios as equipas do Girabola.


Mas essa é uma ideia desse elenco que nunca foi materializada?


Sim, uma coisa é falarmos outra é a sua materialização. É possível, não vamos estar a inventar nada. Temos exemplo daquilo que o basquetebol faz com o BAI. Podemos ter um Girabola Movicel, Unitel, Cuca ou Nocal, por exemplo. Essas empresas iam patrocinar a competição, e os valores seriam para pagar os prémios. E um pouco para organização como arbitragem ou outras áreas. Temos apenas é de organizar a Federação Angolana de Futebol. E saber quem faz o quê. As coisas têm de estar muito bem definidas.

Porque se não existir essa definição, as coisas não funcionam. Ou seja, se nós dotarmos a federação de uma gestão empresarial, onde as atribuições estiverem bem definidas, podemos fazer as coisas muito rigorosas.


Parece que os senhores estão a pregar no deserto, pois há informação de que o eleitorado não vota em função dos projectos.


A nossa apreciação é que essa situação é um processo que já vem de há muito tempo. Aliás, é por isso que o nosso futebol está como está. Mas nós estamos a tentar inverter essa situação junto dos clubes e das associações para que a visão seja para além do futebol.

Ou seja, para lá das pessoas que vão à federação. Temos de olhar para o futuro do nosso futebol. Nós temos ido a todas as províncias, não queremos saber se a província tem um voto, dois, três ou quatro votos. Estamos a dar a conhecer o nosso projecto para o futuro do nosso futebol. E a mensagem tem passado de tal forma que em Malanje, Cabinda e no Uíje há muita aceitação do nosso projecto. Não estamos a ir lá fazermos promessas vã.

A nossa visão é passar a mensagem sobre aquilo que queremos que seja o futebol dentro de 15, 20 ou 25 anos.


Insistindo, para o senhor que anda no futebol tem a convicção que as associações e os clubes votam em função dos projectos que cada candidato apresenta ou elegem outros critérios?


Elegem, infelizmente, outros critérios. Porque fomos tendo visão muito imediatista do futebol. Em que as pessoas servem-se mais do futebol do que o futebol delas. Por isso, é que temos projectos imediatistas. As pessoas serviram-se do futebol, e o futuro? O futuro é esses que estamos a discutir hoje. É preciso fazer as pessoas redescobrir a importância da modalidade.

O futebol precisa de várias etapas. A criança precisa de várias etapas para se maturar. Precisamos de trabalhar fortemente sobre essa condição. É fundamental a mudança de consciência e nós já começamos a mudar as consciências dos dirigentes. Se for a Malanje, se for as outras cidades é essa conversamos que vamos tendo. É a mensagem que temos passado.

Mas essa questão dos clubes elegerem outros critérios não é incentivado por quem concorre à FAF.


Há, por exemplo, acusação de de que a Lista B está prometer carros e dinheiro, enquanto vocês dizem que alguns governadores estão a orientar para que se vote na Lista A. Não é isso que leva os clubes a ignorar os projectos?


Penso que sim. Sem dúvida que este factor influenciará os agentes do futebol a fazerem as apostas erradas.

Mas não tem sido essa a nossa postura.


A nossa postura é diferente. Nós investimos num projecto. Esse projecto é muito participativo, com muitas pessoas conhecedoras do futebol, e seria como que matar esse projecto, validando mais o lado material do que o lado mais profundo do nosso projecto. Gostaríamos que o nosso projecto fosse histórico pela maneira como está concebido. Posso garantir que estamos a ser o mais transparente possível.

Gostaria que me apresentassem provas contras acusações que nos são feitas.

A Lista B não está a oferecer qualquer compensação material nem vai fazer isso. Antes pelo contrário, seria muito mais fácil, depois de ganharmos ir a todos aqueles que apostaram em nós em darmos material para facilitar o trabalho deles.



Estaria na disposição de concorrer em 2012 caso seja derrotado no dia 16 de Junho?


Estaria sim senhora. Nós só não iremos para a Federação Angolana de Futebol nessas eleições se acontecer factores exógenos a um processo normal. Mas nós estamos confiantes que estarmos lá na federação. Porque sabemos que temos muita matéria para melhoria do futebol de Angola. Quem conhece a nossa vida empresarial saberá que nós reunimos condições para gerir a federação. O meu elenco é jovem, com uma idade média na ordem de 38 anos. Podemos estabelecer um paradigma de futuro para gerir a FAF. É uma grande vantagem votar em nós.


Falou de factores exógenos. Está a falar concretamente de quê?


Fraude nas eleições. Algum factor que possa influenciar para que outros possam ganhar. Mas nós pensamos que criámos condições para ganhar essas eleições. Se dependesse das associações já teríamos ganho. E desafiava os jornalistas a fazerem uma sondagem para saber em quem as pessoas irão votar. Nós representamos o futuro. Qual é o país que não vivem dos seus jovens. Tenho certeza que vamos vencer essas eleições.


Esse seu receio não legitima as vossas acusações a Lista A


Sim, legitima sim. Temos provas concretas sobre essa matéria. Podemos fazer uma coisa diferente para que no final toda pessoa se revê nessas eleições. Escrevemos a comissão eleitoral para denunciarmos que há governadores que estão a orientar os clubes a votarem na outra lista. Há alguns fantasmas simplesmente para dar vantagens pessoais. Mas aqui não está em causa vantagem pessoal, está em causa o futebol nacional.



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